Perda de vegetação no Cerrado supera 55% e acende alerta para crise hídrica e biodiversidade

Por Redação Planeta Amazônia

Mais da metade da vegetação nativa do Cerrado brasileiro já foi destruída ao longo das últimas décadas, segundo uma revisão científica publicada na plataforma acadêmica The Conversation que sintetiza pesquisas recentes sobre o bioma. A conversão acumulada ultrapassa 55% da cobertura original — área superior a 1 milhão de quilômetros quadrados — e vem sendo impulsionada principalmente pela expansão agropecuária, crescimento urbano, mineração e especulação fundiária.

Embora dados recentes indiquem leve desaceleração nas taxas anuais de desmatamento, especialistas alertam que a degradação histórica continua avançando e transforma o Cerrado no bioma brasileiro com maior perda proporcional de vegetação nativa.

Considerado um dos principais hotspots de biodiversidade do planeta, o Cerrado abriga milhares de espécies de plantas e animais endêmicos e sustenta parte relevante das maiores bacias hidrográficas do país. Apesar disso, a região ainda recebe menos atenção em fóruns internacionais de conservação quando comparada à Amazônia.

Floresta subterrânea e papel climático

Um dos aspectos centrais destacados pelo estudo é a chamada “floresta invertida” do Cerrado. Diferentemente das florestas tropicais úmidas, onde a maior parte da biomassa está acima do solo, o bioma armazena cerca de 90% de seu carbono em raízes profundas e sistemas subterrâneos densos. Essa característica transforma a região em um importante sumidouro de carbono e regulador dos recursos hídricos.

Pesquisadores também alertam que estratégias inadequadas de restauração — como o plantio indiscriminado de espécies exóticas em áreas naturalmente abertas — podem comprometer ainda mais a funcionalidade ecológica do bioma, reforçando a necessidade de recuperação baseada em sementes nativas e processos naturais.

Pressões e lacunas na conservação

O Cerrado é formado por um mosaico de campos, savanas e florestas, cada qual com diferentes níveis de vulnerabilidade. Campos rupestres e veredas, por exemplo, ocupam áreas restritas, apresentam alto grau de endemismo e sofrem forte pressão da mineração e da expansão agrícola.

Além disso, incêndios provocados por ação humana fora dos regimes naturais, espécies invasoras e aumento da frequência de eventos extremos vêm intensificando a degradação, mesmo em áreas onde não há desmatamento direto.

O levantamento também aponta lacunas na proteção legal. Atualmente, pouco mais de 8% do Cerrado está dentro de unidades de conservação, sendo menos de 3% sob proteção integral. Especialistas defendem a ampliação dessas áreas e a revisão de parâmetros ambientais, como percentuais mínimos de preservação em propriedades rurais, para evitar a fragmentação de ecossistemas essenciais.

Crise hídrica silenciosa

Outro alerta diz respeito à água. O bioma sustenta aquíferos estratégicos e rios que abastecem grande parte do país, mas sofre com irrigação intensiva, contaminação por agroquímicos e construção de barragens. A retirada excessiva de água já provoca redução no fluxo de cursos d’água e degradação de áreas úmidas fundamentais para o equilíbrio hidrológico.

Segundo os pesquisadores, a proteção do Cerrado deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser requisito para a segurança econômica e climática do Brasil.

By emprezaz

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