Estudo aponta relação entre queima de gás do petróleo e aumento de casos de câncer na Amazônia equatoriana

Por Redação Planeta Amazônia

Uma pesquisa conduzida em regiões amazônicas do Equador identificou uma associação consistente entre a queima de gás natural ligada à exploração de petróleo (gas flaring) e o aumento da incidência de câncer em populações locais. O estudo analisou dados das províncias de Sucumbíos e Orellana, territórios marcados por décadas de atividade petrolífera.

Os resultados mostram uma concentração significativa da doença em áreas expostas: 92,2% dos casos de câncer entre homens e 91,8% entre mulheres ocorreram em regiões próximas a pontos de queima de gás, considerando o período de 2010 a 2019.

A pesquisa vai além da correlação simples e aponta um padrão de efeito dose-resposta, considerado um dos critérios epidemiológicos mais relevantes. Ou seja, quanto maior a exposição ao gas flaring, maior o risco de desenvolvimento da doença. Em áreas com maior número de focos de queima, a incidência de câncer chegou a ser mais que o dobro em relação a regiões não expostas.

O estudo também reconstrói uma tendência de longo prazo. Entre 1990 e 2019, os casos de câncer nas regiões analisadas cresceram cerca de 360%, com aumento mais acelerado em áreas próximas à exploração petrolífera do que na capital equatoriana, Quito.

Segundo o pesquisador responsável, Miguel San Sebastián, o resultado reforça o peso epidemiológico da relação entre poluição e saúde. “O relatório confirma um dos critérios de causalidade […] quanto maior a exposição, maior o risco”, afirmou.

Além da queima de gás, os pesquisadores destacam que essas populações estão expostas a um conjunto mais amplo de contaminantes, incluindo derramamentos de petróleo e poluição da água, o que pode potencializar os impactos sobre a saúde.

Outro ponto central da análise é a dimensão estrutural do problema. A atividade petrolífera na região ocorre desde a década de 1970 e se consolidou sem controle ambiental adequado, criando um cenário de exposição contínua para milhares de pessoas.

Apesar de decisões judiciais determinarem a redução do gas flaring, o estudo aponta falhas na implementação dessas medidas. Novos pontos de queima continuam sendo abertos, enquanto a falta de transparência dificulta avaliar o real cumprimento das políticas ambientais.

Protesto realizado em 2022 na frente do Ministério de Minas e Energia exigia fim do gas flaring. Foto: Cáritas Equador/Divulgação

Protesto realizado em 2022 na frente do Ministério de Minas e Energia exigia fim do gas flaring. Foto: Cáritas Equador/Divulgação

Diante desse cenário, os pesquisadores recomendam a criação de sistemas de vigilância epidemiológica na Amazônia, ampliação da infraestrutura de saúde e aprofundamento de estudos sobre os efeitos da exposição a poluentes da indústria petrolífera.

O estudo insere a discussão em um contexto mais amplo: os impactos da exploração de recursos naturais na Amazônia não se limitam ao desmatamento ou às emissões de carbono, mas incluem efeitos diretos e prolongados sobre a saúde das populações locais — especialmente em territórios com baixa presença do Estado.

By emprezaz

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