Saúde chega a 40 comunidades ribeirinhas no Amazonas e soma quase 3 mil procedimentos em três meses

Pontos de atendimento instalados em Carauari oferecem serviços de enfermagem, odontologia e telessaúde, reduzindo a necessidade de longas viagens pelos rios amazônicos.

Moradores de 40 comunidades ribeirinhas de Carauari, no interior do Amazonas, passaram a contar com atendimento de saúde mais próximo de suas residências por meio de duas estruturas implantadas na região do Médio Juruá. Entre julho e setembro de 2026, os espaços registraram 607 atendimentos e 2.997 procedimentos, incluindo serviços de enfermagem, assistência odontológica e consultas realizadas por telessaúde.

Os resultados foram divulgados nesta quarta-feira (28) pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), responsável pela execução do projeto SUS na Floresta, desenvolvido em parceria com instituições apoiadoras e o poder público.

Os atendimentos são realizados nos Pontos de Atendimento à Saúde das comunidades Bauana e Campina, estruturas que buscam fortalecer a Atenção Primária à Saúde e facilitar o acesso da população aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).

Na região do Médio Juruá, onde o deslocamento até a sede municipal pode exigir horas ou até dias de navegação, a disponibilidade de atendimento nas próprias comunidades representa uma alternativa importante para reduzir as dificuldades enfrentadas pelos moradores.

Além de ampliar o acesso aos cuidados básicos, os pontos de atendimento permitem acompanhar pacientes com doenças crônicas, realizar avaliações iniciais e orientar encaminhamentos para serviços especializados quando necessário.

Unidades registram quase 3 mil procedimentos

Os dois pontos de atendimento apresentaram resultados expressivos durante os três meses analisados.

Na comunidade Bauana, o Ponto de Atendimento à Saúde Raimundo Ribeiro de Lima, conhecido como Saborá, contabilizou 219 atendimentos e 1.215 procedimentos, recebendo moradores de 15 comunidades.

Já na região do Campina, o Ponto de Atendimento à Saúde Laice Santos do Nascimento registrou 388 atendimentos e 1.782 procedimentos, com participação de moradores de 33 localidades.

Embora a soma das localidades atendidas pelos dois espaços seja superior a 40, a Fundação Amazônia Sustentável esclarece que algumas comunidades utilizaram os serviços de ambas as unidades.

Por isso, o alcance conjunto corresponde a 40 comunidades distintas.

Entre os 607 atendimentos realizados, os serviços de enfermagem concentraram a maior demanda, com 480 registros.

A assistência odontológica contabilizou 112 atendimentos, enquanto as consultas médicas e de enfermagem realizadas por telessaúde somaram 15.

A instituição ressalta que os números representam atendimentos prestados, e não a quantidade de pessoas diferentes beneficiadas, uma vez que um mesmo morador pode ter utilizado os serviços mais de uma vez durante o período.

Atendimento próximo de casa reduz custos e dificuldades

Para as famílias que vivem nas comunidades ribeirinhas, a presença dos pontos de saúde representa uma mudança importante na rotina.

Antes da implantação das estruturas, moradores que precisavam de acompanhamento médico enfrentavam deslocamentos prolongados até a sede municipal, muitas vezes com custos elevados de transporte.

Antônio Raimundo, de 54 anos, morador da comunidade Bauana, relata que a disponibilidade de atendimento próximo de casa facilitou o acompanhamento de sua hipertensão.

“Eu sou hipertenso e, antes, a cada seis meses precisava ir à cidade para fazer uma avaliação e saber se podia tomar outro medicamento. Agora, o atendimento é aqui. Venho ao polo e, por meio da comunicação com os médicos, consigo avaliar se melhorei e se preciso mudar a medicação. Isso facilita muito a nossa vida”, afirmou.

Segundo ele, além de reduzir as despesas com deslocamento, a estrutura permite que situações de urgência recebam uma avaliação inicial mais rapidamente.

O morador recorda o caso de uma pessoa da comunidade que sofreu um acidente durante a noite e conseguiu atendimento no próprio ponto de saúde.

Após a avaliação da equipe, o paciente foi encaminhado para a cidade, onde poderia receber os cuidados necessários.

A experiência demonstra a importância da presença de profissionais e equipamentos de saúde em localidades onde o acesso aos serviços depende das condições de navegação e da disponibilidade de transporte.

