Estudo propõe 10 regras para tornar restauração de florestas e outros ecossistemas mais eficiente

Restaurar uma área degradada não significa simplesmente plantar árvores.

A escolha das técnicas, das espécies e até mesmo dos objetivos de um projeto precisa considerar as características ambientais e sociais do território, as evidências disponíveis e as transformações que aquele ecossistema poderá enfrentar nas próximas décadas.

É a partir dessa premissa que pesquisadores e profissionais de Brasil, México, China, Etiópia, Gana, Espanha e Inglaterra desenvolveram um conjunto de dez regras para orientar projetos de restauração ecológica baseados em evidências.

O trabalho foi publicado em 1º de setembro no periódico científico Journal of Applied Ecology e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) por meio do núcleo BIOTA Síntese. A proposta é oferecer orientações que possam ser adaptadas a diferentes ecossistemas e contextos socioambientais.

Para uma região como a Amazônia, onde a restauração pode envolver desde áreas desmatadas até ambientes submetidos a incêndios e outras formas de degradação, a abordagem traz uma mensagem relevante: uma técnica que funciona em determinado lugar não necessariamente produzirá os mesmos resultados em outro.

Conhecimento existe, mas precisa chegar à decisão

Uma das questões enfrentadas pelos pesquisadores é a distância entre o conhecimento produzido sobre restauração e sua utilização por quem efetivamente executa os projetos.

Segundo Rafael Chaves, autor brasileiro do estudo, vice-diretor do BIOTA Síntese e especialista ambiental do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), estudos anteriores já demonstravam as vantagens de utilizar evidências para melhorar a restauração. Faltava, porém, uma orientação prática sobre como transformar esse conhecimento em decisões.

O estudo parte, por isso, do conceito de knowledge brokering, que pode ser entendido como a criação de mecanismos capazes de aproximar o conhecimento disponível daqueles que precisam utilizá-lo.

Não basta simplesmente encontrar uma pesquisa científica. É necessário verificar a qualidade das evidências, identificar possíveis vieses e avaliar se aquele conhecimento realmente pode ser aplicado às condições ambientais e sociais do local que será restaurado.

As 10 regras propostas pelos pesquisadores

Em vez de apresentar uma receita universal de restauração, as diretrizes funcionam como um processo para melhorar a qualidade das decisões.

A partir do estudo, os princípios podem ser sintetizados assim: articular o conhecimento disponível; definir objetivos e desafios prioritários; buscar as melhores evidências; avaliar sua qualidade, vieses e aplicabilidade; incorporar conhecimentos científicos, práticos, indígenas e locais; considerar o contexto das políticas públicas; aproximar ciência, política e prática; projetar cenários socioecológicos futuros; avaliar escolhas e possíveis compensações — os chamados trade-offs —; e estimular a coprodução de conhecimentos que possam efetivamente ser aplicados à restauração.

A lógica é particularmente importante porque projetos de restauração podem envolver objetivos distintos. Uma intervenção pode buscar recuperar biodiversidade, melhorar a qualidade da água, recompor vegetação, restabelecer processos ecológicos ou combinar diferentes finalidades.

O caminho escolhido precisa, portanto, estar relacionado ao problema que se pretende solucionar.

Conhecimentos indígenas e locais entram na equação

Um dos aspectos destacados pelo estudo é que a evidência relevante para restaurar um ecossistema não se limita à literatura científica.

Os autores defendem o reconhecimento de conhecimentos científicos, experiências práticas e saberes desenvolvidos por povos indígenas e comunidades locais, incorporando-os aos projetos de restauração.

Essa abordagem tem relevância especial para a Amazônia.

Comunidades que vivem há gerações em determinados territórios acumulam conhecimentos sobre ciclos das águas, comportamento das espécies, solos, sementes, épocas de frutificação e respostas da vegetação às alterações ambientais.

A proposta dos pesquisadores é que diferentes formas de conhecimento possam contribuir para decisões mais adequadas ao contexto de cada território, em vez de simplesmente reproduzir modelos concebidos em outras realidades.

Restaurar pensando no clima do futuro

Outra diretriz importante é não planejar a recuperação de um ecossistema olhando apenas para as condições atuais.

Os pesquisadores defendem a construção de cenários socioecológicos futuros, considerando que clima, uso da terra e relações sociais podem se transformar ao longo das décadas.

Esse princípio muda significativamente a lógica da restauração.

Uma floresta recuperada hoje precisará sobreviver às condições ambientais de amanhã. Em regiões sujeitas ao aumento das temperaturas, alterações nas chuvas, secas prolongadas ou incêndios mais frequentes, decisões tomadas no presente podem determinar a resiliência futura da vegetação.

Na Amazônia, essa discussão ganha importância diante da crescente preocupação científica com a combinação entre mudanças climáticas, desmatamento e degradação florestal.

Políticas públicas também interferem no resultado

O estudo destaca ainda que a restauração não acontece isoladamente das instituições.

Leis, programas governamentais, incentivos econômicos e decisões de planejamento territorial podem facilitar ou dificultar a recuperação dos ecossistemas.

Por isso, os pesquisadores recomendam que os projetos considerem o contexto das políticas públicas locais e a interface entre ciência, política e prática.

Essa dimensão ajuda a explicar por que restaurar milhares ou milhões de hectares exige mais do que conhecimento ecológico.

É necessário criar condições para que proprietários rurais, comunidades, organizações, empresas e governos consigam implementar, financiar e manter os projetos ao longo do tempo.

Nem toda decisão produz apenas benefícios

Os pesquisadores também chamam atenção para os chamados trade-offs.

Na prática, algumas escolhas podem favorecer determinado objetivo e produzir consequências diferentes para outro. Por isso, ganhos, perdas e prioridades precisam ser discutidos antes da tomada de decisão.

Uma intervenção ambiental pode, por exemplo, apresentar resultados positivos do ponto de vista ecológico, mas enfrentar dificuldades econômicas ou sociais que comprometam sua continuidade.

Reconhecer esses conflitos previamente permite construir estratégias mais realistas.

Trabalho reúne ciência e experiência prática de quatro continentes

A construção das dez diretrizes teve caráter transdisciplinar.

Os autores atuam em órgãos governamentais, organizações não governamentais, empresas privadas e instituições de pesquisa, distribuídos por quatro continentes. Segundo Rafael Chaves, o trabalho combinou revisão da literatura científica com a experiência prática dos participantes na utilização de evidências em iniciativas de restauração.

Essa combinação levou o grupo a defender que a recuperação ambiental precisa considerar não apenas ecologia e manejo, mas também as dinâmicas socioecológicas existentes em cada território.

O artigo científico recebeu o título Ten rules for using evidence to guide ecosystem restoration e está disponível no Journal of Applied Ecology.

By emprezaz

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