Redação Planeta Amazônia
Uma pesquisa internacional identificou, pela primeira vez, a presença do vírus da hepatite B humana (HBV) em primatas neotropicais selvagens da Amazônia brasileira. O estudo, publicado na revista científica EcoHealth, revela que macacos que vivem em áreas impactadas pelo desmatamento e pela ocupação humana apresentam maior risco de infecção, reforçando a preocupação com a chamada transmissão reversa de doenças, quando patógenos passam dos seres humanos para os animais silvestres.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University of Salford, no Reino Unido, em parceria com instituições brasileiras, entre elas a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a Fundação Oswaldo Cruz de Rondônia (Fiocruz Rondônia), a Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e outras organizações de pesquisa.
Ao todo, os pesquisadores analisaram amostras de sangue e tecido hepático de 88 primatas, pertencentes a 28 espécies diferentes. Os animais foram divididos em dois grupos: um proveniente de áreas sob forte influência humana, em Rondônia e Mato Grosso, e outro do alto rio Japurá, no Amazonas, considerado uma região com baixa interferência antrópica.
Os resultados chamaram a atenção dos pesquisadores. Entre os 49 primatas das áreas degradadas, 17 apresentaram infecção pelo HBV, o equivalente a 34,7% das amostras. Já entre os 39 animais provenientes da região preservada do alto rio Japurá, nenhum caso foi identificado.
Vírus encontrado é o mesmo que circula entre humanos
A análise genética mostrou que os vírus detectados nos macacos pertencem aos genótipos A e D, exatamente os mesmos predominantes entre as populações humanas da região amazônica estudada.
Para os pesquisadores, essa coincidência genética reforça a hipótese de que a infecção ocorreu a partir do contato com seres humanos, e não o contrário. O fenômeno é conhecido como zooantroponose ou transmissão antroponótica, quando doenças humanas passam a infectar animais silvestres.
O primatólogo Jean Boubli, pesquisador da University of Salford e um dos autores do estudo, classificou a descoberta como um importante sinal de alerta.
Segundo ele, embora o mecanismo exato da transmissão ainda não tenha sido identificado, os dados demonstram que primatas que vivem mais próximos das populações humanas apresentam probabilidade significativamente maior de contrair o vírus.
Boubli ressalta que, até o momento, não há evidências de que os macacos estejam transmitindo hepatite B para as pessoas. Pelo contrário, o estudo indica que os seres humanos são, provavelmente, a fonte da infecção observada nos animais.
Desmatamento aproxima humanos e fauna silvestre
Os autores relacionam diretamente o avanço do desmatamento e da ocupação humana ao aumento desse tipo de transmissão.
A expansão da fronteira agrícola, a fragmentação das florestas, a caça de subsistência e o comércio ilegal de animais silvestres reduzem a distância entre pessoas e primatas, criando oportunidades para a circulação de vírus entre espécies.
Além disso, pesquisadores destacam que práticas aparentemente simples, como oferecer alimentos manipulados aos animais durante visitas a áreas naturais, também podem favorecer a transmissão de patógenos humanos.
Impactos sobre os primatas ainda são desconhecidos
Outro ponto que preocupa os cientistas é que ainda não se sabe quais são os efeitos da hepatite B sobre os primatas neotropicais.
Embora os animais analisados não tenham apresentado sinais clínicos evidentes, estudos realizados anteriormente com grandes primatas demonstram que o vírus pode provocar alterações hepáticas importantes.
Os pesquisadores defendem o acompanhamento das populações infectadas para verificar se a doença poderá comprometer a saúde, a reprodução ou a sobrevivência dessas espécies ao longo do tempo.
Saúde humana e ambiental estão interligadas
Para os autores, a descoberta reforça o conceito de Saúde Única (One Health), segundo o qual a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas é inseparável.
O estudo demonstra que a degradação ambiental não apenas aumenta o risco de doenças que passam dos animais para os seres humanos, mas também favorece o caminho inverso, levando patógenos humanos para a fauna silvestre.
Especialistas defendem que ampliar a conservação das florestas, reduzir o desmatamento e fortalecer o monitoramento sanitário da vida silvestre serão medidas fundamentais para evitar que novas doenças se estabeleçam entre os animais amazônicos e comprometam ainda mais a biodiversidade da região.

