Povos tradicionais fortalecem alimentação escolar com produtos da sociobiodiversidade e ampliam debate sobre clima e saúde

Comunidades indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais estão ampliando a presença de alimentos da sociobiodiversidade na alimentação escolar brasileira por meio de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A iniciativa vem sendo apontada por especialistas e organizações socioambientais como uma estratégia que conecta saúde, cultura, segurança alimentar e enfrentamento das mudanças climáticas.

A inclusão desses alimentos nas escolas ocorre após adaptações recentes nas regras dos programas federais, que passaram a considerar especificidades de povos e comunidades tradicionais. Com isso, preparos regionais e alimentos antes invisibilizados passaram a integrar a merenda escolar em diferentes territórios do país.

Entre os produtos incluídos estão preparos tradicionais como o berarubu — alimento indígena produzido pelos povos Kayapó e Xikrin na Terra do Meio, no Pará — além de itens como patauá, pupunha, tucupi, beiju e variedades regionais de banana.

Alimentação escolar como política climática

Organizações socioambientais e especialistas afirmam que a valorização da alimentação tradicional também funciona como política climática. Isso porque os sistemas produtivos de povos tradicionais estão historicamente associados ao manejo sustentável da floresta e da biodiversidade.

Ao estimular a produção local e os sistemas agrícolas tradicionais, programas como o PNAE e o PAA fortalecem práticas de baixo impacto ambiental, reduzem a dependência de alimentos ultraprocessados e incentivam a conservação dos territórios.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), a adequação das políticas públicas permitiu ampliar a diversidade alimentar nas escolas e fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade.

Diversidade alimentar e valorização cultural

Além da dimensão ambiental, a inclusão desses alimentos também representa reconhecimento cultural.

Em muitos territórios, alimentos tradicionais carregam significados ligados à identidade, ancestralidade e organização social das comunidades. A presença desses produtos na alimentação escolar ajuda a preservar saberes tradicionais e fortalecer vínculos culturais entre as novas gerações.

Em municípios como Iporanga, no Vale do Ribeira (SP), a lista de itens da alimentação escolar saltou de 55 para 130 produtos entre 2025 e 2026 após a inclusão de alimentos tradicionais.

Avanços nas políticas públicas

Nos últimos anos, o governo federal promoveu mudanças nas normas do PAA e do PNAE para facilitar a participação de povos tradicionais nos programas de compra pública de alimentos.

Uma das principais mudanças foi o reconhecimento oficial de povos e comunidades tradicionais dentro dos critérios diferenciados do PNAE. Antes restrito a indígenas e quilombolas, o tratamento específico passou a abranger os 28 segmentos reconhecidos pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais.

A resolução também ampliou os valores repassados para alimentação escolar nessas comunidades, elevando o valor per capita para R$ 0,98 por estudante/dia.

Gargalos ainda limitam expansão

Apesar dos avanços, organizações e gestores apontam que ainda existem obstáculos importantes para ampliar a participação dessas comunidades nos programas públicos.

Entre os principais entraves estão exigências burocráticas, emissão de documentação fiscal e regras sanitárias que muitas vezes não dialogam com a realidade dos territórios tradicionais.

O ISA destaca que muitos alimentos produzidos pelas comunidades sequer possuem cotação formal de mercado, o que dificulta sua inclusão nos sistemas oficiais de compra pública.

Ultraprocessados avançam nos territórios

O debate sobre alimentação tradicional também ganhou força após estudos apontarem aumento do consumo de alimentos ultraprocessados entre povos e comunidades tradicionais no Brasil.

Pesquisa baseada em dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) identificou crescimento consistente do consumo de hambúrgueres, embutidos, bebidas adoçadas e outros produtos industrializados em diferentes grupos tradicionais entre 2015 e 2022.

Nhangri Kayapó e Piekayê Kayapó preparam o Berarubu em aldeia na Terra do Meio (PA) 📷 Fellipe Abreu/ISA

Especialistas alertam que a substituição gradual de alimentos tradicionais por ultraprocessados pode aumentar riscos de obesidade, diabetes, hipertensão e outras doenças crônicas.

Alimentação, território e sustentabilidade

Para pesquisadores e movimentos sociais, garantir alimentação saudável para povos tradicionais está diretamente ligado à proteção dos territórios e ao fortalecimento da agricultura familiar e extrativista.

Nesse contexto, a alimentação escolar passa a ser vista não apenas como política nutricional, mas como instrumento de preservação ambiental, fortalecimento cultural e desenvolvimento sustentável.

A principal defesa das organizações socioambientais é ampliar políticas públicas capazes de reconhecer a diversidade alimentar brasileira e garantir que os sistemas tradicionais de produção continuem vivos nos territórios e nas escolas.

By emprezaz

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