Pressão indígena faz governo recuar sobre hidrovias na Amazônia

Por Redação Planeta Amazônia

O governo federal anunciou a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que previa estudos para concessão de hidrovias em rios amazônicos e motivou mais de um mês de mobilização indígena no rio Tapajós, no Pará.

A decisão foi comunicada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, após reunião com lideranças indígenas dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira. Segundo o governo, a revogação será oficializada no Diário Oficial da União.

O decreto havia incluído trechos dos rios Tapajós, Tocantins-Araguaia e Madeira no Programa Nacional de Desestatização, medida que provocou protestos de povos indígenas e organizações socioambientais, que apontaram riscos de concessão à iniciativa privada e impactos ambientais.

Movimento indígena considera decisão vitória

A mobilização indígena durou mais de 30 dias e reuniu cerca de 1.200 indígenas de 17 povos na região de Santarém, onde manifestantes ocuparam áreas ligadas ao terminal da empresa Cargill.

Para lideranças do movimento, a revogação representa uma vitória histórica após semanas de protestos, articulação política e reuniões com autoridades federais.

Representantes indígenas participaram de agendas em Brasília com o governo federal, incluindo encontros com os ministros Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas.

Organizações como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) afirmaram acompanhar a publicação oficial da medida e seus desdobramentos.

Debate sobre impactos segue aberto

Embora o Ministério de Portos e Aeroportos tenha afirmado que o decreto tratava apenas de estudos técnicos — e não de privatização —, o movimento indígena argumentou que a medida poderia abrir caminho para obras de dragagem, aumento da navegação e expansão do corredor logístico do agronegócio.

Outro ponto central das críticas foi a ausência de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas, direito previsto em tratados internacionais.

Durante a mobilização, lideranças chegaram a estabelecer prazo para resposta do governo e ampliaram protestos, incluindo manifestações em São Paulo e ocupação pacífica de instalações administrativas em Santarém.

Mulheres indígenas seguem como protagonistas

Mulheres e jovens indígenas tiveram papel central na organização da mobilização, articulando comunicação, logística e negociação política.

Lideranças como Alessandra Korap Munduruku, Maria Leusa Munduruku e Auricelia Arapiun relataram ameaças e intimidações ao longo dos protestos, especialmente em ambientes digitais.

O episódio mais grave ocorreu no início de fevereiro, quando um vereador avançou com um carro contra barricadas montadas por manifestantes. Ninguém ficou ferido, e o caso passou a ser investigado.

Próximos passos

Apesar da revogação, lideranças afirmam que o debate sobre infraestrutura, dragagem e transporte de commodities na Amazônia permanece.

O movimento indígena defende que futuras decisões envolvendo hidrovias e grandes obras na região só ocorram com consulta prévia e participação direta das comunidades.

By emprezaz

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