O governo federal abriu R$ 64,3 milhões em crédito extraordinário para ações destinadas a reduzir os impactos do El Niño no Brasil, com recursos voltados principalmente à segurança alimentar, à agricultura familiar e ao atendimento de comunidades indígenas.
A medida foi formalizada por meio de Medida Provisória e divide os recursos entre duas grandes frentes. Cerca de R$ 40,26 milhões serão destinados à aquisição e distribuição de alimentos produzidos pela agricultura familiar, enquanto outros R$ 24,02 milhões financiarão ações voltadas aos povos indígenas. Agência Brasil
A liberação ocorre em um momento de crescente preocupação com os efeitos do El Niño sobre o país. Para a Região Norte, as projeções indicam agravamento da estiagem e temperaturas elevadas durante a primavera, aumentando os riscos relacionados à disponibilidade de água, produção agrícola e incêndios. Agência Brasil
Mais de 4 mil famílias agricultoras devem ser atendidas
A maior parcela dos recursos será direcionada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
São aproximadamente R$ 40 milhões destinados à aquisição e distribuição de alimentos da agricultura familiar por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
A previsão é beneficiar mais de 4 mil famílias agricultoras, ao mesmo tempo em que os alimentos adquiridos serão destinados a populações em situação de vulnerabilidade. Agência Brasil
A medida cria uma espécie de ação em duas frentes: garante mercado para pequenos produtores afetados pelas alterações climáticas e utiliza essa produção para fortalecer a segurança alimentar.
A expectativa divulgada pelo governo é adquirir aproximadamente 6,6 mil toneladas de alimentos para a Amazônia Legal. tvtnews.com.br
Funai receberá R$ 24 milhões
Outra parcela importante do crédito será direcionada à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), vinculada ao Ministério dos Povos Indígenas.
Serão R$ 24,02 milhões para reforçar ações emergenciais destinadas aos povos indígenas.
Entre as medidas previstas estão o fornecimento de alimentos, água potável e outros insumos essenciais em terras indígenas atingidas pelos efeitos do fenômeno climático.
A estimativa oficial é alcançar aproximadamente 1,3 mil comunidades indígenas em todo o país.
A medida ganha especial importância na Amazônia, onde muitas comunidades vivem em localidades de difícil acesso e podem enfrentar impactos simultâneos da estiagem, como redução dos níveis dos rios, dificuldades de transporte, comprometimento de fontes de água e problemas no abastecimento de alimentos.
El Niño aumenta risco de seca no Norte
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. A mudança interfere na circulação atmosférica e altera a distribuição das chuvas em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, os impactos não são uniformes.
Enquanto o fenômeno costuma favorecer maior quantidade de chuvas no Sul, pode provocar redução das precipitações nas regiões Norte e Nordeste. No Centro-Oeste e Sudeste, também pode haver atraso no início do período chuvoso.
Para a primavera de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta que a influência do fenômeno deverá acentuar a seca no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto Sudeste e Sul tendem a enfrentar maior quantidade de chuva.
É justamente essa diferença que coloca parte significativa da Amazônia brasileira sob atenção nos próximos meses.
El Niño de 2026 pode atingir intensidade muito forte
As projeções disponíveis indicam que o fenômeno deste ano poderá alcançar intensidade elevada.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil a partir das projeções do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (CPC/NOAA), o El Niño apresenta mais de 90% de probabilidade de atingir a categoria de muito forte e 75% de chance de ser o evento mais intenso registrado desde 1950.
As temperaturas também devem permanecer acima da média em praticamente todo o país durante a primavera, embora a intensidade varie entre as regiões.
Na Amazônia, períodos prolongados de calor associados à diminuição das chuvas podem afetar rios, comunidades isoladas e atividades agrícolas, além de favorecer condições ambientais mais propícias à propagação de incêndios.
Agricultura familiar fica vulnerável às mudanças nas chuvas
As alterações no regime de precipitação representam um problema particularmente importante para agricultores familiares.
Períodos prolongados de seca podem comprometer plantações, reduzir a produtividade e provocar perdas de alimentos que serviriam tanto ao consumo das famílias quanto à comercialização.
É nesse contexto que o Programa de Aquisição de Alimentos ganha importância na estratégia anunciada pelo governo.
Em vez de direcionar todo o recurso apenas para a distribuição emergencial de mantimentos, parte da resposta utiliza alimentos produzidos pelos próprios agricultores familiares.
A medida procura, dessa forma, atender simultaneamente quem precisa de alimentos e quem depende da produção rural para gerar renda.
Governo cria plataforma para acompanhar o El Niño
Além da abertura do crédito extraordinário, o governo federal lançou uma plataforma dedicada ao acompanhamento do fenômeno.
O ambiente reúne informações oficiais sobre monitoramento, prevenção de desastres, assistência às áreas vulneráveis e medidas de preparação e resposta, além de orientações direcionadas a estados, municípios e à população.
A iniciativa busca centralizar informações em um momento no qual os efeitos do El Niño podem assumir características bastante diferentes conforme a região brasileira.
No Norte, o foco está especialmente na possibilidade de calor e estiagem. No Sul, a preocupação se desloca para chuvas intensas e tempestades.
Norte está entre as regiões mais vulneráveis ao calor
O impacto do atual El Niño também preocupa pesquisadores pelo possível aumento das temperaturas extremas.
Um relatório do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago divulgado neste mês projeta efeitos particularmente severos no Norte e Nordeste do Brasil caso o episódio de forte El Niño se confirme. As estimativas do estudo são projeções, e não números de mortes já ocorridas.
Segundo os pesquisadores, o período mais crítico no país pode ocorrer entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
As projeções reforçam a importância de medidas antecipadas, como sistemas de alerta, pontos de hidratação e ações específicas para populações vulneráveis durante períodos de calor extremo.
R$ 64 milhões representam resposta emergencial
Os recursos anunciados têm caráter extraordinário e serão financiados pelo Tesouro Nacional. Eles reforçarão programas que já existem nas áreas de segurança alimentar e proteção aos povos indígenas.
A liberação ocorre antes dos meses que podem concentrar alguns dos impactos mais intensos do El Niño.
Para a Amazônia, a preocupação vai além da redução das chuvas. Rios mais baixos podem comprometer deslocamentos e abastecimento de comunidades; temperaturas elevadas aumentam o estresse térmico; a vegetação mais seca favorece incêndios; e perdas agrícolas podem afetar diretamente a renda e a segurança alimentar.
Nesse cenário, a destinação de recursos para agricultores familiares e comunidades indígenas representa uma primeira frente emergencial diante de um fenômeno cujos efeitos deverão continuar sendo acompanhados nos próximos meses.

