Após 20 anos de pesquisa, livro de geógrafo mostra como crime organizado reconfigurou e transformou a região em “territórios”, com avanços em terras indígenas e quilombolas
“Quando comecei a pesquisar a Amazônia predominavam pequenas gangues voltadas ao comércio local de drogas nas cidades. Atualmente, a atuação é de grupos armados estruturados, que disputam rotas, territórios e mercados.” A transformação descrita pelo geógrafo Aiala Colares, pesquisador do Observatório de Estudos em Defesa da Amazônia (OBED), é radical: a região deixou de ser passagem e se tornou centro do narcotráfico global. É o que revela seu novo livro “Geometrias de Poder do Narcotráfico na Amazônia”, publicado pela Editora Appris, após 20 anos de pesquisa.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 45% dos municípios da Amazônia Legal já têm presença de facções — um crescimento de 32% entre 2024 e 2025. A principal transformação identificada pelo pesquisador ao longo de duas décadas diz respeito ao processo de territorialização das facções criminosas. Desde a década de 1980, a Bacia Amazônica já vinha sendo utilizada por narcotraficantes como rota de passagem. Nos últimos anos, contudo, o papel estratégico da região se intensificou, conta Aiala, professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA). Esse fenômeno se expressa tanto na consolidação do controle de áreas estratégicas quanto na expansão da presença criminosa em territórios indígenas e quilombolas.
A Amazônia deixou de ser apenas uma rota e passou a se consolidar como um polo logístico que conecta a produção de cocaína da Cordilheira dos Andes aos mercados da Europa, da África e da América do Norte. O Brasil é hoje o segundo maior consumidor da droga no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e também desempenha um papel central como território de trânsito. Essa dupla função — de exportação e consumo interno — transformou a região em um verdadeiro tabuleiro disputado pelo crime organizado.
É nesse contexto que surge o título do livro, em referência a um dos conceitos centrais da obra: as geometrias de poder. “São formas espaciais articuladas pelo crime organizado, que instituem mecanismos de controle de rotas estratégicas e impõem relações de poder, produzindo territórios que se sobrepõem à vida em comunidade de povos indígenas, populações quilombolas e comunidades ribeirinhas”, define Aiala, doutor em desenvolvimento socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.
Na prática, facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não buscam ocupar toda a floresta, mas sim identificar e controlar pontos estratégicos que, conectados em rede, asseguram o domínio do sistema: um porto fluvial no Rio Solimões, uma pista de pouso clandestina próxima à fronteira com a Colômbia ou uma cidade-chave na conexão entre rotas terrestres e fluviais.
O livro também evidencia a convergência entre narcotráfico e crimes ambientais. Relatórios recentes mostram que facções usam carregamentos de madeira para transportar cocaína e que o preço do ouro subiu 280% entre 2015 e 2025, impulsionando a mineração ilegal. “Essa convergência tornou-se mais intensa entre 2019 e 2022. Nesse período, órgãos relevantes de fiscalização ambiental foram enfraquecidos ou instrumentalizados pelo Estado”, observa o autor. “Destacam-se o aumento do contrabando de madeira e a expansão de garimpos ilegais em terras indígenas.”
Quem paga o preço mais alto são as comunidades tradicionais. Aiala mostra que hoje existem diversas aldeias indígenas que vêm sentindo os efeitos negativos culturais, sociais e políticos do narcotráfico. Os jovens tornam-se vulneráveis diante da ausência de políticas de redução de danos direcionadas para suas realidades. “Quando os territórios indígenas e quilombolas tornam-se rotas, temos o aumento da violência física e psicológica que afetam o cotidiano dessas populações tradicionais”, afirma.
Para o autor, a reversão da rápida expansão das facções na Amazônia depende, sobretudo, de como o governo irá articular políticas de segurança em escala regional, integradas aos países da Amazônia internacional e construídas em diálogo com as populações locais. “Além disso, essas estratégias precisam ser complementadas por ações específicas voltadas ao esporte, ao lazer e à cultura, entre outras iniciativas que contribuam para a promoção da justiça social e para a garantia de direitos”, conclui.
Sobre o autor: Aiala Colares Oliveira Couto é geógrafo e pesquisador do Observatório de Estudos em Defesa da Amazônia (OBED), vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA). Integra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública no projeto Cartografias da Violência na Amazônia. É professor e pesquisador da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e doutor em desenvolvimento socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. É também bacharel em Direito pela Universidade da Amazônia.

