O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) intensificou a Operação Alerta Fogo diante do avanço das queimadas na Região Metropolitana de Manaus. A fiscalização é direcionada principalmente ao uso ilegal do fogo e ocorre em um momento no qual os incêndios passaram a se concentrar também no entorno da capital amazonense.
As equipes utilizam informações de focos de calor para definir os locais prioritários para fiscalização. Drones e viaturas equipadas com internet via Starlink também fazem parte da estrutura utilizada em campo, permitindo ampliar o monitoramento e manter a comunicação mesmo em áreas com cobertura limitada de telefonia.
A intensificação ocorre durante um dos períodos mais críticos de 2026 para o Amazonas. Em setembro, o Corpo de Bombeiros informou crescimento superior a 300% nas ocorrências de incêndio em relação ao mesmo período de 2025.
Fiscalização se aproxima de Manaus
A distribuição das equipes reflete uma mudança observada na localização dos incêndios.
Tradicionalmente, parte importante das ações durante a estiagem se concentra no sul do Amazonas. Nas últimas semanas, porém, o fogo também avançou pela Região Metropolitana.
A Operação Alerta Fogo mantém equipes distribuídas em dois eixos. Um deles abrange Iranduba, Manaus, Manacapuru e Novo Airão. O segundo inclui Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Silves, Itapiranga e Itacoatiara.
O objetivo é identificar irregularidades relacionadas ao uso do fogo e agir de maneira preventiva antes que queimadas se transformem em incêndios de maiores proporções.
O Ipaam mantém ainda outra frente de fiscalização na Região Metropolitana, permitindo que os agentes verifiquem outros tipos de infrações ambientais além das ocorrências diretamente relacionadas às queimadas.
“Estamos trabalhando com frentes diferentes e complementares para ampliar a fiscalização na Região Metropolitana”, explicou o diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço Feitoza.
Focos de calor orientam equipes
Uma das estratégias utilizadas pelo instituto é transformar informações de monitoramento em ações de campo.
Dados sobre focos de calor ajudam a indicar onde as equipes devem concentrar a fiscalização. O órgão também mantém um painel de queimadas com informações históricas e registros dos focos identificados no Amazonas.
Na prática, a tecnologia permite reduzir a dependência exclusiva de denúncias ou de ocorrências visualizadas presencialmente.
Quando os sistemas identificam uma anomalia térmica compatível com um possível incêndio, a informação pode contribuir para direcionar fiscais até a região.
Esse tipo de monitoramento é especialmente relevante no Amazonas, onde as grandes distâncias e as dificuldades de acesso terrestre tornam mais complexa a fiscalização ambiental.
Drones e Starlink ajudam fiscalização
As equipes contam também com drones durante as operações.
Os equipamentos ampliam a capacidade de observação e ajudam os agentes a verificar áreas que poderiam exigir longos deslocamentos por terra.
As viaturas possuem ainda conexão à internet via Starlink, utilizada para manter comunicação e acesso às informações de monitoramento em regiões onde o sinal convencional de telefonia é limitado.
A combinação entre imagens aéreas, dados georreferenciados e conexão em campo permite que os fiscais trabalhem com informações mais atualizadas durante as operações.
Incêndios dispararam em setembro
A intensificação da fiscalização ocorre diante de uma mudança significativa nos números.
Segundo informações apresentadas pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, as ocorrências de incêndio registradas em setembro cresceram mais de 300% em comparação com o mesmo período do ano passado.
No acumulado de 2026, o aumento informado pela corporação supera 130%.
Quase mil servidores chegaram a ser mobilizados em diferentes municípios para responder aos incêndios.
As autoridades atribuem o cenário a uma combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e períodos prolongados sem chuva. O Corpo de Bombeiros também afirma que a ação humana está relacionada à quase totalidade dos incêndios atendidos.
Fumaça compromete qualidade do ar de Manaus
As consequências dos incêndios já chegaram diretamente à população da capital.
Manaus enfrentou dias consecutivos coberta por fumaça, com forte deterioração da qualidade do ar.
Em 23 de setembro, o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas registrou na capital 291 microgramas de material particulado fino (PM2,5) por metro cúbico de ar em uma medição.
O PM2,5 é formado por partículas extremamente pequenas que podem penetrar profundamente no sistema respiratório.
Durante setembro, sensores da RedeAr também registraram média diária superior a 30 µg/m³, enquanto a diretriz da Organização Mundial da Saúde para exposição média em 24 horas é de 15 µg/m³.
A fumaça transformou as queimadas de uma questão exclusivamente ambiental em um problema também de saúde pública.
Uso do fogo está proibido por 120 dias
Desde 9 de setembro, está em vigor no Amazonas o Decreto Estadual nº 55.339, que proíbe o uso do fogo em todo o território estadual por um período de 120 dias, ressalvadas as exceções previstas na legislação.
A proibição alcança práticas como utilização do fogo para limpeza, renovação e manejo de áreas e eliminação de resíduos de vegetação, entre outras atividades.
A Operação Alerta Fogo atua justamente na fiscalização do cumprimento dessas restrições.
O Estado mantém ainda 153 brigadistas florestais distribuídos em municípios considerados prioritários.
Amazonas pediu aviões ao governo federal
A dimensão dos incêndios também levou o governo estadual a solicitar reforço da União.
O Corpo de Bombeiros encaminhou ao Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal um pedido para disponibilização de duas aeronaves de combate a incêndios florestais, com previsão de atuação até o final de novembro.
Cada aeronave solicitada possui capacidade para transportar 3,2 mil litros e seria utilizada principalmente em regiões onde o acesso por veículos ou embarcações é difícil.
Entre 1º de julho e 23 de setembro, o Corpo de Bombeiros informou ter atuado no combate a 16.470 focos de incêndio no Amazonas.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente também solicitou apoio federal com equipes, recursos e meios aéreos por meio do Projeto Pegasus.
Operação Tamoiotatá também será ampliada
A Alerta Fogo não é a única operação em andamento.
O governo estadual também decidiu ampliar a Operação Tamoiotatá, força-tarefa destinada ao combate ao desmatamento ilegal e às queimadas criminosas.
Parte das equipes deverá atuar em Manaquiri, Autazes, Careiro e Careiro da Várzea, reforçando a presença dos órgãos ambientais em áreas próximas à capital.
A operação reúne Sema, Ipaam, Secretaria de Segurança Pública, Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e apoio do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
As ações incluem fiscalização terrestre, vistorias em locais com alertas ambientais, aplicação de autos de infração, embargos e proteção de Unidades de Conservação estaduais.
População pode denunciar queimadas
Além da fiscalização, os órgãos ambientais reforçam a necessidade de participação da população.
O Ipaam orienta que queimadas e outras ocorrências ambientais sejam denunciadas pelos canais oficiais. A Gerência de Fiscalização Ambiental mantém atendimento pelo telefone (92) 2123-6715 e pelo WhatsApp (92) 98557-9454.
Com a estiagem, temperaturas elevadas e vegetação mais seca, uma queimada pode sair do controle e alcançar áreas muito maiores.
A intensificação da Operação Alerta Fogo ocorre justamente nesse contexto: utilizar monitoramento e presença em campo para identificar o uso irregular do fogo antes que novos focos ampliem uma crise que já produz efeitos ambientais e sanitários na Região Metropolitana de Manaus.

