Redação Planeta Amazônia
Uma iniciativa baseada em energia solar está mudando a realidade produtiva de uma comunidade ribeirinha no Amazonas, ao viabilizar a produção local de gelo — insumo essencial para a conservação do pescado. O projeto foi implantado na comunidade Santa Helena do Inglês, em Iranduba, e já impacta diretamente famílias que dependem da pesca como principal fonte de renda.
A estrutura, chamada “Gelo Caboclo”, tem capacidade de produzir até uma tonelada de gelo por dia e armazenar até 20 toneladas, operando com um sistema de placas fotovoltaicas e baterias que garantem funcionamento contínuo.

Antes da implantação, os pescadores precisavam adquirir gelo em Manaus, enfrentando deslocamentos de até cinco horas de barco, além de custos com combustível, mão de obra e perdas causadas pelo derretimento. “Se a gente precisava de uma tonelada, comprava três, para garantir a manutenção do pescado. Se naquele mês não desse peixe, perdia tudo”, relatou o pescador Nelson Brito.
Com a nova estrutura, a lógica produtiva foi invertida. “Com a fábrica de gelo, o pescador agora pode ir atrás do peixe primeiro e só comprar o gelo se conseguir pescar. Então, ele não corre o risco de ter uma despesa inútil”, explicou o gestor do projeto, Demétrio Júnior.

Além de reduzir custos, a iniciativa fortalece a economia local e amplia a autonomia da comunidade, beneficiando mais de 30 famílias diretamente. A expectativa é atender até 70% da demanda dos pescadores durante a temporada, com impacto também em outras atividades, como o turismo e a agricultura familiar.
O projeto é resultado de uma articulação entre organizações sociais, setor privado e políticas públicas, com investimento de aproximadamente R$ 1,5 milhão em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Do ponto de vista ambiental, o uso de energia solar reduz a emissão de gases de efeito estufa ao diminuir a necessidade de deslocamentos para compra de gelo e substituir fontes fósseis de energia. A iniciativa também enfrenta um desafio histórico da região: o acesso irregular à eletricidade. “A energia que chega pela rede falta sempre […] a gente passa dias até que ela seja restabelecida”, destacou Nelson Brito.
Segundo a superintendente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Lima, o projeto pode servir de modelo para outras comunidades amazônicas. “Historicamente, na Amazônia, a gente tem um problema sério de energia […]. A energia é habilitadora para a atividade de geração de renda”, afirmou.

A experiência evidencia como soluções tecnológicas adaptadas à realidade local podem integrar sustentabilidade ambiental, inclusão produtiva e inovação, apontando caminhos para o desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia.

