Pesquisadores identificam 16 elementos de terras raras em área de 120 mil hectares em Roraima

Uma área de mais de 120 mil hectares no município de Caracaraí, no Sul de Roraima, está no centro de pesquisas sobre o potencial de terras raras na Amazônia. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), já identificaram 16 dos 17 elementos químicos classificados como terras raras nas amostras coletadas no chamado Complexo Barreira.

Localizada entre as serras do Baraúna e do Anauá, a região apresenta uma combinação particular de rochas muito antigas, relevo e argilas que favorece a concentração desses elementos. As terras raras são consideradas estratégicas por serem utilizadas na produção de baterias, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa.

Apesar dos resultados considerados promissores, os próprios pesquisadores ressaltam que os estudos ainda estão em estágio inicial. A existência dos elementos e as concentrações encontradas não significam que já esteja comprovada a viabilidade econômica de uma futura mineração.

Concentrações chegam a 0,6%

Até agora, as análises identificaram todos os elementos do grupo das terras raras com exceção do promécio.

As concentrações verificadas nas áreas estudadas variam aproximadamente entre 0,3% e 0,6%. Segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem, depósitos desse tipo costumam apresentar índices entre 0,01% e 0,3%, o que faz com que os valores encontrados em Roraima sejam classificados como anômalos.

Mais de 50 trincheiras já foram abertas em diferentes pontos do complexo, e as terras raras foram encontradas em todas elas, inclusive em profundidades de até 15 metros.

O pesquisador Vladimir de Souza, doutor em bioestratigrafia da UFRR, explica que a equipe agora busca determinar a concentração específica de cada um dos elementos.

Segundo Souza, o trabalho ainda está no começo porque os 16 elementos identificados aparecem em proporções diferentes. O pesquisador destaca, porém, que a continuidade da estrutura geológica observada na área amplia as perspectivas sobre o potencial da ocorrência mineral.

Próxima etapa será investigar o subsolo

A pesquisa da UFRR e da USP encontra-se atualmente na etapa de análises químicas das amostras. Os resultados também estão sendo organizados em um banco de dados.

A USP deverá utilizar no trabalho uma tecnologia baseada em nanotecnologia, desenvolvida pela própria universidade, para auxiliar na identificação e separação dos elementos encontrados.

O próximo passo será a realização de sondagens, com perfurações destinadas a verificar se as ocorrências minerais permanecem em maiores profundidades.

Essa etapa será especialmente importante para compreender a extensão e as características do depósito. Somente com o avanço das pesquisas será possível dimensionar melhor o potencial mineral da região e avaliar uma eventual exploração econômica.

Rochas têm até mais de 2 bilhões de anos

A explicação para as concentrações encontradas passa pela história geológica de Roraima.

As rochas existentes na área têm idades entre aproximadamente 1,4 bilhão e mais de 2 bilhões de anos. O complexo está situado em uma zona de limite entre dois blocos tectônicos, onde movimentos da crosta terrestre produziram transformações nas rochas ao longo de milhões de anos.

De acordo com Carlos Eduardo Lucas Vieira, doutor em geociências da UFRR e integrante das pesquisas, o intenso tectonismo registrado nessa região contribuiu para concentrar terras raras e outros minerais.

O pesquisador explica que a localização entre grandes estruturas geológicas é uma das características que ajudam a compreender a presença dos elementos encontrados atualmente.

Argilas ajudam a concentrar os elementos

Outro aspecto que chama atenção dos pesquisadores está literalmente no solo.

Em alguns locais, a camada superficial possui apenas cerca de 50 centímetros. Logo abaixo aparece o saprolito, material resultante do intenso processo de alteração das rochas que ainda conserva parte de sua estrutura original.

Em um dos pontos analisados, essa formação alcança quase cinco metros de profundidade e apresenta mais de 30% de argila iônica.

Para José Frutuoso do Vale Júnior, agrônomo da UFRR e doutor em Solos e Nutrição de Plantas, a característica é incomum e está relacionada à geologia e ao relevo da área situada entre as duas serras.

As argilas possuem ainda alta capacidade de troca de cátions (CTC). Como apresentam cargas negativas em sua superfície e os elementos de terras raras têm carga positiva, elas conseguem atrair e reter esses elementos, reduzindo sua perda por lixiviação.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que as terras raras aparecem concentradas no material analisado.

Brilho das argilas também fornece pistas

O aspecto brilhante de algumas argilas encontradas no Complexo Barreira não é apenas uma curiosidade visual.

A geóloga Lorena Malta, doutora em geoquímica, explica que o brilho está relacionado também à presença de micas, entre elas a biotita.

Segundo a pesquisadora, análises feitas por microscopia eletrônica e geoquímica já confirmaram a associação de terras raras a esse mineral.

A composição das argilas, o intemperismo das rochas e a própria configuração geológica da região formam, portanto, um conjunto de condições que pode ter favorecido a concentração dos elementos ao longo de milhões de anos.

Descoberta começou com uma argila encontrada durante construção

A história da investigação do local começou de maneira incomum.

O complexo pertence ao empresário Lusérgio Barreira desde 2019. Naquele ano, uma argila encontrada durante a construção da casa da família chamou a atenção de um pedreiro.

Barreira estava em tratamento médico em São Paulo e recebeu uma amostra enviada pela esposa. O material foi encaminhado a um laboratório e os primeiros resultados apontaram a presença de terras raras.

Sem autorização para realizar perfurações naquele momento, o empresário passou a coletar amostras disponíveis em formigueiros, buracos de tatu e leitos de igarapés para novas análises.

Posteriormente, requereu outros terrenos, formando a área que hoje ultrapassa os 120 mil hectares.

Terras raras são estratégicas para novas tecnologias

Embora sejam chamadas de “raras”, essas substâncias não são necessariamente escassas na natureza. A dificuldade está principalmente em encontrar concentrações adequadas e em separar e processar elementos que possuem propriedades químicas muito semelhantes.

O grupo reúne 17 elementos utilizados em setores considerados estratégicos para a economia contemporânea, especialmente tecnologias digitais, transição energética e equipamentos de alta complexidade.

É justamente esse cenário que aumenta a importância das pesquisas desenvolvidas em Roraima. Se as próximas etapas confirmarem a extensão, a concentração e a viabilidade do depósito, o Complexo Barreira poderá assumir relevância para o debate brasileiro sobre minerais estratégicos.

Por enquanto, contudo, o cenário é de pesquisa científica e prospecção. As equipes ainda precisam compreender a continuidade das ocorrências em profundidade e reunir dados suficientes para avaliar as características do depósito.

A expectativa manifestada pelos envolvidos é que a continuidade das pesquisas permita determinar se o potencial geológico identificado poderá, no futuro, ser convertido em uma atividade economicamente viável para Caracaraí, Roraima e o país.

By emprezaz

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