A crise em Ormuz e a conta climática que o Brasil tenta cobrar

Por João Gabriel de Araujo Oliveira e Camila Ramos de Amorim
Cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo passa por um corredor marítimo de poucos quilômetros de largura entre o Irã e Omã. Quando o Estreito de Ormuz entra em crise, o efeito imediato aparece nas bombas de combustível. O efeito menos visível — e mais relevante para o Brasil neste momento — recai sobre o financiamento das promessas climáticas que o próprio país ajudou a costurar em Belém.

O que por anos foi tratado como hipótese deixou de ser. Desde a escalada militar de fevereiro de 2026, que opôs Irã, Estados Unidos e Israel, o estreito está efetivamente fechado: a navegação comercial despencou, mais de uma centena de petroleiros chegou a ficar ancorada à espera de condições de passagem e as grandes armadoras suspenderam travessias. O reflexo no preço foi imediato — o barril tipo Brent alcançou US$ 117 em abril, o maior patamar desde 2008, e segue ao redor de US$ 95, cerca de 40% acima de um ano atrás, mesmo com as negociações de trégua ainda inconclusas. A lição se confirma: um gargalo logístico estreito basta para reorganizar o mercado global de energia.

É aí que mora o paradoxo para o Brasil. Choques de energia empurram governos de volta aos combustíveis fósseis em nome da segurança de abastecimento — um padrão historicamente recorrente. Países mais dependentes de petróleo e gás passam a sustentar que a segurança do abastecimento deve preceder metas ambientais mais rígidas e esfriam a disposição de bancar o financiamento climático. Esse financiamento, porém, é exatamente o ativo que o Brasil transformou em legado da COP30: o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado em Belém em novembro de 2025, encerrou a conferência com cerca de US$ 6,7 bilhões anunciados e precisa alcançar US$ 10 bilhões de capital semente ainda em 2026 — primeiro degrau rumo aos US$ 25 bilhões de capital júnior e à meta final de mobilizar US$ 125 bilhões. Um fundo desse tipo depende de aportes recorrentes de países ricos, justamente os primeiros a recuar quando o preço da energia dispara. O momento da cobrança não poderia ser pior.

O Brasil chega a essa encruzilhada em posição ambígua. De um lado, mantém uma matriz energética com participação de renováveis muito acima da média mundial — hidrelétrica, eólica, solar e biocombustíveis —, o que o protege relativamente de choques no preço do petróleo. De outro, tornou-se um exportador relevante de óleo, com o pré-sal respondendo pela maior parte da produção nacional e peso fiscal expressivo. Esse duplo papel — referência em renováveis e produtor de fósseis em expansão — é o que torna o país tão sensível à geopolítica do petróleo.

Sob preços altos e prolongados, a pressão interna aponta para uma direção só: produzir mais. Receita pública adicional, estímulo à exploração no pré-sal e o argumento da segurança energética formam um conjunto politicamente difícil de resistir. A tentação é maior porque a renda do petróleo já está amarrada ao orçamento: royalties e participações especiais financiam serviços públicos em estados e municípios produtores, e a expectativa de receita do pré-sal sustenta projeções fiscais federais. Em um país que convive com restrição fiscal crônica, abrir mão de arrecadação adicional num momento de preços altos é uma decisão que poucos governos, de qualquer matiz, estariam dispostos a tomar.

Cada passo nessa direção, no entanto, cobra um custo na credibilidade do Brasil como interlocutor das negociações climáticas — a mesma credibilidade que o país usou para liderar a agenda de florestas em Belém. Uma crise prolongada em Ormuz não é, assim, um evento regional distante. Ela redistribui influência entre blocos de países, redefine prioridades energéticas e reabre, na prática, a velha disputa entre desenvolvidos e em desenvolvimento sobre quem paga a conta da transição. Economias emergentes como a brasileira sentem o golpe por várias vias ao mesmo tempo: preços de commodities, câmbio e condições de financiamento externo.

O desafio brasileiro é duplo. No curto prazo, amortecer o impacto econômico de um choque que não controla. No médio prazo, impedir que a resposta a esse choque comprometa tanto a diversificação da própria matriz quanto a capacidade de cobrar dos países ricos as promessas feitas em Belém. Conciliar a receita do pré-sal com a ambição climática nunca foi trivial. Sob a pressão de uma crise energética global, e com o legado da COP30 ainda dependente de cheques que precisam ser efetivamente assinados, essa conciliação deixa de ser uma agenda de longo prazo para virar um teste imediato de coerência.

João Gabriel de Araujo Oliveira é doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Economia da UnB e professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Camila Ramos de Amorim é assistente de pesquisa em Economia no projeto de crescimento econômico da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

As opiniões expressas são de responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, as posições das instituições às quais são vinculados.

By emprezaz

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