Um estudo publicado na revista científica New Phytologist indica que áreas úmidas do Cerrado podem armazenar mais carbono por hectare do que a Amazônia, reforçando a importância do bioma para o equilíbrio climático global. A pesquisa aponta que esses ambientes podem concentrar cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare, valor que pode ser até seis vezes maior que a densidade média registrada na Amazônia.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores liderados pela cientista Larissa Verona, com participação de instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Cary Institute of Ecosystem Studies, dos Estados Unidos, o Instituto Max Planck, da Alemanha, e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Carbono acumulado ao longo de milhares de anos
A pesquisa avaliou estoques de carbono presentes no solo de áreas do Cerrado conhecidas como veredas e campos úmidos, ambientes que apresentam grande capacidade de retenção de matéria orgânica.
Para realizar a análise, os cientistas coletaram amostras de solo de até quatro metros de profundidade. Estudos anteriores haviam analisado apenas camadas superficiais do solo — entre 20 centímetros e um metro — o que, segundo os autores, levou a uma subestimação do carbono armazenado nesses ambientes em até 95%.
Testes de datação por radiocarbono indicaram que parte desse material orgânico acumulado tem idade média de cerca de 11 mil anos, com registros que ultrapassam 20 mil anos, demonstrando que o carbono foi armazenado ao longo de milênios.
Condições naturais favorecem o armazenamento
Segundo os pesquisadores, a grande capacidade de armazenamento ocorre porque os solos dessas áreas permanecem constantemente úmidos e com baixo nível de oxigênio, o que desacelera o processo de decomposição da matéria orgânica.
Esse ambiente favorece o acúmulo gradual de resíduos vegetais ao longo do tempo, transformando essas regiões em importantes reservatórios naturais de carbono.
A pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo, explica que essas condições impedem que o carbono seja liberado rapidamente para a atmosfera.
Risco climático com degradação do bioma
Apesar da importância desses ambientes para o clima global, os pesquisadores alertam que a degradação do Cerrado pode liberar grandes quantidades de carbono armazenado no solo.
Entre as principais ameaças estão a expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação. Quando esses solos secam, a matéria orgânica acumulada ao longo de milhares de anos passa a se decompor rapidamente, liberando dióxido de carbono e metano, gases responsáveis pelo aquecimento global.
Medições realizadas pelos cientistas indicam que cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa desses ambientes ocorrem durante a estação seca, período em que a perda de umidade acelera a decomposição da matéria orgânica.
Bioma estratégico para o clima
O Cerrado é considerado o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando cerca de 26% do território brasileiro. Além de ser reconhecido como a savana mais biodiversa do planeta, abriga nascentes que alimentam aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas que abastecem o rio Amazonas.
Para os pesquisadores, o papel do Cerrado no equilíbrio climático global ainda é subestimado. Segundo Larissa Verona, a importância desses estoques subterrâneos de carbono só começou a ser compreendida recentemente.
Especialistas defendem que ampliar a proteção das áreas úmidas do bioma é fundamental para evitar a liberação desse carbono acumulado e reduzir os riscos associados às mudanças climáticas.

