Artesanato indígena do Acre fortalece economia da floresta e amplia valorização cultural dos povos originários

Redação Planeta Amazônia

O artesanato indígena produzido no Acre vem se consolidando como uma importante fonte de renda para comunidades tradicionais, ao mesmo tempo em que fortalece a preservação cultural e os conhecimentos ancestrais dos povos originários da Amazônia. A atividade ganhou novo impulso por meio de iniciativas do governo estadual e do Sebrae, que passaram a estruturar ações voltadas à qualificação, acesso a mercados e valorização da produção artesanal.

Mais do que objetos decorativos, as peças carregam referências espirituais, culturais e ambientais ligadas aos territórios indígenas. Produzidos a partir de sementes, fibras, madeira, palha, látex e outros materiais da floresta, os artesanatos representam modos de vida profundamente conectados à natureza.

Trabalho das peças é feito com mãos. Foto: Diego Silva/Secom

Saberes ancestrais transformados em renda

O crescimento do setor tem sido impulsionado pelo programa Artesanato Acreano, desenvolvido em parceria entre o governo do Acre e o Sebrae. A iniciativa aposta em três frentes principais: capacitação, desenvolvimento de produtos e ampliação da comercialização.

A artesã indígena Amélia Marubo contou que aprendeu o ofício ainda na infância, com a mãe e a avó, mantendo uma tradição transmitida entre gerações.
“Esse conhecimento vem da família, da vivência”, afirmou.

Secretária de Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, é uma grande entusiasta do artesanato indígena. Foto: Cleiton Lopes/Secom

Hoje, ela coordena um grupo de mulheres da família que produz peças utilizando materiais da floresta, como casca de murumuru e tucumã. O trabalho ganhou projeção nacional após parceria com a marca Arezzo, que utilizou materiais produzidos pelas artesãs em uma coleção de calçados lançada em 2025.

Apesar da expansão comercial, Amélia destaca que a relação com a floresta continua sendo central no processo produtivo.
“A floresta dá tudo, mas a gente também tem que cuidar. Eu não tiro nada verde”, relatou.

Mulheres lideram produção artesanal

Nos territórios indígenas acreanos, as mulheres ocupam papel central na manutenção do artesanato tradicional. Segundo a secretária de Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, a atividade se tornou uma importante fonte de autonomia econômica para diversas famílias.

Ela também destacou a mudança na percepção social sobre o artesanato indígena.
“Antes, muitas vezes era feito escondido por causa do preconceito. Hoje, está fortalecido, valorizado, sendo mostrado com orgulho”, afirmou.

Além da geração de renda, especialistas apontam que o artesanato fortalece a preservação de línguas, grafismos, narrativas e conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

Mercado cresce, mas desafios permanecem

Com o aumento da procura, o artesanato indígena acreano passou a circular em feiras nacionais, lojas especializadas e plataformas digitais. A Casa do Artesanato Acreano, em Rio Branco, movimentou mais de R$ 443,5 mil em vendas apenas em 2025, reunindo peças produzidas por cerca de 130 artesãos.

Foto: Alice Leão

O apoio institucional também ampliou a participação de artesãos em eventos como Fenearte, Fenacce e Salão do Artesanato, fortalecendo a presença do Acre no mercado nacional de artesanato sustentável.

No entanto, o crescimento do setor também trouxe desafios. Artesãos e lideranças indígenas denunciam problemas relacionados à venda por atravessadores, que muitas vezes revendem peças com alta valorização sem garantir remuneração justa aos produtores.

A artesã Nacayara Yawanawá afirmou que muitos consumidores ainda preferem comprar em lojas de terceiros em vez de adquirir diretamente das comunidades indígenas.
“As pessoas querem comprar de atravessadores, que não dão o lucro que o indígena deveria receber”, relatou.

Artesanato e economia da floresta

Projetos como o Artesanato Florestal, apoiado pelo Programa REM Acre, vêm ampliando a ideia do artesanato como alternativa econômica sustentável baseada na floresta em pé. A iniciativa incentiva o uso de resíduos do manejo florestal sustentável e matérias-primas não madeireiras para produção de biojoias, cestarias, esculturas e objetos utilitários.

Segundo os organizadores, o modelo contribui para geração de renda sem ampliar pressão sobre o desmatamento, fortalecendo cadeias produtivas associadas à bioeconomia amazônica.

Cultura, território e identidade

Especialistas apontam que o fortalecimento do artesanato indígena está diretamente ligado à proteção dos territórios tradicionais. Isso porque os materiais utilizados e os conhecimentos associados à produção dependem da preservação ambiental e da continuidade dos modos de vida indígenas.

Nesse contexto, o artesanato deixa de ser visto apenas como atividade econômica e passa a ocupar espaço estratégico nas discussões sobre cultura, sustentabilidade e desenvolvimento na Amazônia.

Ao unir tradição, geração de renda e valorização da floresta, o artesanato indígena acreano se consolida como expressão de resistência cultural e alternativa de desenvolvimento sustentável baseada nos saberes ancestrais dos povos da floresta.

By emprezaz

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