Fósseis encontrados no Acre estão ajudando pesquisadores a desvendar um capítulo ainda pouco conhecido da história dos primatas na América do Sul. A análise de dentes fossilizados revelou animais até então desconhecidos que viveram na Amazônia há milhões de anos e eram aparentados ao Acrecebus fraileyi, considerado um dos maiores macacos conhecidos no registro fóssil das Américas.
Os achados reforçam a importância paleontológica do Acre, onde depósitos formados durante o Mioceno preservaram vestígios de uma fauna muito diferente da encontrada atualmente na região.
O Acrecebus fraileyi já era conhecido pela ciência a partir de fósseis encontrados no estado. O primata viveu no Mioceno Superior, entre aproximadamente 9 milhões e 6 milhões de anos atrás, e é considerado um dos maiores primatas fósseis conhecidos do Novo Mundo.
Dentes ajudam a reconstruir uma fauna desaparecida
Grande parte do conhecimento sobre esses antigos macacos amazônicos vem de estruturas pequenas, mas extremamente valiosas para a paleontologia: os dentes.
Características como tamanho, formato das cúspides e organização da superfície dentária permitem aos pesquisadores comparar diferentes indivíduos e identificar relações evolutivas entre espécies.
No caso dos materiais encontrados no Acre, essas diferenças indicaram a existência de primatas relacionados ao Acrecebus, ampliando a diversidade conhecida desse grupo na Amazônia pré-histórica.
A descoberta é particularmente importante porque o registro fóssil dos primatas sul-americanos ainda possui grandes lacunas. Cada novo exemplar pode ajudar a compreender quando determinadas linhagens surgiram, como se diversificaram e quais relações mantinham com os macacos encontrados atualmente no continente.
Acrecebus estava entre os gigantes dos primatas americanos
Descrito cientificamente em 2006, o Acrecebus fraileyi tornou-se uma das espécies mais importantes da paleontologia de primatas no Brasil.
O animal pertence ao grupo dos macacos do Novo Mundo e apresentava características dentárias que permitiram aos pesquisadores estabelecer comparações com linhagens posteriores de primatas sul-americanos.
Seu tamanho também chama atenção.
Embora os primatas atuais das Américas sejam consideravelmente menores que grandes macacos africanos e asiáticos, o registro fóssil demonstra que algumas linhagens sul-americanas atingiram dimensões maiores no passado.
Por isso, descobrir outros animais relacionados ao Acrecebus ajuda os pesquisadores a entender se o grande porte foi uma característica isolada ou se fazia parte de uma diversificação mais ampla de primatas que habitavam a região.
Amazônia de milhões de anos atrás era diferente da atual
Os animais encontrados no registro fóssil acreano viveram em uma Amazônia muito diferente daquela que conhecemos.
Durante o Mioceno, a região passou por profundas transformações geológicas e ambientais. A configuração dos rios, das áreas alagadas e das florestas mudou repetidamente ao longo de milhões de anos.
Nesse ambiente vivia uma fauna que incluía grandes crocodilianos, tartarugas, roedores, mamíferos terrestres e diferentes espécies de primatas.
Os fósseis preservados nos sedimentos do oeste amazônico funcionam, portanto, como registros de ecossistemas desaparecidos e permitem reconstruir parte dessa história.
Acre é referência para paleontologia amazônica
O território acreano ocupa uma posição privilegiada para esse tipo de pesquisa porque abriga formações geológicas capazes de preservar fósseis de vertebrados que viveram na região durante o período Neógeno.
Descobertas realizadas ao longo das últimas décadas transformaram o estado em uma das principais áreas para o estudo da megafauna e dos ecossistemas antigos da Amazônia.
Os novos fósseis de primatas acrescentam outra dimensão a esse patrimônio científico.
Além dos animais de grande porte que costumam chamar atenção no registro paleontológico, estruturas diminutas, como dentes, podem revelar informações fundamentais sobre a diversidade biológica existente milhões de anos antes da formação da floresta amazônica em sua configuração atual.
Descobertas ajudam a entender evolução dos macacos sul-americanos
Os macacos do Novo Mundo representam hoje um dos principais grupos de primatas do planeta. Neles estão incluídos animais como macacos-prego, macacos-aranha, bugios, saguis e macacos-de-cheiro.
Entretanto, a história evolutiva dessas linhagens ainda guarda questões importantes.
Fósseis do Mioceno encontrados na Amazônia ajudam a preencher justamente parte desse intervalo e mostram que o continente abrigou formas que posteriormente desapareceram.
No caso do Acrecebus, estudos anteriores já identificaram características dentárias derivadas utilizadas para discutir suas relações com outros primatas sul-americanos.
A identificação de parentes até então desconhecidos permite ampliar essas comparações e compreender melhor a diversidade do grupo naquele período.
Pequenos fósseis, grandes informações
A descoberta também demonstra por que fragmentos aparentemente modestos podem possuir enorme valor científico.
Um dente fossilizado preserva características anatômicas resistentes à passagem do tempo e pode fornecer informações sobre parentesco evolutivo, alimentação e tamanho corporal do animal.
Quando vários exemplares são encontrados e comparados, os pesquisadores conseguem reconstruir parte de uma comunidade de primatas que desapareceu há milhões de anos.
É justamente essa reconstrução que os fósseis acreanos estão permitindo.
Mais do que revelar novos animais, os achados ajudam a mostrar que a diversidade de primatas da antiga Amazônia pode ter sido mais complexa do que o registro conhecido até agora sugeria.
A descoberta acrescenta, assim, novas peças a um quebra-cabeça que envolve a evolução dos macacos sul-americanos e reforça o papel do Acre como uma das principais janelas para o passado remoto da Amazônia.

