Redação Planeta Amazônia
Uma falha na integração de bases de dados públicas pode estar contribuindo para invisibilizar parte importante da história dos povos que ocuparam a Amazônia ao longo de milhares de anos. Levantamento inédito do projeto Amazônia Revelada mostra que cerca de 67% dos sítios arqueológicos registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Amazônia Legal estão localizados em áreas declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), principal ferramenta utilizada para o registro e gestão de imóveis rurais no Brasil. No entanto, essas informações não aparecem para quem consulta o sistema.
Segundo a análise, dos mais de 7 mil sítios arqueológicos cadastrados pelo Iphan na Amazônia Legal, 4.769 estão sobrepostos a áreas registradas no CAR. Apesar da coincidência territorial, o sistema não apresenta qualquer alerta ou indicação pública sobre a existência desses patrimônios arqueológicos. A ausência da informação contrasta com outros tipos de sobreposição exibidos pelo cadastro, como áreas protegidas e restrições ambientais.
O Cadastro Ambiental Rural é um instrumento autodeclaratório e obrigatório para imóveis rurais. Criado para auxiliar na regularização ambiental e no planejamento do uso da terra, o sistema tem impactos diretos em processos administrativos, econômicos e fundiários. Para pesquisadores, a falta de integração com informações arqueológicas gera uma lacuna importante na compreensão do território amazônico.
Patrimônio invisível
Especialistas afirmam que a questão vai além da proteção de vestígios históricos. A arqueologia amazônica tem demonstrado que a floresta foi ocupada e transformada por sociedades indígenas complexas muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Geoglifos, aldeias antigas, terras pretas de origem antrópica e sistemas de manejo da paisagem são alguns dos registros encontrados na região.
Para Bruna Rocha, presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) e uma das coordenadoras do projeto Amazônia Revelada, a ausência dessas informações em sistemas públicos contribui para apagar evidências da presença histórica de povos indígenas e comunidades tradicionais. Segundo ela, essa invisibilidade pode dificultar processos de reconhecimento territorial e comprometer a valorização da memória desses grupos.
A situação chama atenção porque a Amazônia concentra o maior número de sítios arqueológicos do país. Dados do MapBiomas apontam que o bioma abriga mais de 10 mil sítios cadastrados, superando todos os demais biomas brasileiros. Ao mesmo tempo, a região enfrenta pressões crescentes relacionadas ao avanço da agropecuária, infraestrutura, mineração e ocupação irregular do solo.
Territórios disputados
A investigação também identificou sobreposições entre sítios arqueológicos e áreas reivindicadas por povos indígenas e comunidades tradicionais. Entre 109 terras indígenas ainda não homologadas analisadas pela reportagem, foram encontrados ao menos 90 sítios arqueológicos cadastrados oficialmente. Os dados reforçam a relação histórica entre esses territórios e populações que ocupam a região há séculos.
Embora a sobreposição entre sítios arqueológicos e áreas cadastradas no CAR não signifique necessariamente que exista dano ao patrimônio, especialistas alertam que a ausência dessas informações dificulta medidas preventivas e reduz a transparência sobre o uso do território. A preocupação aumenta diante do avanço das atividades econômicas em áreas sensíveis da Amazônia.
Memória e conservação
Nos últimos anos, novas tecnologias, como sensores a laser do tipo Lidar, têm ampliado a descoberta de sítios arqueológicos sob a floresta amazônica, revelando evidências de sociedades antigas cada vez mais complexas. Pesquisadores acreditam que milhares de sítios ainda não foram identificados ou registrados oficialmente.
Para arqueólogos e pesquisadores envolvidos no estudo, a integração entre bases ambientais, fundiárias e arqueológicas é fundamental para garantir maior proteção ao patrimônio cultural e oferecer uma visão mais completa sobre a ocupação histórica da Amazônia. A expectativa é que os resultados do levantamento contribuam para o debate sobre transparência territorial, preservação da memória e reconhecimento dos povos que ajudaram a moldar a paisagem amazônica muito antes da formação do Estado brasileiro.

