Cercada pela maior bacia hidrográfica do planeta, Manaus pode enfrentar escassez crítica de água até 2040

Localizada no coração da Amazônia e cercada por uma das maiores disponibilidades de água doce do mundo, Manaus pode enfrentar níveis críticos de abastecimento de água até 2040 caso não consiga adaptar sua infraestrutura ao crescimento da demanda e aos efeitos das mudanças climáticas.

O alerta faz parte do estudo inédito “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, divulgado pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados. A pesquisa foi apresentada nesta quinta-feira (3), durante seminário realizado na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo.

O levantamento chama atenção para um paradoxo amazônico: disponibilidade natural de água em abundância não significa, necessariamente, segurança hídrica.

Além dos impactos das mudanças climáticas sobre os períodos de estiagem, o aumento projetado do consumo humano e industrial e o uso disseminado de águas subterrâneas colocam pressão crescente sobre a capacidade de abastecimento da maior cidade da Amazônia.

Estudo sobre segurança hídrica em Manaus — Instituto Trata Brasil

Mais de 27 mil poços podem estar operando na cidade

Um dos números que mais chama atenção no estudo diz respeito à utilização de águas subterrâneas.

A estimativa apresentada é de que existam mais de 27 mil poços em operação em Manaus, mas apenas cerca de 5 mil estejam registrados pelos órgãos de controle.

A diferença indica uma utilização muito maior desse recurso do que aquela formalmente monitorada.

Parte significativa do setor industrial também utiliza captação subterrânea para manter suas operações, segundo o estudo.

O problema não está simplesmente na existência dos poços. O alerta está relacionado ao uso sem outorga, à ausência de controle adequado e à dificuldade de conhecer com precisão o volume de água retirado dos aquíferos.

Mudanças climáticas podem agravar estiagens

O risco para Manaus também está relacionado às transformações climáticas observadas na Amazônia.

O estudo aponta o agravamento das estiagens provocado pelas mudanças climáticas como um dos fatores capazes de aumentar a pressão sobre os recursos hídricos da região.

A preocupação ganha ainda mais relevância depois das secas severas enfrentadas pela Amazônia nos últimos anos e diante do retorno do El Niño em 2026.

A combinação de estiagens mais intensas com crescimento populacional e expansão das atividades econômicas significa que a disponibilidade de água precisa ser analisada não apenas pela quantidade existente nos rios, mas também pela capacidade de captação, tratamento, distribuição e gestão do recurso.

Água subterrânea não deve ser solução indiscriminada

O levantamento defende a diversificação da matriz hídrica de Manaus, reduzindo a dependência indiscriminada de sistemas individuais de abastecimento.

Uma das alternativas apresentadas é ampliar a adesão ao sistema público.

Segundo o estudo, a utilização da rede coletiva pode reduzir a necessidade de abertura e operação de poços e permitir maior controle sobre a quantidade de água retirada do ambiente.

A mudança também possibilitaria ampliar o monitoramento dos mananciais e planejar de maneira mais integrada o abastecimento da cidade.

Indústrias aparecem como peça importante da solução

O setor industrial ocupa posição estratégica nessa discussão.

Manaus abriga um dos maiores polos industriais do país, e parte das empresas utiliza captação subterrânea em suas operações.

O estudo defende maior adesão das indústrias à rede pública de abastecimento e sustenta que essa migração poderia produzir benefícios que ultrapassam as próprias empresas.

A pesquisa aponta que, quando consumidores industriais de grande porte passam a utilizar o sistema público, há possibilidade de diluição dos custos fixos do serviço, o que pode contribuir para tarifas mais baixas nas categorias residencial, social e vulnerável.

A lógica é ampliar a base de usuários do sistema coletivo ao mesmo tempo em que se reduz a pressão sobre os aquíferos.

Reúso e controle de perdas também entram na estratégia

O estudo não concentra a solução apenas na migração dos poços para a rede pública.

