Seca já atinge três em cada quatro Terras Indígenas monitoradas na Amazônia

Levantamento da Coiab aponta 303 territórios afetados e 23 em situação grave; Roraima concentra os casos mais severos, enquanto Acre tem 34 Terras Indígenas sob algum nível de seca

A seca já alcança três em cada quatro Terras Indígenas monitoradas na Amazônia Legal e começa a avançar para níveis considerados graves em partes da região.

Levantamento divulgado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) mostra que, em agosto de 2026, 303 das 407 Terras Indígenas acompanhadas apresentavam algum nível de seca.

Isso significa que 74,4% dos territórios monitorados estavam afetados, em uma área de aproximadamente 96,98 milhões de hectares. COIAB

O cenário é resultado do cruzamento de 44 meses de informações do Monitor de Secas com os limites territoriais das Terras Indígenas acompanhadas pela Gerência de Monitoramento Territorial Indígena (Gemti) da Coiab.

Os dados integram a nota técnica Panorama territorial das secas nas Terras Indígenas da Amazônia Legal, 2023–2026.

23 Terras Indígenas já enfrentam seca grave

A Coiab divide a intensidade da seca em cinco categorias: fraca, moderada, grave, extrema e excepcional.

Em agosto, 120 Terras Indígenas estavam sob seca frca, 160 enfrentavam seca moderada e outras 23 já haviam alcançado o nível de seca grave.

O retorno da categoria grave chama atenção porque, segundo a organização, ela não aparecia havia seis meses nas áreas indígenas analisadas.

A situação mais preocupante está em Roraima.

Das Terras Indígenas relacionadas ao estado, 21 estavam em seca grave, oito em seca moderada e quatro em seca fraca.

A liderança Sineia Wapichana, coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do Conselho Indígena de Roraima (CIR), resumiu o cenário enfrentado no estado:

“O verão chegou mais cedo; o Estado está em emergência.”

Roraima, portanto, concentrava sozinho 21 dos 23 territórios classificados em seca grave em agosto.

Acre tem duas Terras Indígenas em seca grave

O levantamento também chama atenção para a situação do Acre.

No estado, 30 Terras Indígenas estavam em seca moderada, duas em seca fraca e outras duas já apresentavam seca grave.

Isso significa que 34 territórios indígenas acreanos monitorados apresentavam alguma intensidade de seca no período analisado.

No Amazonas, o problema alcança um número ainda maior de territórios, embora sem registros na categoria grave naquele mês: eram 91 Terras Indígenas em seca moderada e 68 em seca fraca.

Rondônia registrava 13 territórios em seca moderada, enquanto sete estavam na mesma situação no Tocantins.

No Pará, eram 15 em seca fraca e 12 em moderada. O Maranhão possuía 17 na categoria fraca; no Amapá, as cinco Terras Indígenas monitoradas estavam nessa classificação. Em Mato Grosso, seis enfrentavam seca fraca e três, moderada.

Todos os estados da Amazônia indígena já são afetados

Os números mostram que a seca não está restrita a um único ponto da Amazônia.

Segundo a Coiab, todos os estados que compõem a Amazônia indígena apresentavam territórios afetados, embora com intensidades diferentes.

O avanço tem consequências que ultrapassam a redução das chuvas.

Entre os possíveis impactos apontados pela organização estão a queda dos níveis de rios e igarapés, dificuldades de abastecimento de água e navegação, comprometimento do acesso a serviços essenciais e maior risco de incêndios florestais.

A seca também pode atingir diretamente os sistemas alimentares das comunidades, com perdas em roças, redução dos recursos pesqueiros e comprometimento de alimentos tradicionais, aumentando o risco de insegurança alimentar.

Seca aumenta preocupação com incêndios

A relação entre seca e fogo está entre os principais pontos de atenção para os próximos meses.

A diminuição da umidade e o ressecamento da vegetação criam condições mais favoráveis à propagação das chamas, inclusive em áreas de floresta historicamente menos suscetíveis ao fogo.

Em territórios indígenas, incêndios podem atingir não apenas a vegetação, mas roças, áreas utilizadas para caça e coleta, fontes de água e estruturas das comunidades.

