A mobilização de povos indígenas no rio Tapajós, no Pará, entrou no segundo mês sob tensão crescente, com lideranças femininas denunciando ameaças, intimidações e episódios de violência durante protestos contra o decreto federal que prevê estudos para concessão de hidrovias amazônicas à iniciativa privada.
O movimento contesta o Decreto nº 12.600/2025, que incluiu hidrovias dos rios Tapajós, Tocantins-Araguaia e Madeira no Programa Nacional de Desestatização. A medida abriu caminho para possíveis concessões e gerou reação de comunidades indígenas, que exigem a revogação do decreto.
Desde 22 de janeiro, indígenas ocupam a área de acesso ao porto da empresa Cargill, em Santarém (PA), um dos principais pontos de escoamento de grãos do agronegócio na região. A mobilização reúne cerca de 1.200 pessoas, incluindo mulheres, jovens, crianças e lideranças tradicionais.
Mulheres na linha de frente relatam ameaças
Lideranças indígenas afirmam que mulheres estão na linha de frente da organização da ocupação e, ao mesmo tempo, mais expostas a ataques e hostilidade, principalmente nas redes sociais.
A liderança Auricelia Arapiun relatou ameaças veladas contra integrantes do movimento e contra jovens responsáveis pela segurança do acampamento. Um dos episódios mais graves ocorreu em 5 de fevereiro, quando um vereador avançou com um carro contra barricadas montadas pelos manifestantes. O caso é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF).
Entre as principais articuladoras da mobilização estão Alessandra Korap Munduruku, Maria Leusa Munduruku e Auricelia Arapiun, responsáveis por comunicação, articulação política e organização das ações.

Governo, Justiça e MPF acompanham impasse
O MPF recomendou que não seja utilizada força policial para impedir a ocupação. Paralelamente, a Justiça Federal determinou a desocupação do acesso ao terminal da Cargill, decisão mantida em segunda instância.
O Ministério dos Povos Indígenas informou que acompanha a mobilização e mantém diálogo com lideranças. A ministra Sonia Guajajara declarou publicamente posicionamento contrário à privatização de territórios, rios e florestas indígenas.
Apesar do diálogo, lideranças afirmam que a principal demanda — a revogação do decreto — não foi atendida.
Escalada de protestos e pressão nacional
Em fevereiro, a mobilização ganhou reforço de delegações Kayapó e Panará, vindas do Alto Xingu. Também foram realizadas ações como barqueata no rio Tapajós e ocupação simbólica de balsas de grãos.
Movimentos sociais convocaram protestos em outras cidades para pressionar o governo e empresas envolvidas no corredor logístico do chamado Arco Norte, que integra rodovias, ferrovias e hidrovias voltadas ao escoamento de commodities.
A Cargill foi procurada para comentar a ocupação e o diálogo com comunidades indígenas, mas não havia se pronunciado até o fechamento da reportagem.
Disputa envolve logística do agronegócio e impactos ambientais
A discussão sobre a hidrovia está inserida em um contexto mais amplo de expansão logística para transporte de soja, minérios e outras commodities.
Segundo organizações socioambientais, o processo apresenta questionamentos como ausência de consulta prévia às comunidades — prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho — e possíveis impactos ambientais relacionados a dragagem, aumento da navegação e obras de infraestrutura.
Estudos do governo indicam que a hidrovia poderia reduzir custos logísticos e ampliar o transporte fluvial, mas ainda dependem de análises técnicas e ambientais.
Governo diz que decreto não autoriza obras
O governo federal afirma que o decreto não autoriza obras nem privatiza a hidrovia, mas prevê apenas estudos técnicos para avaliar uma possível concessão futura.
Também foi criado um grupo de trabalho interministerial para discutir o processo de consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas.
Lideranças, no entanto, defendem que a consulta deveria ter ocorrido antes da edição do decreto e mantêm a ocupação até que haja revogação das medidas.

