Mais de 40 organizações lançam manifesto com 46 propostas para colocar sociobioeconomia no debate eleitoral

Redação Planeta Amazônia

Mais de 40 organizações ligadas às economias da sociobiodiversidade lançaram uma mobilização nacional para inserir as demandas de indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares no centro do debate das Eleições 2026.

Batizada de “Sociobio nas Urnas”, a campanha apresenta aos candidatos 46 propostas de políticas públicas, distribuídas em oito eixos temáticos, e pretende colher compromissos públicos ao longo da campanha eleitoral. Depois das eleições, as adesões deverão servir como instrumento de acompanhamento e cobrança dos futuros mandatos.

A iniciativa é suprapartidária e organizada pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), rede que reúne mais de 40 organizações.

Sob o lema “Deixa a sociobio crescer!”, o movimento defende mudanças nas políticas públicas para que atividades econômicas vinculadas à floresta em pé, à agricultura familiar e aos territórios tradicionais tenham melhores condições de financiamento, infraestrutura, comercialização e desenvolvimento.

Manifesto aponta desigualdade no acesso ao crédito

Um dos principais argumentos apresentados pela campanha é a existência de uma forte desigualdade na distribuição dos recursos destinados à produção rural.

Segundo os dados reunidos no manifesto, entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foi destinado a médios e grandes produtores, enquanto a agricultura familiar recebeu 8,4%.

A diferença também aparece dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Entre 2020 e 2024, segundo a campanha, foram direcionados R$ 151,7 bilhões para a produção de commodities, contra R$ 3,26 bilhões destinados à sociobioeconomia — uma diferença de 46,5 vezes.

Para as organizações, essa assimetria limita a capacidade de expansão de cadeias produtivas que geram renda mantendo a biodiversidade e os recursos naturais associados aos territórios.

“Precisamos corrigir” assimetria histórica, diz Conexsus

A diretora-executiva da Conexsus, Fabíola Zerbini, afirma que existe uma desigualdade histórica na distribuição das políticas públicas, incentivos e recursos entre os diferentes modelos de uso da terra.

Para Zerbini, a sociobioeconomia deve ser tratada como uma estratégia de desenvolvimento econômico para o país porque combina geração de renda e riqueza com conservação da biodiversidade e manutenção de serviços ambientais fundamentais para outras atividades econômicas.

A campanha parte justamente do princípio de que essas atividades precisam deixar de ocupar uma posição periférica nas políticas nacionais de desenvolvimento.

O que é sociobioeconomia?

O conceito utilizado pelo ÓSocioBio abrange as economias desenvolvidas por povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, baseadas na biodiversidade, nos conhecimentos tradicionais, na inovação e nos sistemas socioprodutivos locais.

Entram nesse universo produtos e serviços obtidos a partir dos recursos da biodiversidade e associados aos modos de vida, práticas e conhecimentos das populações que vivem nos territórios.

Na Amazônia, isso pode envolver cadeias como as da castanha, pirarucu, sementes nativas, açaí e outros produtos florestais, além de diferentes formas de manejo e produção comunitária.

Para Laura Souza, secretária-executiva do ÓSocioBio, essas economias já geram trabalho e renda e ajudam a conservar os territórios, mas continuam enfrentando obstáculos que impedem o aproveitamento de todo o seu potencial.

A proposta, segundo ela, é fazer com que a sociobioeconomia deixe de ser tratada como exceção e seja reconhecida como parte estratégica das políticas brasileiras de desenvolvimento.

Setor movimenta R$ 17,4 bilhões

As organizações sustentam que essa economia já possui uma dimensão significativa.

Estimativas do ÓSocioBio apontam movimentação de aproximadamente R$ 17,4 bilhões por ano e 525 mil postos de trabalho nas cadeias analisadas.

Esses valores encontram respaldo em nota técnica anterior do Observatório, que estimou também produção anual de aproximadamente 3 milhões de toneladas, presença nas 27 unidades da Federação e cerca de 60 milhões de hectares protegidos pelas cadeias consideradas no levantamento.

