As mudanças climáticas já representam um dos maiores desafios para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, e o enfrentamento desse cenário passa, necessariamente, pela ampliação dos investimentos em saneamento básico, drenagem urbana e infraestrutura resiliente. O alerta foi feito pelo engenheiro civil e especialista em saneamento básico Marcellus Campêlo durante a palestra de abertura do Circuito Ambiental, promovido pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O evento, organizado pelo Programa de Extensão em Engenharia Civil e Sanitária (PEECS), reúne até o dia 26 de junho pesquisadores, estudantes, profissionais e especialistas para discutir soluções relacionadas à sustentabilidade urbana, gestão dos recursos hídricos, saneamento ambiental e adaptação às mudanças climáticas na Amazônia.
Durante a apresentação, Campêlo destacou que os eventos extremos registrados nos últimos anos — como secas severas, enchentes históricas e deslizamentos — demonstram a necessidade de investimentos estruturantes capazes de aumentar a resiliência dos municípios amazonenses.
“Os eventos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes e intensos. A resposta para esse cenário passa por planejamento, obras essenciais e investimentos em infraestrutura básica. Quando falamos de clima e sustentabilidade, estamos falando também de saneamento, drenagem, habitação, recuperação ambiental e qualidade de vida para a população”, afirmou.
Amazonas ainda enfrenta grandes déficits de infraestrutura
Com base em dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (Sinisa) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Campêlo apresentou um panorama que evidencia os desafios estruturais ainda enfrentados pelo Amazonas.
Segundo os indicadores apresentados, mais de 809 mil amazonenses ainda não possuem acesso à rede de abastecimento de água. O déficit é ainda mais expressivo no esgotamento sanitário: mais de 3 milhões de pessoas vivem sem coleta e tratamento de esgoto.
Os dados também apontam que cerca de 697 mil habitantes não contam com atendimento regular de coleta de resíduos sólidos e que 36 municípios amazonenses ainda não possuem sistemas estruturados de drenagem e escoamento das águas pluviais, fator que aumenta a vulnerabilidade das cidades diante de enchentes e alagamentos.
Para especialistas, a ausência desses serviços básicos agrava impactos ambientais e sociais, especialmente em um contexto de mudanças climáticas que tende a intensificar eventos extremos em toda a região amazônica.
Obras de drenagem e recuperação ambiental
Durante a palestra, Marcellus Campêlo apresentou experiências desenvolvidas ao longo de sua gestão à frente da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE).
Entre os exemplos citados está o Programa Social e Ambiental de Manaus e Interior (Prosamin+), considerado uma das maiores iniciativas de requalificação urbana da Região Norte.
Segundo o engenheiro, o programa implantou 34 quilômetros de novas redes de drenagem urbana, promoveu a recuperação de áreas degradadas, realizou reassentamento de famílias que viviam em áreas de risco e executou ações de recomposição vegetal em margens de igarapés.
“O objetivo sempre foi construir soluções permanentes. A drenagem urbana não é apenas uma obra de engenharia; ela salva vidas, reduz prejuízos econômicos e prepara a cidade para enfrentar eventos climáticos extremos”, destacou.
O projeto também incorporou estratégias de infraestrutura verde, destinando aproximadamente 25% das áreas de intervenção para reflorestamento. Ao todo, mais de 110 mil metros quadrados de áreas degradadas foram recuperados, com previsão de plantio de cerca de 13,5 mil mudas.
Soluções sustentáveis para áreas urbanas e rurais
Outro destaque da apresentação foi o Programa Ilumina+, responsável pela implantação de mais de 119 mil pontos de iluminação pública em LED nos 61 municípios do interior do Amazonas. A iniciativa alcançou comunidades urbanas, rurais, indígenas e ribeirinhas, promovendo maior eficiência energética e redução do consumo de eletricidade.
Campêlo também apresentou o projeto-piloto SIRWASH, desenvolvido na comunidade Boa União do Rumo Certo, em Presidente Figueiredo. A proposta reúne soluções sustentáveis voltadas ao abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem e gestão comunitária dos serviços públicos em áreas rurais da Amazônia.
Engenharia no centro da adaptação climática
Para o professor doutor Matheus Pena Silva, chefe do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Tecnologia da Ufam e organizador do Circuito Ambiental, a participação de profissionais com experiência em grandes projetos de infraestrutura contribui para aproximar a universidade dos desafios enfrentados pelos municípios amazônicos.
Segundo ele, a Amazônia ocupa posição estratégica no debate climático global e exige soluções que integrem conhecimento científico, engenharia, inovação e políticas públicas.
“A palestra mostrou que os desafios climáticos exigem conhecimento técnico, planejamento e capacidade de execução para transformar diagnósticos em resultados efetivos para a população”, ressaltou.
Especialistas apontam que a adaptação climática será uma das principais pautas das próximas décadas na Amazônia. Nesse cenário, investimentos em saneamento, drenagem urbana, habitação e recuperação ambiental são considerados fundamentais para reduzir vulnerabilidades e preparar as cidades para os impactos cada vez mais frequentes das mudanças climáticas.

