Projeto da Fundação Amazônia Sustentável promove capacitações para produtores de comunidades ribeirinhas de Manicoré e Novo Aripuanã, incentivando o cultivo de cacau integrado à vegetação nativa.
O cultivo de cacau em meio à floresta amazônica tem contribuído para a geração de renda e a manutenção dos modos de vida de famílias que vivem na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Madeira, no Amazonas. Na região, os cacaueiros dividem espaço com espécies nativas, como andiroba, copaíba, seringueira, castanheira e sumaúma, formando sistemas produtivos que conciliam agricultura e conservação ambiental.
Para fortalecer essa atividade, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), por meio do projeto Prospera na Floresta, promoveu capacitações destinadas aos produtores do Médio e Baixo Rio Madeira. A iniciativa busca aprimorar os cuidados com os cultivos, valorizar os conhecimentos tradicionais e ampliar as oportunidades econômicas das comunidades ribeirinhas.
As atividades foram planejadas a partir de visitas realizadas em abril e maio de 2026 a dez comunidades dos municípios de Manicoré e Novo Aripuanã. Durante os encontros, a equipe identificou dificuldades enfrentadas pelos agricultores, incluindo os impactos das enchentes, das secas e das temperaturas extremas sobre a produção.
O levantamento orientou a elaboração de uma programação de cinco capacitações, com oito horas de duração cada, e previsão de atendimento a 80 produtores.
Capacitações valorizam conhecimentos dos agricultores
A proposta das atividades é aproximar as orientações técnicas da realidade das famílias que dependem do cultivo de cacau para complementar sua renda.
Em vez de apresentar apenas conteúdos teóricos, as capacitações combinam conversas, exercícios em grupo e atividades práticas realizadas nos próprios cacauais.
Os participantes têm a oportunidade de experimentar técnicas de manejo, esclarecer dúvidas e compartilhar experiências acumuladas ao longo de gerações.
Para Marciley Fernandes, morador da comunidade Verdum, em Manicoré, os conhecimentos adquiridos já estão sendo utilizados nas atividades cotidianas.
“Para mim, foi um momento muito importante. Aprendi muito e estou colocando em prática”, destacou.
Segundo Adriana Gasparetti, coordenadora de projetos da Fundação Amazônia Sustentável, o planejamento considerou as necessidades identificadas diretamente nas comunidades.
“A partir do levantamento produtivo que foi feito no Médio Rio Madeira e no Baixo Rio Madeira, a gente identificou as necessidades produtivas das comunidades”, explicou.
A coordenadora ressaltou que o envolvimento dos agricultores foi favorecido pela possibilidade de trabalhar questões presentes em suas próprias rotinas.
“Eram coisas que estavam precisando saber e praticar”, relatou.
Cacaueiros com mais de 60 anos mostram potencial da produção integrada à floresta
Na comunidade Santa Rosa I, uma das localidades visitadas pela equipe, existem cacaueiros com mais de 60 anos cultivados entre árvores de diferentes espécies amazônicas.
A produção de cacau faz parte de uma rotina familiar que também inclui o cultivo de alimentos e a coleta de sementes de andiroba destinadas à comercialização.
Essa diversidade produtiva demonstra como diferentes atividades podem coexistir em uma mesma área, permitindo que as famílias aproveitem recursos da floresta sem depender exclusivamente de uma única cultura agrícola.
A experiência da comunidade também serviu de referência para as capacitações, que destacaram a importância de preservar os cacaueiros locais e produzir novas mudas a partir das sementes existentes nos próprios territórios.
A estratégia busca valorizar as características das plantas adaptadas às condições ambientais da região e fortalecer a continuidade da produção.
“O cacaueiro vai muito bem com a andiroba, a copaíba e a seringueira. É um consórcio que funciona muito bem”, afirmou Adriana Gasparetti.
Sistemas produtivos diversificados contribuem para a conservação ambiental
O cultivo consorciado de cacau com espécies florestais representa uma alternativa para conciliar atividades agrícolas e conservação da biodiversidade.