Os números, contudo, não representam necessariamente toda a dimensão da sociobioeconomia brasileira. Análises do Instituto Socioambiental apontam que uma parcela dessas atividades permanece na informalidade e, consequentemente, não aparece integralmente nas estatísticas econômicas oficiais.

Territórios tradicionais cobrem parte expressiva da Amazônia

A campanha também chama atenção para a dimensão territorial dessas economias.

Segundo o documento, os territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais ocupam aproximadamente um quarto do território brasileiro e mais da metade da Amazônia.

É nesses espaços que se desenvolve parte significativa das cadeias econômicas associadas à sociobiodiversidade.

O manifesto argumenta ainda que os benefícios gerados pela conservação nesses territórios não ficam restritos às comunidades.

A manutenção da vegetação influencia processos como regulação das chuvas, estabilidade climática, fertilidade do solo e polinização, dos quais também dependem setores econômicos convencionais.

O documento cita estimativa do World Resources Institute (WRI) segundo a qual mais de 95% da área agrícola e 99% das pastagens brasileiras dependem da chuva regulada pela floresta.

Território aparece como condição para economia da floresta

Além de crédito e incentivos econômicos, a proteção territorial ocupa posição central entre as reivindicações.

Dione Torquato, secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), afirma que garantir os territórios é condição necessária para que povos e comunidades tradicionais continuem vivendo e produzindo nesses espaços.

A síntese apresentada pelo dirigente é direta: não existe sociobioeconomia sem território garantido.

A questão territorial já havia aparecido com destaque nas mobilizações nacionais da sociobiodiversidade realizadas em 2025. Naquele ano, representantes de povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras comunidades levaram ao Congresso demandas relacionadas à regularização fundiária, financiamento, tributação, pagamento por serviços ambientais e adequação das políticas públicas às realidades dos territórios.

Chefs brasileiros aderem ao manifesto

A campanha também recebeu apoio de nomes conhecidos da gastronomia brasileira.

Os chefs Rodrigo Oliveira, do Mocotó, Bel Coelho, Neide Rigo e Adriana Salay estão entre os signatários do documento.

A participação da gastronomia reforça outra dimensão da sociobiodiversidade: muitos dos produtos originados desses territórios estão diretamente associados à cultura alimentar e à identidade regional brasileira.

Castanhas, frutos, pescados, sementes e ingredientes tradicionalmente manejados por comunidades fazem parte tanto da alimentação cotidiana quanto da gastronomia profissional.

46 propostas serão levadas aos candidatos

A mobilização não deverá terminar com a divulgação do manifesto.

As organizações pretendem apresentar o documento aos candidatos durante a campanha eleitoral de 2026 e coletar compromissos públicos. As adesões deverão posteriormente servir como referência para cobrar o cumprimento das propostas durante os mandatos.

Candidatos podem aderir formalmente à carta, enquanto cidadãos também poderão manifestar apoio por meio de abaixo-assinado.

Ao transformar as demandas do setor em 46 propostas organizadas em oito eixos, o movimento tenta fazer com que a sociobioeconomia deixe de aparecer apenas como tema ambiental e passe a integrar discussões sobre desenvolvimento, crédito, infraestrutura, produção, trabalho e renda.

Para a Amazônia, essa discussão possui peso particular.

Mais do que decidir como conservar a floresta, o debate eleitoral passa também pela definição de quais atividades econômicas receberão recursos, infraestrutura e incentivos públicos para crescer nos próximos anos.

A campanha “Sociobio nas Urnas” tenta colocar uma alternativa nessa disputa: um modelo no qual povos indígenas, quilombolas, extrativistas, comunidades tradicionais e agricultores familiares possam ampliar sua participação na economia sem romper a relação entre geração de renda, território e biodiversidade.

By emprezaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens relacionadas