A situação de Roraima é especialmente acompanhada porque o estado já concentra praticamente todos os territórios classificados no nível grave pelo levantamento.

Coiab faz ressalva sobre El Niño

Apesar da preocupação com o El Niño 2026–2027, a Coiab faz uma ressalva importante sobre a interpretação dos dados.

A série disponível não permite afirmar que a seca de 2026 alcançará a mesma extensão observada em 2024.

Também não é possível atribuir isoladamente ao El Niño as mudanças identificadas nos territórios indígenas.

A cautela é relevante porque diferentes fatores climáticos e ambientais podem influenciar o comportamento das chuvas, dos rios e da umidade na Amazônia.

Ainda assim, a possibilidade de agravamento dos efeitos climáticos levou a organização indígena a antecipar medidas de preparação.

Plano quer preparar comunidades para El Niño

Junto aos novos dados, a Coiab lançou o Plano de Adaptação dos Territórios Indígenas da Amazônia frente ao El Niño e Eventos Climáticos Extremos.

O documento foi apresentado durante um webinar que reuniu lideranças indígenas, equipe técnica da organização e representantes do poder público.

O objetivo é orientar comunidades, associações, organizações indígenas e instituições parceiras na preparação, no monitoramento e na resposta aos possíveis impactos do El Niño de 2026–2027.

As recomendações abrangem áreas diretamente relacionadas à vida cotidiana nos territórios, como proteção dos recursos hídricos, segurança alimentar, saúde comunitária, vigilância territorial e prevenção de incêndios.

Segundo Anderson Tapuia, coordenador-secretário da Coiab, as alternativas foram elaboradas considerando a realidade vivida pelas próprias comunidades.

A intenção é permitir que cada território consiga estruturar estratégias locais antes que as condições atinjam níveis críticos.

Preparação não substitui responsabilidade do poder público

A Coiab também destaca que fortalecer a autonomia das comunidades não significa transferir a elas a responsabilidade pela resposta à crise.

Segundo a organização, cabe ao poder público assegurar planos de contingência específicos, recursos antecipados, água, alimentos, medicamentos, transporte, prevenção contra incêndios e proteção territorial, além de garantir a participação indígena nas decisões.

Para Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, os povos indígenas precisam ocupar uma posição ativa na formulação das respostas.

“Os povos indígenas não são apenas atingidos pela crise climática. São parte central da resposta e precisam participar das decisões”, afirmou.

Cartilha já começou a chegar aos territórios

A estratégia inclui ainda uma Cartilha para enfrentamento do Super El Niño, lançada durante a XV Assembleia Geral da Coiab, realizada em agosto na Terra Indígena Karajá/Xambioá, no Tocantins.

Pelo menos 500 exemplares foram distribuídos para lideranças indígenas dos nove estados da Amazônia brasileira.

Para Rosibel Baré, gerente de Monitoramento da Coiab, o material deve ajudar as bases a organizar demandas e fortalecer a implementação de políticas públicas nos territórios.

O desafio agora é ampliar a distribuição das orientações e transformar os dados de monitoramento em medidas preventivas antes dos períodos mais críticos.

Monitoramento tenta evitar novo colapso

Os números de agosto funcionam como um alerta antecipado.

Mais do que registrar onde a seca já chegou, o acompanhamento de uma série de 44 meses permite identificar onde a situação está se agravando e orientar a preparação das comunidades.

Com 303 Terras Indígenas afetadas, 23 delas em seca grave e praticamente 97 milhões de hectares sob alguma intensidade do fenômeno, a resposta dependerá tanto das estratégias construídas pelos povos indígenas quanto da atuação dos governos nos próximos meses.

O risco envolve uma sequência de efeitos conectados: rios mais baixos dificultam transporte e abastecimento; a escassez de água afeta a saúde; perdas nas roças e na pesca ameaçam a alimentação; e a vegetação mais seca aumenta a possibilidade de incêndios.

Para a Coiab, antecipar essas consequências é justamente o caminho para evitar que a atual seca evolua para um novo cenário de colapso nos territórios indígenas da Amazônia.

By emprezaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens relacionadas