Telessaúde aproxima pacientes de profissionais especializados

Um dos principais recursos utilizados pelo projeto é a telessaúde, modalidade que permite a comunicação entre pacientes, equipes locais e profissionais de saúde por meio de tecnologias digitais.

A ferramenta contribui para o acompanhamento de moradores que necessitam de avaliações médicas e orientações relacionadas ao tratamento de doenças.

No caso de pacientes com condições crônicas, como hipertensão, o atendimento remoto pode facilitar a avaliação periódica e reduzir a necessidade de viagens frequentes.

O serviço também oferece suporte às equipes que atuam presencialmente nas comunidades, permitindo a troca de informações e o esclarecimento de dúvidas sobre diferentes situações clínicas.

Para Mickela Souza, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, a presença das estruturas contribui para fortalecer o acesso da população às políticas públicas.

“Os pontos de atendimento à saúde representam o fortalecimento da cidadania da comunidade e do acesso à política pública de saúde. É o SUS chegando à floresta, chegando ao território e oferecendo seus serviços, trabalhando na prevenção de doenças e de agravos e contribuindo para fortalecer a saúde e o bem viver das pessoas que vivem na floresta”, destacou.

A proposta é integrar os recursos tecnológicos aos serviços presenciais, oferecendo alternativas de atendimento adaptadas às características geográficas da região.

Profissionais de saúde também recebem capacitação

Além dos atendimentos destinados diretamente à população, o projeto desenvolve atividades de apoio e formação para os profissionais de saúde que trabalham no território.

Entre julho e setembro, foram realizadas 20 teleconsultorias, destinadas ao suporte técnico das equipes.

Essas atividades foram contabilizadas separadamente dos 607 atendimentos prestados aos pacientes.

O projeto também promoveu quatro webpalestras sobre temas relacionados à assistência e à prevenção de doenças.

Em julho, os profissionais participaram de atividades sobre cuidados com feridas, desde a higienização até a cicatrização, além de treinamento para utilização da plataforma Conexão Saúde.

A formação sobre a ferramenta foi destinada às equipes dos municípios de Carauari e Eirunepé.

Em agosto, os encontros abordaram as plantas alimentícias da Amazônia e a valorização da biodiversidade alimentar presente nas comunidades.

Já em setembro, a programação foi direcionada à identificação de sinais de alerta e aos cuidados relacionados à saúde mental.

As atividades buscam ampliar os conhecimentos das equipes e fortalecer a qualidade dos serviços oferecidos à população.

Projeto busca fortalecer o SUS em comunidades isoladas

Os pontos de atendimento fazem parte do projeto SUS na Floresta, realizado pela Fundação Amazônia Sustentável em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane.

A iniciativa conta com a gestão da parceria pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da Prefeitura de Carauari, da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (AMARU) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema).

O objetivo é fortalecer a Atenção Primária à Saúde nas comunidades ribeirinhas por meio da implantação de um sistema de telessaúde integrado ao SUS.

A estratégia considera as dificuldades enfrentadas pelas populações que vivem em áreas distantes dos centros urbanos, onde a disponibilidade de serviços médicos pode ser limitada pelas condições de transporte e infraestrutura.

Ao aproximar os atendimentos das comunidades, o projeto busca contribuir para a prevenção de doenças, o acompanhamento de pacientes e a identificação precoce de situações que exigem cuidados adicionais.

Acesso à saúde permanece como desafio na Amazônia

A experiência desenvolvida em Carauari evidencia a importância de políticas públicas adaptadas às características territoriais da Amazônia.

Em diversas comunidades ribeirinhas, o acesso aos serviços de saúde depende de deslocamentos fluviais que podem durar horas ou dias, dificultando consultas de rotina e o acompanhamento contínuo de pacientes.

Além das distâncias, as variações no nível dos rios podem interferir na mobilidade das famílias, especialmente durante períodos de estiagem intensa.

Nesse contexto, a implantação de estruturas comunitárias e o uso de tecnologias de atendimento remoto representam alternativas para ampliar a presença dos serviços públicos.

Os resultados registrados entre julho e setembro demonstram a demanda por assistência próxima das comunidades e a importância de fortalecer as equipes que atuam nesses territórios.

Com quase 3 mil procedimentos realizados em três meses, os pontos de atendimento de Bauana e Campina reforçam o potencial de iniciativas que combinam assistência presencial, telessaúde e capacitação profissional para melhorar as condições de acesso à saúde das populações amazônicas.

By emprezaz

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