Redação Planeta Amazônia
Lideranças indígenas de diferentes países denunciaram que o modelo atual de transição energética global pode reproduzir práticas históricas de exploração sobre seus territórios. Durante a 1ª Conferência da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, representantes indígenas classificaram a abordagem como um “colonialismo disfarçado”.
A crítica central recai sobre a forma como a transição vem sendo conduzida: segundo as lideranças, mesmo com o discurso de sustentabilidade, o modelo mantém a lógica de exploração de recursos naturais — agora voltada também a minerais estratégicos usados em tecnologias verdes, como baterias, turbinas e painéis solares.
Transição energética sob disputa
Os indígenas defendem que a chamada “transição justa” só será efetiva se garantir a proteção integral dos territórios e o respeito aos direitos das populações tradicionais.
Entre as principais propostas apresentadas está a criação de zonas livres de exploração em terras indígenas, com proibição de novos projetos de petróleo, gás, mineração e outros empreendimentos que possam impactar esses territórios.
Além disso, as lideranças cobram participação direta nos processos de decisão — e não apenas consulta simbólica.
“Querem nossas imagens, não nossas vozes”, criticou uma das lideranças presentes, ao denunciar a exclusão dos povos indígenas dos espaços onde são definidas as políticas climáticas.
Protagonismo indígena na agenda climática
Para os representantes indígenas, a transição energética global não pode ser construída sem a participação ativa das comunidades que vivem nos territórios diretamente impactados.
O coordenador da Organização dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (OPIAC), Oswaldo Muca, reforçou esse papel estratégico:
“Não há transição justa sem o respeito aos direitos dos povos indígenas, e não há transição efetiva sem a nossa liderança”, afirmou.
A proposta também inclui a destinação direta de recursos de financiamento climático às comunidades, sem intermediários, fortalecendo economias próprias e modelos regenerativos.
Contradições no caso brasileiro
A posição do Brasil foi apontada como exemplo das contradições do atual modelo.
A liderança indígena Luene Karipuna, da Terra Indígena Uaçá, criticou o fato de o país defender a transição energética enquanto mantém planos de expansão da exploração de petróleo na Amazônia.
“A maior contradição do Brasil é usar o discurso de transição para justificar novas frentes de exploração”, afirmou.
Ela também destacou a ausência de participação social nas decisões:
“O que vemos é uma discussão de gabinete, sem ouvir os povos e comunidades tradicionais”, disse.
Nova fronteira de exploração
O debate também revela uma mudança no foco da exploração global.
Se antes a pressão recaía principalmente sobre combustíveis fósseis, agora há uma corrida por minerais considerados essenciais para a transição energética — o que, segundo os indígenas, pode abrir uma nova frente de impactos sobre seus territórios.
Esse cenário coloca a Amazônia no centro de uma disputa geopolítica e ambiental: ao mesmo tempo em que é estratégica para o clima global, também se torna alvo de novos ciclos de exploração econômica.
Entre clima e território
A crítica indígena aponta para um dilema estrutural da agenda climática global: como avançar na redução de emissões sem reproduzir desigualdades históricas.
Para os povos indígenas, a solução passa por uma mudança de paradigma — em que a transição energética deixe de ser apenas uma substituição de fontes e passe a incorporar justiça territorial, participação política e respeito aos modos de vida tradicionais.
Nesse contexto, a discussão sobre clima deixa de ser apenas ambiental e se torna também uma questão de direitos, soberania e modelos de desenvolvimento.

