A falta de dragagem no rio Tapajós, no Pará, pode provocar prejuízos de até R$ 850 milhões e comprometer uma das principais rotas utilizadas para o escoamento da produção de grãos pelo Arco Norte. O alerta foi encaminhado nesta sexta-feira (28) ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) por mais de 30 entidades ligadas ao setor produtivo.
O grupo, liderado pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), considera urgente a realização dos serviços diante da perspectiva de redução das chuvas na região Norte associada à formação do fenômeno El Niño. A preocupação é que a queda no nível do Tapajós imponha restrições crescentes à navegação a partir de setembro.
Segundo projeções de empresas que atuam na região apresentadas no documento, sem a dragagem as operações na hidrovia podem chegar a ser interrompidas por até quatro meses, colocando em risco o transporte de milhões de toneladas de produtos agrícolas.
Tapajós é estratégico para o Arco Norte
A hidrovia do Tapajós desempenha papel importante na conexão entre a produção agrícola do Centro-Oeste e os portos do Norte do país.
Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a navegação comercial ocorre atualmente entre Itaituba e Santarém, em um trecho de aproximadamente 250 quilômetros.
A rota é utilizada principalmente para transportar graneis agrícolas produzidos em Mato Grosso. As cargas chegam à região por rodovia e seguem em embarcações pelo sistema hidroviário até instalações portuárias que permitem sua posterior exportação por Santarém, Barcarena, no Pará, ou Santana, no Amapá.
Essa estrutura transformou o Tapajós em uma peça estratégica da logística do chamado Arco Norte, que oferece uma alternativa aos corredores tradicionais de exportação localizados nas regiões Sul e Sudeste.
Uma eventual interrupção prolongada da navegação, portanto, pode produzir efeitos que ultrapassam o próprio Pará.
Setor teme redução da navegabilidade a partir de setembro
A preocupação das entidades está concentrada principalmente nos próximos meses.
Com a possibilidade de redução das chuvas na região amazônica, empresas que operam no corredor logístico projetam dificuldades crescentes para a passagem das embarcações.
Quando o nível do rio diminui, embarcações podem precisar reduzir a quantidade de carga transportada para diminuir o calado e conseguir navegar com segurança. Em situações mais críticas, determinados trechos podem se tornar temporariamente inviáveis.
É nesse cenário que a dragagem assume importância para o setor.
O procedimento consiste na retirada de sedimentos acumulados no fundo do canal de navegação para manutenção das profundidades necessárias à passagem das embarcações.
No ofício encaminhado ao governo federal, as entidades sustentam que a ausência dessa intervenção pode comprometer a navegabilidade do Tapajós e provocar perdas de até R$ 850 milhões.
Governo já possui acordo para dragagem emergencial
A preocupação com as condições de navegação do Tapajós não é recente.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) possui um Acordo de Cooperação Técnica com a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani) voltado justamente à execução de serviços de dragagem de manutenção na hidrovia.
O acordo prevê intervenções em caráter excepcional, inclusive emergencial, nos trechos de Itapaiuna e Amorim, localizados entre Itaituba e Santarém.
Há ainda possibilidade de execução dos serviços em outros pontos considerados críticos, como Barranco do Navio, Largo do Roque, Santarenzinho e Pederneiras.
A existência desse planejamento demonstra que as limitações provocadas pelas passagens críticas do rio já vinham sendo acompanhadas pelos órgãos responsáveis pela infraestrutura aquaviária.
Estudos sobre pontos críticos foram entregues ao DNIT
Em 2024, o DNIT recebeu um Estudo de Dragagem e das Passagens Críticas do Rio Tapajós, elaborado pela Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), em colaboração com a Universidade Federal do Pará (UFPA).
Na ocasião, o próprio departamento informou que o trabalho tinha como objetivo prevenir e mitigar impactos relacionados às adversidades climáticas na Bacia Amazônica.
A preocupação ganhou relevância após episódios recentes de secas severas na Amazônia, que demonstraram a vulnerabilidade das redes de transporte dependentes dos grandes rios da região.
Além da movimentação de cargas, a redução extrema dos níveis fluviais pode afetar comunidades, abastecimento e deslocamentos em diferentes partes da Amazônia.
Hidrovia deve ganhar ainda mais importância
A Antaq avalia que o Tapajós possui perspectiva de crescimento significativo na logística brasileira nos próximos anos.
Esse potencial está relacionado especialmente ao aumento da produção agrícola do Centro-Oeste e a projetos de infraestrutura capazes de ampliar a quantidade de cargas direcionadas aos portos do Norte.
A agência destaca que a hidrovia é estrategicamente posicionada para conectar Mato Grosso — maior produtor de grãos do país — ao Arco Norte.
Estudos preliminares do DNIT também apontam possibilidade de ampliação da capacidade da hidrovia mediante intervenções de dragagem corretiva e aprofundamento do canal.
Nesse contexto, assegurar condições regulares de navegação deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ter impacto sobre a competitividade do corredor logístico.
Mudanças no regime dos rios desafiam infraestrutura amazônica
O alerta das entidades também evidencia um desafio mais amplo para a infraestrutura implantada na Amazônia.
Grande parte da logística regional depende diretamente dos rios. Quando períodos de estiagem se intensificam, as consequências atingem tanto a população quanto as atividades econômicas.
No Tapajós, esse risco ganha dimensão nacional devido à quantidade de produtos agrícolas que utiliza o corredor para chegar aos mercados internacionais.
Por isso, as mais de 30 entidades que assinaram o documento defendem que a dragagem seja tratada como uma medida urgente antes que a redução do nível do rio imponha restrições mais severas.
A estimativa de R$ 850 milhões em perdas não representa um prejuízo já registrado, mas uma projeção do setor produtivo para o cenário em que as intervenções necessárias não sejam executadas e a navegação seja comprometida.
Com a aproximação do período de maior preocupação para a navegabilidade, a situação do Tapajós coloca novamente em evidência a necessidade de adaptar a infraestrutura amazônica às variações cada vez mais relevantes do regime hidrológico da região.

