AUTORES
João Gabriel de Araujo Oliveira – Doutor em Economia (Universidade de Brasília), Pesquisador (pós-Doutorado) do Departamento de Economia da Universiade de Brasília, Professor Visitante do PPE da Universidade Estadual de Londrina e Consultor (STC) Macro do Banco Mundial e da Habe Lux – Estratégia, Marketing e Inovação. As opiniões expressas nesse artigo não representam, necessariamente, as defendidas e apresentadas pelas instituições ou seus representantes que João pertence.
Vitória Altfuldisck Soares – Asistente de Pesquisa de Economia do Projeto de Crescimento Econômico da Universidade Estadual de Londrina, sob supervisão de João Gabriel.
Conflitos armados no Oriente Médio carregam implicações que vão muito além da geopolítica energética e da segurança internacional. Do ponto de vista econômico, guerras na região tendem a gerar danos ambientais relevantaes e a comprometer a cooperação multilateral em acordos climáticos — precisamente quando a governança ambiental global mais depende de estabilidade política e coordenação entre nações. A interação entre instabilidade regional e agenda climática é, portanto, um tema que merece atenção crescente de economistas, cientistas e formuladores de política pública.
Conflitos militares produzem efeitos sobre o meio ambiente que são imediatos e frequentemente irreversíveis. A infraestrutura energética da região — refinarias, oleodutos e terminais portuários — torna-se alvo estratégico em guerras, elevando o risco de vazamentos de petróleo, incêndios industriais e contaminação de solos e recursos hídricos. Episódios históricos demonstram que a destruição de instalações petrolíferas pode lançar milhões de barris no ambiente, provocar emissões massivas de gases poluentes e deixar sequelas ecológicas que perduram por décadas. Em regiões áridas e ecologicamente frágeis como o Oriente Médio, esses impactos tendem a ser ainda mais severos, comprometendo aquíferos, ecossistemas costeiros e a qualidade do ar em extensas áreas transfronteiriças.
Além dos danos diretos, guerras na região tendem a afetar o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta, por onde transita cerca de um quinto do petróleo consumido globalmente. Qualquer interrupção nesse corredor logístico pressiona os preços internacionais do petróleo e do gás natural, alimentando a inflação global e elevando custos de produção em diversas economias. Paradoxalmente, esse mesmo choque pode gerar efeitos contraditórios para a agenda climática. Se preços mais altos de combustíveis fósseis podem, em tese, acelerar investimentos em eficiência energética e fontes renováveis, no curto prazo governos tendem a priorizar a segurança do abastecimento, expandindo a produção doméstica de petróleo, gás ou carvão. Crises geopolíticas, portanto, frequentemente resultam em políticas emergenciais que ampliam — em vez de reduzir — a dependência de fontes poluentes.
O impacto mais profundo manifesta-se, contudo, no plano institucional. A governança climática global exige cooperação entre nações e estabilidade diplomática; conflitos armados desviam atenção política e recursos financeiros para agendas de segurança, enfraquecendo o compromisso com políticas ambientais e prejudicando negociações multilaterais como as do Acordo de Paris.
Sanções econômicas, disputas estratégicas e rivalidades geopolíticas reduzem a disposição dos países para compartilhar tecnologia, coordenar políticas energéticas ou financiar iniciativas climáticas globais. Num cenário de maior polarização, os mecanismos de cooperação ambiental tornam-se mais difíceis de implementar — justamente quando a crise climática exige respostas coletivas mais ambiciosas. A história das negociações climáticas mostra que avanços significativos ocorreram em períodos de relativa distensão internacional, o que reforça a interdependência entre paz e sustentabilidade.
Há ainda um elemento sistematicamente subestimado: guerras alteram profundamente a alocação de recursos públicos. Gastos militares crescentes, frequentemente financiados por endividamento ou redirecionamento orçamentário, comprometem investimentos em infraestrutura verde, inovação tecnológica e adaptação climática — criando um efeito de “crowding out ambiental”, no qual prioridades de segurança substituem compromissos de longo prazo com a sustentabilidade. A literatura econômica sobre períodos de conflito prolongado aponta reduções expressivas na destinação de recursos públicos para políticas ambientais, com efeitos que persistem mesmo após o restabelecimento da paz.
Tensões prolongadas no Oriente Médio, independentemente de seus atores ou motivações, expõem a fragilidade da arquitetura institucional construída nas últimas décadas para enfrentar o aquecimento global. Num momento em que a economia mundial deveria intensificar esforços para reduzir emissões e avançar na transição energética, a experiência histórica mostra como choques geopolíticos podem atrasar — e até reverter — conquistas ambientais obtidas com muito esforço. O desafio para a comunidade internacional será garantir que imperativos de segurança não comprometam definitivamente a cooperação climática. Do contrário, o custo ambiental de conflitos regionais poderá transformar-se em um problema global de proporções ainda maiores nas próximas décadas.

