Por Redação Planeta Amazônia
Os estados brasileiros avançaram na formulação de políticas públicas voltadas às mudanças climáticas, com a criação de planos, leis e inventários de emissões. No entanto, a ausência de orçamento estruturado e de execução efetiva ainda limita a capacidade de transformar essas diretrizes em ações concretas diante da intensificação dos eventos extremos.
A avaliação consta no Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, que aponta uma ampliação da capacidade institucional dos estados para monitorar emissões, identificar áreas vulneráveis e planejar respostas. Apesar disso, o ritmo das catástrofes climáticas tem superado a capacidade de resposta do poder público. Em 2024, os prejuízos com desastres ambientais ultrapassaram R$ 38 bilhões no país, evidenciando o chamado “custo da inação”.
O estudo indica que o principal desafio agora é transformar planejamento em execução. Isso envolve converter metas em obras, diretrizes em orçamento executado e compromissos em resultados mensuráveis, além de integrar a agenda climática às políticas econômicas, fiscais e sociais de longo prazo.
Entre os entraves identificados está a desigualdade regional na capacidade de resposta. Nem todos os estados possuem instrumentos básicos de gestão climática: apenas parte conta com inventários de emissões, poucos concluíram planos de adaptação e a maioria ainda não dispõe de fundos específicos para financiar ações climáticas.
Os dados também revelam um cenário ambiental complexo. Embora o desmatamento tenha registrado queda de mais de 30% em 2024, as queimadas cresceram de forma expressiva em todos os principais biomas, com destaque para aumentos na Amazônia, Cerrado e Pantanal.
No campo das emissões, houve redução geral puxada pela diminuição do desmatamento, mas setores como agropecuária e transporte continuam entre os principais responsáveis. O transporte rodoviário, por exemplo, responde por mais de 90% das emissões do setor em grande parte dos estados.
O estudo também aponta oportunidades estratégicas. Cerca de 58 milhões de hectares de pastagens degradadas poderiam ser convertidos em sistemas produtivos sustentáveis, como agricultura regenerativa e sistemas agroflorestais. Ao mesmo tempo, setores industriais começam a avançar com alternativas como hidrogênio de baixa emissão, biometano e combustíveis sustentáveis.
Apesar dos avanços, a dependência de combustíveis fósseis ainda representa um desafio, especialmente no transporte. A possível exploração de petróleo na Margem Equatorial, por exemplo, levanta debates sobre o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e compromissos climáticos.
Outro ponto crítico é o aumento dos desastres climáticos. O país registrou 4.699 eventos em 2024, incluindo secas, chuvas intensas e incêndios, com impactos sociais significativos, como desalojamento de milhares de pessoas e perdas econômicas concentradas em regiões mais vulneráveis.
O levantamento também destaca a falta de financiamento como um dos principais gargalos. Embora alguns estados já contem com orçamento específico para o clima, muitos ainda enfrentam limitações fiscais. Como alternativa, o estudo aponta mecanismos como mercados de carbono, REDD+, bioeconomia e parcerias público-privadas para viabilizar investimentos.
A análise conclui que a agenda climática precisa deixar de ser tratada como resposta emergencial e passar a integrar o planejamento estrutural do país. Sem isso, o avanço institucional pode não se traduzir em impactos reais diante da aceleração das mudanças climáticas.

