Redação Planeta Amazônia
A sétima edição da revista Aru, publicação intercultural da bacia do Rio Negro, foi lançada reunindo narrativas, reflexões e experiências de mulheres indígenas da Amazônia. A iniciativa, organizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), reforça o protagonismo feminino na produção de conhecimento e na construção de agendas políticas e socioambientais na região.
A edição reúne 21 textos assinados por autoras indígenas e não indígenas do Brasil e da Colômbia, propondo uma reflexão ampla sobre o papel das mulheres nos territórios amazônicos e nas transformações sociais, culturais e ambientais.
Produção de conhecimento a partir do território
Diferente de abordagens tradicionais, a revista parte das experiências vividas pelas próprias mulheres indígenas, articulando temas como participação política, economia indígena, saúde, violência de gênero, saberes tradicionais e mudanças climáticas — incluindo discussões relacionadas à COP30.
Segundo Dulce Morais, assessora de gênero do Programa Rio Negro do ISA e uma das organizadoras da publicação, o processo de construção da revista foi guiado pelas vivências das próprias autoras:
“O objetivo é ampliar o conhecimento que circula nas comunidades para um público mais amplo”, afirmou.
A abordagem evidencia uma mudança importante: o reconhecimento das mulheres indígenas não apenas como guardiãs de saberes, mas como produtoras de conhecimento científico, político e cultural.
Memória, resistência e continuidade
Durante o lançamento, realizado em São Gabriel da Cachoeira (AM), lideranças indígenas destacaram que a publicação também funciona como um exercício de memória coletiva e continuidade histórica.
A coordenadora do Departamento de Mulheres da Foirn, Cleocimara Reis, ressaltou o caráter político dessa trajetória:
“Somos o sonho das mulheres que vieram antes da gente. Ocupamos todos os espaços que também são nossos”, afirmou.
Já a liderança Carlinha Lins Yanomami destacou os avanços na organização feminina:
“Hoje, as mulheres conseguem reconhecer o que é violência e falar sobre isso nas comunidades”, afirmou, ao relatar o fortalecimento da atuação política das mulheres indígenas.
As falas reforçam que o crescimento do protagonismo feminino indígena está diretamente ligado à organização coletiva e à ampliação do acesso a espaços de decisão.
Simbolismo e identidade
A capa da edição também carrega significado político e cultural. Ilustrada pela artista Larissa Duarte, do povo Tukano, a obra representa a “cobra-canoa” — elemento central nas narrativas de origem da região.
A imagem destaca que a construção da humanidade não é protagonizada apenas por homens, mas também por mulheres, frequentemente invisibilizadas nas narrativas tradicionais.
Entre cultura, política e clima
A revista Aru evidencia uma tendência mais ampla na Amazônia: a integração entre saberes tradicionais, ciência e política.
Ao abordar temas como mudanças climáticas, território e direitos, a publicação posiciona as mulheres indígenas como agentes centrais na construção de soluções para desafios contemporâneos — especialmente em regiões onde o conhecimento tradicional desempenha papel fundamental na preservação ambiental.
Nesse contexto, a produção de conhecimento indígena deixa de ser vista apenas como expressão cultural e passa a ocupar espaço estratégico no debate global sobre sustentabilidade e clima.

