A Amazônia Legal voltou a concentrar a maior parte dos assassinatos no campo no Brasil, segundo a nova edição do relatório Conflitos no Campo Brasil 2025, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O levantamento registrou 26 mortes no país, das quais 16 ocorreram na região — o equivalente a 61% do total.
Os dados revelam não apenas a concentração geográfica da violência, mas também sua intensificação. Em comparação com 2024, quando foram registrados 13 assassinatos, o número dobrou em um ano, indicando agravamento dos conflitos no meio rural.
Conflitos estruturais e expansão econômica
De acordo com o relatório, a escalada da violência está diretamente ligada ao avanço de atividades econômicas sobre a Amazônia, como pecuária, agricultura e mineração. A coordenadora da CPT, Maria Petronila, aponta que os assassinatos fazem parte de um processo mais amplo de pressão territorial.
“Não é só o desmatamento. É um ciclo. Vem o desmatamento, depois a pecuária, a soja, a mineração. Tirar os povos desses territórios faz parte desse processo”, afirmou.
A análise reforça que os conflitos no campo não são pontuais, mas estruturais — resultado da disputa por terra e recursos naturais em áreas de expansão econômica.
Estados mais afetados
Os assassinatos registrados na Amazônia Legal se concentraram principalmente em três estados: Pará e Rondônia, com sete casos cada, e Amazonas, com dois registros.
Além disso, o relatório aponta que fazendeiros aparecem como os principais responsáveis pelos crimes, envolvidos em mais da metade dos casos registrados.
Violência generalizada e impunidade
Para a CPT, o cenário revela uma dinâmica de violência sistemática, marcada pela ausência de resposta efetiva do Estado.
“Você vê que é uma violência muito generalizada […] com falta de atuação do Estado. Não há investigação nem punição, então ela se repete”, afirmou Maria Petronila.
Além dos assassinatos, o relatório registra aumento de outras formas de violência, como ameaças, intimidação e coerção, indicando um ambiente permanente de risco para populações rurais e tradicionais.
Quem são as vítimas
Entre as vítimas estão trabalhadores sem terra, posseiros, indígenas, quilombolas, pescadores e lideranças comunitárias. Os casos revelam um padrão recorrente: conflitos por posse e uso da terra em áreas pressionadas pela expansão econômica.
A reportagem também destaca episódios recentes que reforçam a gravidade do cenário, como o assassinato de lideranças rurais e massacres associados a disputas fundiárias na região amazônica, incluindo áreas próximas à fronteira entre Amazonas e Acre.
Um cenário ampliado de violência
Os dados vão além dos homicídios. Em 2025, a Amazônia Legal registrou mais de 1.080 ocorrências de conflitos no campo, envolvendo disputas por terra, água e trabalho escravo.
Os conflitos por terra seguem como principal motor da violência, com centenas de registros, especialmente em áreas de expansão agropecuária. Já os conflitos por água — frequentemente ligados a grandes empreendimentos — também aparecem como fator crescente de tensão.
Desenvolvimento e conflito na Amazônia
O relatório reforça que a violência no campo está diretamente ligada ao modelo de desenvolvimento adotado na região, baseado na exploração de recursos naturais e na expansão de fronteiras econômicas.
Para especialistas, esse cenário evidencia uma contradição estrutural: enquanto a Amazônia é vista como estratégica para o crescimento econômico, também se consolida como uma das regiões mais perigosas para quem vive e defende seus territórios.
A combinação entre disputa fundiária, ausência de políticas efetivas e impunidade mantém a violência como elemento recorrente — e, em muitos casos, invisibilizado — no cotidiano amazônico.

