Um laboratório científico brasileiro instalado na Antártica Central tem sido peça-chave no monitoramento da camada de ozônio e na coleta de dados que apontam sinais de recuperação do “buraco” atmosférico que preocupa cientistas há décadas. O Criosfera 1, plataforma polar remota e autônoma, opera em uma das regiões mais isoladas do planeta e gera informações fundamentais sobre radiação ultravioleta (UVA e UVB) e outros componentes atmosféricos.
Operando de forma contínua desde sua instalação em 2011/2012, o laboratório foi estabelecido por meio de uma parceria entre diversas instituições brasileiras, como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Projeto Antártico Brasileiro (Proantar).
Localizado a cerca de 2.500 km ao sul da Estação Antártica Comandante Ferraz, o módulo funciona 100% com energia renovável (solar e eólica) e sua posição geográfica — com mínima interferência de nuvens e sob a influência do vórtex polar — torna possível a coleta de dados altamente representativos sobre a radiação que chega à Terra e a composição da atmosfera.
O Criosfera 1 não se limita ao monitoramento da radiação UV. A plataforma coleta dados sobre CO₂, ozônio troposférico, aerossóis (como carbono negro e carbono orgânico), raios cósmicos, acumulação de neve e condições meteorológicas, além de apoiar pesquisas microbiológicas e médicas no gelo antártico.
Os sensores de radiação permitem comparar medições de UVA e UVB com outras estações científicas na região, contribuindo com a comunidade científica internacional. Embora níveis elevados de UVB tenham sido registrados historicamente — reflexo da redução do ozônio após os anos 1980 — os dados mais recentes indicam sinais de recuperação da camada estratosférica de ozônio, em linha com programas globais como o “The Decade of Ozone Restoration”, lançado pelas Nações Unidas.
A importância do Criosfera 1 se reflete não apenas na contribuição científica sobre mudanças climáticas e proteção atmosférica, mas também na compreensão dos efeitos da radiação sobre a biota local, como o plâncton no oceano Austral, que pode sofrer impactos moleculares pelo aumento de UVB.
O monitoramento contínuo realizado pelo laboratório é considerado essencial para acompanhar a evolução da camada de ozônio, estimada por modelos científicos a se recuperar plenamente em diferentes períodos ao longo das próximas décadas, e reforçar a relevância de políticas internacionais de proteção do meio ambiente.
Reportagem baseada na publicaçao do Poder360 , a qual foi republicada do The Conversation sob licença Creative Commons.
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