Energia solar possibilita fábrica de gelo e transforma cadeia da pesca em comunidade ribeirinha no Amazonas

Redação Planeta Amazônia

Uma iniciativa baseada em energia solar está mudando a realidade produtiva de uma comunidade ribeirinha no Amazonas, ao viabilizar a produção local de gelo — insumo essencial para a conservação do pescado. O projeto foi implantado na comunidade Santa Helena do Inglês, em Iranduba, e já impacta diretamente famílias que dependem da pesca como principal fonte de renda.

A estrutura, chamada “Gelo Caboclo”, tem capacidade de produzir até uma tonelada de gelo por dia e armazenar até 20 toneladas, operando com um sistema de placas fotovoltaicas e baterias que garantem funcionamento contínuo.

FOTO: FABÍOLA SINIMBU/AGÊNCIA BRASIL

Antes da implantação, os pescadores precisavam adquirir gelo em Manaus, enfrentando deslocamentos de até cinco horas de barco, além de custos com combustível, mão de obra e perdas causadas pelo derretimento. “Se a gente precisava de uma tonelada, comprava três, para garantir a manutenção do pescado. Se naquele mês não desse peixe, perdia tudo”, relatou o pescador Nelson Brito.

Com a nova estrutura, a lógica produtiva foi invertida. “Com a fábrica de gelo, o pescador agora pode ir atrás do peixe primeiro e só comprar o gelo se conseguir pescar. Então, ele não corre o risco de ter uma despesa inútil”, explicou o gestor do projeto, Demétrio Júnior.

FOTO: FABÍOLA SINIMBU/AGÊNCIA BRASIL

Além de reduzir custos, a iniciativa fortalece a economia local e amplia a autonomia da comunidade, beneficiando mais de 30 famílias diretamente. A expectativa é atender até 70% da demanda dos pescadores durante a temporada, com impacto também em outras atividades, como o turismo e a agricultura familiar.

O projeto é resultado de uma articulação entre organizações sociais, setor privado e políticas públicas, com investimento de aproximadamente R$ 1,5 milhão em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Do ponto de vista ambiental, o uso de energia solar reduz a emissão de gases de efeito estufa ao diminuir a necessidade de deslocamentos para compra de gelo e substituir fontes fósseis de energia. A iniciativa também enfrenta um desafio histórico da região: o acesso irregular à eletricidade. “A energia que chega pela rede falta sempre […] a gente passa dias até que ela seja restabelecida”, destacou Nelson Brito.

Segundo a superintendente da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcléia Lima, o projeto pode servir de modelo para outras comunidades amazônicas. “Historicamente, na Amazônia, a gente tem um problema sério de energia […]. A energia é habilitadora para a atividade de geração de renda”, afirmou.

A experiência evidencia como soluções tecnológicas adaptadas à realidade local podem integrar sustentabilidade ambiental, inclusão produtiva e inovação, apontando caminhos para o desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia.

By emprezaz

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