Entre as medidas consideradas importantes aparecem também o reúso de água, uso racional dos recursos, controle dos poços, monitoramento dos mananciais e redução das perdas no sistema de distribuição.

O combate às perdas é especialmente relevante porque uma parcela significativa da água tratada no Brasil não chega efetivamente aos consumidores.

Dados do SINISA referentes a 2023 indicam que 40,31% da água produzida nos sistemas de distribuição brasileiros era perdida antes de chegar aos consumidores. A situação é particularmente preocupante nas regiões Norte e Nordeste.

Melhorar a eficiência da infraestrutura significa, portanto, ampliar a quantidade de água disponível sem necessariamente aumentar na mesma proporção a retirada dos mananciais.

“Segurança hídrica se constrói com planejamento”

Para Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, a situação de Manaus mostra que mesmo uma cidade cercada por grandes volumes de água precisa planejar seu abastecimento.

Ela defende uma estratégia baseada em planejamento e mitigação de riscos, com investimentos em reúso, consumo racional, controle dos poços e proteção dos mananciais.

A avaliação reforça uma distinção importante: abundância hídrica e segurança hídrica não são sinônimos.

Uma região pode possuir grandes rios e aquíferos e, ainda assim, enfrentar problemas de abastecimento se houver desequilíbrio entre disponibilidade, demanda, infraestrutura, qualidade da água e gestão dos recursos.

Águas de Manaus defende mobilização coletiva

O estudo também traz a posição da empresa responsável pelos serviços de água e esgoto na capital amazonense.

Para Pedro Freitas, diretor-presidente da Águas de Manaus, a região vive um momento decisivo para evitar problemas de abastecimento no médio prazo.

Segundo Freitas, ampliar a conscientização sobre a diversificação da matriz hídrica, combater perdas e preservar as fontes naturais de água exige mobilização de diferentes setores da sociedade.

O executivo também defende maior adesão do setor industrial ao sistema público como forma de ampliar o acesso à água com qualidade e segurança e, simultaneamente, tornar mais sustentável o uso dos recursos hídricos.

Segurança hídrica vai além da quantidade de água nos rios

A situação de Manaus ajuda a revelar um desafio que pode parecer contraditório para quem observa a Amazônia apenas pela dimensão de seus rios.

A região abriga a maior bacia hidrográfica do planeta, mas isso não elimina problemas relacionados a infraestrutura, saneamento, distribuição, mudanças climáticas, crescimento da demanda e exploração inadequada das águas subterrâneas.

O Norte brasileiro, inclusive, continua enfrentando algumas das maiores deficiências de saneamento do país. Estudo anterior do Instituto Trata Brasil apontou que aproximadamente 80% dos habitantes da região conviviam com algum tipo de privação relacionada ao saneamento, considerando problemas como ausência de ligação à rede geral, irregularidade no fornecimento, falta de reservatório, ausência de coleta de esgoto ou de banheiro.

Em Manaus, a discussão apresentada pelo novo levantamento desloca o foco da simples disponibilidade natural para a capacidade de garantir água de maneira sustentável no futuro.

Alerta ganha força às vésperas do Dia da Amazônia

A divulgação ocorre dois dias antes do Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, e em um momento em que a segurança hídrica volta a ocupar posição central no debate ambiental da região.

O estudo sustenta que reduzir o uso indiscriminado de sistemas individuais, ampliar a adesão à rede pública — inclusive pelo setor industrial —, controlar poços, reduzir perdas e proteger os mananciais são medidas necessárias para diminuir os riscos projetados para as próximas décadas.

O caso de Manaus evidencia, assim, uma das contradições mais importantes da Amazônia contemporânea.

Estar cercado por água não é suficiente para garantir que ela continue disponível, em quantidade e qualidade adequadas, para milhões de pessoas.

Sem planejamento e adaptação, até uma metrópole localizada no centro da maior bacia hidrográfica do planeta pode enfrentar dificuldades para assegurar um dos recursos mais abundantes — e essenciais — da própria Amazônia.

By emprezaz

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