Redação Planeta Amazônia
Indígenas de três terras indígenas da Região Serra da Lua articulam a criação da primeira Rede de Sementes de Roraima. Moradores de Canauanim, Malacacheta e Tabalascada estiveram reunidos com representantes do Instituto Socioambiental (ISA) no ‘I Seminário de Produção de Sementes Nativas e Restauração Ecológica de Roraima’ para definir os próximos passos do projeto.
O evento ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, no município do Cantá – mesma cidade onde estão localizadas as outras terras indígenas que integram o projeto. Cento e vinte e nove pessoas, sendo 61 homens e 68 mulheres, participaram do evento que ocorreu ao longo do dia 17 de maio de 2024.
“Almejamos chegar a um trabalho contínuo. Ele chega em boa hora, após um período de incêndios, e vai agregar muito a comunidade indígena. Falamos muito em preservar, mas ainda não havíamos percebido a importância da discussão sobre restaurar” disse César da Silva, tuxaua-geral da Serra da Lua.
Na fase inicial do projeto, as sementes coletadas serão usadas para restauração de áreas indicadas pelas comunidades como espaços prioritários a serem restaurados. Com o avanço na estruturação do trabalho da rede, as sementes poderão ser vendidas para quem se interessar – poder público, empresas ou proprietários rurais, por exemplo – em restaurar Roraima com sementes nativas do lavrado e da floresta.
Durante o seminário, os indígenas puderam tirar dúvidas sobre a Rede de Sementes, dar sugestões e explicar os cuidados necessários para avançar com o trabalho dentro das três terras indígenas alcançadas inicialmente pelo projeto.
“Isso é muito especial, principalmente para as mulheres que já coletam sementes desde criança. Com esse seminário, aumentamos o nosso conhecimento para restaurar as áreas degradadas. Isso vai nos ajudar, inclusive, com a nossa medicina tradicional, vamos poder catalogar essas sementes”, disse Alcileia Pinho Cadete, Wapichana da comunidade Canauanim

Os assessores do ISA também explicaram aos indígenas sobre os próximos passos para estruturação da Rede de Sementes, como escolha do nome, definição dos locais para coleta de sementes e das áreas para a restauração. O projeto também apoiará na construção de uma casa de sementes e realizará oficinas sobre as sementes nativas e métodos de conservação, beneficiamento e plantio, inclusive através da Muvuca.
Emerson da Silva Cadete, assessor técnico de produção de sementes e restauração ecológica e a coordenadora do ISA em Roraima Lidia Montanha Castro, foram os responsáveis por passar o diálogo sobre o projeto com o Conselho indígena de Roraima (CIR) definindo a região Serra da Lua.
Na sequência, um longo diálogo com os tuxauas das comunidades Tabalascada, Canauanim e Malacacheta, direcionado pelo Protocolo de Consulta da Região Serra da Lua. Com os devidos consentimentos chegamos a este momento, no seminário reunindo lideranças, professores, alunos e moradores das três comunidades.

“O seminário explicou o projeto que basicamente tem dois eixos: coleta de sementes nativas e restauração ecológica. A ideia era explicar e tudo que fizermos hoje será a partir destas explicações do projeto e dos questionamentos das comunidades. Tudo isso guiará as nossas ações futuras”, explicou Emerson.
Serviços Ecossistêmicos
Durante o evento, Danielle Celentano, analista de restauração ecológica do ISA, explicou sobre a relação da floresta e do lavrado com os serviços ecossistêmicos e o carbono. Ela pontuou que garantir a conservação e a restauração desses ecossistemas garante diversos benefícios, como a provisão de alimentos, água, madeira, assim como o controle de temperatura, a regulação hidrológica, captura de carbono, entre outros.
“O carbono, falando de maneira simples, é o elemento que constitui a tudo que é vivo. Quando temos uma semente de Samaúma, que é tão pequena, mas que cresce e vira uma árvore gigante na floresta é porque ocorre a fotossíntese: a planta vai capturando o carbono que está em forma de CO2 no ar e incorpora ao próprio crescimento fixando o carbono na biomassa”, explica.
Chegada no lavrado
Com presença em 24 redes em diversos territórios no Brasil, a finalidade do Redário é fornecer o apoio necessário à produção de sementes nativas, impulsionar mercado e viabilizar as melhores sementes para a recomposição de cada ecossistema.
Há mais de 1.200 pessoas envolvidas na coleta de sementes, sendo 60% apenas mulheres. Em 2022, o Redário comercializou mais de 16 toneladas de 170 tipos de sementes nativas e no ano anterior, 2021, gerou renda para mais de mil famílias de quase 50 comunidades. Até maio de 2024, o ISA e seus parceiros já restauraram mais de 11.000 hectares de florestas utilizando o método da Muvuca.
Para o coordenador de restauração do ISA, Eduardo Malta Campos Filho, o cenário novo impõe experimentação para entender a melhor forma de trabalhar com as sementes nativas.
“O que vamos ter que aprender é quais são as espécies que são mais importantes para recompor a vegetação e vamos fazer isso com o conhecimento que as comunidades indígenas já têm”, explica.
Ainda de acordo com Eduardo, o conhecimento técnico adquirido em outras redes poderá ser utilizado na primeira fase, mas o lavrado precisa mais do que árvores para ser recomposto e, por isso, novas técnicas de recomposição precisarão ser criadas.
“Uma parte muito importante do lavrado é este tapete de plantas nativas, que formam esse capim, esse campo. Além das árvores, tem o capim e as ervas nativas. Tudo me deixou muito feliz, até as perguntas que foram aparecendo porque percebi que são de pessoas que já se imaginam fazendo esse trabalho”, disse.
No segundo semestre, o ISA promoverá oficinas de capacitação dentro das próprias comunidades. Durante estas oportunidades serão definidos o nome da rede, as espécies que serão coletadas, os locais de restauração e quem serão os coletores.
Através do projeto de Produção de sementes nativas e restauração ecológica em Roraima, apoiado pela União Europeia, o ISA também apoiou comunidades indígenas da Região Serra da Lua no combate a incêndios florestais e à seca durante o recorde de focos de calor com doações de alimentação, combustível e ferramentas (bombas costais, terçados, luvas, óculos de proteção, perneiras entre outros).