Por Redação Planeta Amazônia
As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, e deixaram ao menos 64 mortos reacenderam o debate sobre a capacidade das cidades brasileiras de enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos. O volume acumulado chegou a 733,6 milímetros até o dia 26 de fevereiro, o equivalente a 331% da média histórica para o mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Além das vítimas fatais, houve deslizamentos, desabamentos e inundações em diferentes bairros da cidade, que decretou estado de emergência.
O fenômeno responsável pelas chuvas foi uma supercélula, sistema atmosférico caracterizado por uma tempestade convectiva com rotação interna, capaz de produzir precipitações volumosas, granizo e rajadas intensas de vento. De acordo com o pesquisador Enner Alcântara, do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais da Unesp em parceria com o Cemaden, esse tipo de sistema pode se manter ativo por horas, concentrando grande volume de chuva sobre uma mesma região.
Embora ainda não seja possível estabelecer uma relação direta entre a formação da supercélula e as mudanças climáticas, há consenso na comunidade científica de que o aquecimento global aumenta a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água, ampliando o potencial para precipitações intensas. Esse contexto contribui para a maior frequência de eventos hidrometeorológicos extremos observados nos últimos anos.
Juiz de Fora é o terceiro grande episódio de desastre climático registrado no país em um intervalo de quatro anos. Em 2022, Petrópolis, no Rio de Janeiro, registrou mais de 200 mortes após deslizamentos causados por chuvas intensas. Em 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou enchentes históricas que atingiram centenas de municípios e deixaram 184 mortos. Embora cada evento tenha características meteorológicas próprias, especialistas apontam um elemento comum: a combinação entre fenômenos atmosféricos severos e vulnerabilidade urbana.
No caso de Juiz de Fora, a configuração geomorfológica da cidade agrava o risco. Localizada em área montanhosa e com expansão urbana consolidada em encostas e proximidades do Rio Paraibuna, o município apresenta alta suscetibilidade a deslizamentos e cheias. A impermeabilização do solo e a ocupação de áreas de risco, muitas vezes por populações em situação de vulnerabilidade social, ampliam o impacto dos desastres.
Especialistas defendem que a gestão de risco não pode se restringir à resposta emergencial. A preparação envolve integração entre previsão meteorológica, monitoramento contínuo, protocolos claros de alerta, planos de evacuação e comunicação eficiente com a população. Mesmo cidades que dispõem de planos de contingência podem sofrer impactos severos quando a magnitude do evento ultrapassa a capacidade da infraestrutura existente.
Além da resposta imediata, pesquisadores apontam a necessidade de adaptação estrutural das cidades. Entre as medidas recomendadas estão a restauração florestal para proteção de encostas, a recuperação de várzeas e matas ciliares, a ampliação de áreas verdes para aumentar a infiltração da água no solo e investimentos consistentes em sistemas de drenagem e contenção. Também é considerada fundamental a implementação de políticas habitacionais que reduzam a ocupação de áreas de risco.
Para Enner Alcântara, a questão central não é impedir a ocorrência de chuvas intensas, mas redesenhar as cidades para conviver com extremos climáticos mais frequentes e intensos. A preparação não elimina o fenômeno natural, mas pode reduzir significativamente o número de vítimas e os prejuízos materiais.
A sucessão de tragédias recentes indica que o Brasil enfrenta um desafio estrutural. Diante do avanço das mudanças climáticas, especialistas afirmam que a adaptação urbana deve deixar de ser uma medida pontual e passar a integrar de forma permanente as políticas públicas.

