Operações do governo federal para retirada de garimpeiros da Terra Indígena Munduruku, no sudoeste do Pará, reduziram invasões dentro do território indígena, mas não conseguiram desmontar a estrutura econômica e logística que sustenta o garimpo ilegal na região. A conclusão faz parte de um relatório divulgado pelo Instituto Mãe Crioula em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa).
Segundo o estudo, após as ações de desintrusão realizadas pelo governo federal e concluídas há cerca de um ano, muitos garimpeiros migraram para áreas do entorno da Terra Indígena Munduruku e para outros territórios protegidos da Amazônia.
Os pesquisadores afirmam que a repressão conseguiu reduzir a presença física de invasores dentro da área indígena, mas não atingiu de forma estrutural os financiadores, comerciantes e operadores logísticos envolvidos na cadeia ilegal do ouro.
Jacareacanga continua dependente da economia do garimpo
O relatório aponta que o município de Jacareacanga, no Pará, segue economicamente dependente do garimpo ilegal, mesmo após as operações federais.
Segundo os pesquisadores, o ouro ilegal continua movimentando setores ligados a transporte, comércio de combustível, compra de equipamentos, pistas clandestinas e circulação financeira na região.
A avaliação é de que o combate concentrado apenas na retirada de garimpeiros não foi suficiente para interromper a cadeia econômica que sustenta a atividade ilegal.
Rede criminosa se adapta às operações
O estudo também destaca a capacidade de adaptação das organizações ligadas ao garimpo ilegal.
Com o aumento da fiscalização em terras indígenas, grupos criminosos passaram a deslocar operações, criar novas rotas logísticas e utilizar mecanismos de lavagem de ouro para manter a atividade funcionando.
Pesquisadores e órgãos ambientais afirmam que o garimpo ilegal deixou de funcionar apenas como atividade artesanal e passou a operar com estrutura semelhante à do crime organizado, envolvendo maquinário pesado, financiamento externo, tráfico de mercúrio e redes de lavagem de dinheiro.
Terras indígenas seguem sob pressão
A Terra Indígena Munduruku se tornou um dos principais símbolos da expansão do garimpo ilegal na Amazônia nos últimos anos.
Além do desmatamento, a atividade provocou contaminação de rios por mercúrio, conflitos territoriais, violência e impactos sobre a saúde das comunidades indígenas.
Segundo lideranças Munduruku e organizações socioambientais, a retirada dos invasores representou um avanço importante, mas ainda insuficiente diante da permanência das estruturas econômicas ligadas ao ouro ilegal.
Operações federais reduziram invasões
Desde 2023, o governo federal intensificou ações de desintrusão em terras indígenas da Amazônia, especialmente em áreas Yanomami e Munduruku. As operações envolveram Ibama, Polícia Federal, Funai e Força Nacional.
As ações incluíram destruição de maquinário, fechamento de pistas clandestinas, apreensão de combustível e retirada de estruturas utilizadas pelos garimpeiros.
Apesar disso, especialistas alertam que o garimpo ilegal possui forte capacidade de reorganização devido à alta valorização internacional do ouro e à fragilidade dos mecanismos de controle da cadeia comercial do minério.
Lavagem de ouro e fragilidade regulatória
O relatório também reforça críticas antigas sobre falhas na rastreabilidade do ouro comercializado no Brasil.
Investigações do Ministério Público Federal e de pesquisadores apontam que permissões de lavra garimpeira (PLGs) e sistemas frágeis de fiscalização permitem que ouro extraído ilegalmente em terras indígenas seja “esquentado” e inserido no mercado formal.
Segundo especialistas, a ausência de controle rigoroso sobre origem, transporte e comercialização do minério favorece esquemas de lavagem de ouro ilegal em diferentes regiões da Amazônia.
Debate sobre combate estrutural ao garimpo
Pesquisadores defendem que operações policiais precisam ser acompanhadas de ações permanentes de inteligência financeira, controle do comércio do ouro e combate às redes empresariais que sustentam a atividade ilegal.
Também são apontadas como prioritárias medidas relacionadas à fiscalização de mercúrio, controle de maquinário pesado e monitoramento de pistas clandestinas usadas pela logística do garimpo.
Amazônia entre repressão e reorganização do crime
O relatório do Instituto Mãe Crioula reforça a percepção de que o garimpo ilegal na Amazônia opera hoje como uma cadeia econômica complexa e altamente adaptável.
Nesse cenário, especialistas alertam que expulsar garimpeiros de territórios indígenas representa apenas uma etapa do enfrentamento. Sem desmontar os mecanismos financeiros, comerciais e logísticos do ouro ilegal, a atividade tende a migrar e se reorganizar em outras áreas da floresta.