Nesses sistemas, diferentes plantas compartilham o mesmo espaço, permitindo a manutenção de parte da estrutura vegetal e a diversificação dos produtos obtidos pelas famílias.
No Rio Madeira, os agricultores combinam o cultivo de cacau com espécies de importância econômica e ambiental, como a seringueira, a andiroba e a copaíba.
Além de oferecer diferentes possibilidades de geração de renda, essa integração pode contribuir para a proteção do solo e para a manutenção de condições favoráveis ao desenvolvimento das plantas.
A diversidade também ajuda a reduzir a dependência econômica de uma única atividade, aspecto especialmente relevante para comunidades que enfrentam dificuldades de transporte, comercialização e acesso a mercados.
Entretanto, o fortalecimento dessas cadeias produtivas exige atenção a todas as etapas da atividade, desde o manejo dos cultivos até a colheita, o beneficiamento e a comercialização.
Por essa razão, as capacitações também procuram identificar os desafios enfrentados pelos produtores e as condições necessárias para melhorar a qualidade e o aproveitamento da produção.
Dez comunidades participaram do levantamento produtivo
As visitas de campo realizadas em abril e maio abrangeram dez comunidades dos municípios de Manicoré e Novo Aripuanã.
Foram contempladas as localidades de Novos Prazeres, Sempre Viva, Verdum, Kayapê, Santa Rosa I, Livramento, José João, Prainha, São Luiz e Bom Jesus.
Durante o levantamento, a equipe conversou com agricultores e identificou características específicas dos sistemas produtivos existentes em cada comunidade.
Entre os desafios relatados estavam os efeitos das variações no nível dos rios e das temperaturas elevadas sobre o desenvolvimento das plantações.
Essas informações foram utilizadas para organizar os conteúdos das capacitações e adequar as orientações às condições enfrentadas pelas famílias.
A metodologia também permitiu reconhecer práticas que já apresentam resultados positivos, valorizando os conhecimentos construídos pelos próprios agricultores.
Ao considerar as experiências locais, a iniciativa busca fortalecer a autonomia dos produtores e ampliar a aplicação prática dos conhecimentos compartilhados.
Projeto pretende beneficiar mais de 11 mil pessoas na Amazônia
As capacitações fazem parte do projeto Prospera na Floresta, executado pela Fundação Amazônia Sustentável com apoio do Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A iniciativa tem como objetivo contribuir para a consolidação de áreas protegidas no Amazonas por meio do incentivo a atividades produtivas sustentáveis ligadas à sociobioeconomia.
O projeto abrange 22 áreas protegidas sob gestão da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Com execução prevista de quatro anos, a iniciativa deverá atuar em uma área superior a 20 milhões de hectares e beneficiar diretamente 11.344 pessoas, incluindo populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas.
Entre as estratégias estão o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis, a valorização dos conhecimentos tradicionais e a ampliação das oportunidades de geração de renda associadas à conservação da floresta.
No caso do cacau, a proposta demonstra o potencial de atividades agrícolas desenvolvidas em integração com a vegetação amazônica.
Produção sustentável fortalece a economia das comunidades ribeirinhas
A experiência das famílias da RDS Rio Madeira evidencia a importância de iniciativas que reconheçam a relação entre a floresta e as atividades econômicas das populações tradicionais.
O cultivo de cacau consorciado com espécies nativas permite que os agricultores mantenham práticas produtivas associadas ao território, ao mesmo tempo que diversificam suas fontes de renda.
A valorização dos conhecimentos locais também contribui para o desenvolvimento de estratégias adequadas às características ambientais da região.
Para a Fundação Amazônia Sustentável, a continuidade dessas ações depende da participação das comunidades e do fortalecimento das condições de produção, beneficiamento e comercialização.
Ao reunir conhecimentos tradicionais e orientações técnicas, o projeto Prospera na Floresta busca ampliar as oportunidades econômicas das famílias e incentivar atividades que contribuam para a manutenção da floresta em pé.

