Redação Planeta Amazônia
O Instituto Socioambiental (ISA) e o Movimento das Mulheres do Território Indígena do Xingu (Atix-Mulher) venceram a 8ª edição do Prêmio MapBiomas, na categoria especial Povos e Comunidades Tradicionais, com um projeto que combina ciência, tecnologia e conhecimentos indígenas para monitorar os impactos da expansão agrícola sobre a Terra Indígena Wawi, no leste do Xingu, em Mato Grosso. A premiação foi entregue nesta terça-feira (7), em São Paulo, durante cerimônia realizada no Insper.
O trabalho premiado, intitulado “Ciência Indígena e Monitoramento Territorial Frente à Expansão Agrícola na Terra Indígena Wawi, Leste do Xingu”, foi desenvolvido por Gaibetitanica Suya, vice-coordenadora da Atix-Mulher, e Ricardo Abad, analista técnico de Geoprocessamento do ISA. A pesquisa reúne informações históricas do MapBiomas, referentes ao período de 1985 a 2024, com levantamentos realizados por mulheres indígenas utilizando drones para monitorar o território.
Dados mostram contraste entre floresta protegida e avanço do agronegócio
Os resultados revelam uma diferença expressiva entre áreas protegidas pelos povos indígenas e regiões ocupadas pela expansão agrícola.
Segundo o estudo, enquanto o entorno do município de Querência (MT) perdeu 45% de sua cobertura florestal em decorrência do avanço do agronegócio, a área protegida pelos indígenas Khĩsêtjê apresentou crescimento de 2,2% da cobertura florestal, funcionando como um importante “escudo verde” para a conservação da biodiversidade.
A pesquisa também identificou uma situação crítica em uma área de 68,4 mil hectares reivindicada pelos indígenas, onde foi registrada uma redução de 40% da superfície hídrica em razão da drenagem promovida por propriedades rurais vizinhas. Segundo os pesquisadores, a diminuição das nascentes e dos cursos d’água representa uma ameaça crescente à segurança hídrica e à integridade ambiental da região.
Mulheres indígenas protagonizam produção científica
Para Ricardo Abad, a premiação evidencia o protagonismo das mulheres indígenas na produção de conhecimento científico e no uso de tecnologias voltadas à proteção territorial.
Segundo ele, as guardiãs indígenas já atuam como verdadeiras “cientistas da terra”, utilizando geotecnologias para gerar informações que subsidiam ações de fiscalização, denúncias e defesa dos direitos territoriais.
Já Gaibetitanica Suya afirmou que o reconhecimento fortalece o papel das mulheres na conservação ambiental e na defesa dos povos indígenas.
“O prêmio confirma que somos protagonistas na proteção da floresta, das águas, da nossa cultura e da vida. Seguiremos caminhando juntas, unidas e fortalecidas para que as futuras gerações continuem vivendo em um território preservado”, destacou a liderança indígena.
Ela também ressaltou a importância da participação feminina nos espaços de decisão e da valorização dos conhecimentos tradicionais na proteção dos territórios indígenas.
Estudo reforça urgência da demarcação territorial
A pesquisa chama atenção para a situação da área reivindicada pelos indígenas Khĩsêtjê, cujo processo de revisão dos limites foi iniciado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em 2007, mas permanece paralisado desde 2012 em razão de disputas judiciais.
Segundo Ricardo Abad, essa paralisação aumenta a vulnerabilidade do território diante do avanço da fronteira agrícola e reforça a necessidade de sua homologação definitiva como medida de proteção ambiental e de justiça climática.
Prêmio reconhece soluções para conservação ambiental
Realizado em parceria entre o MapBiomas e o Instituto Ciência Hoje, o Prêmio MapBiomas reconhece projetos que utilizam dados da plataforma para apoiar políticas públicas, conservação ambiental, combate ao desmatamento, enfrentamento das mudanças climáticas e fortalecimento da gestão territorial.
A categoria Povos e Comunidades Tradicionais, criada na oitava edição da premiação, busca valorizar iniciativas desenvolvidas por povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais que utilizam ferramentas de monitoramento territorial para proteger seus territórios e seus modos de vida.
Para especialistas, o reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela Atix-Mulher demonstra que a combinação entre conhecimentos tradicionais e tecnologias de monitoramento vem se consolidando como uma das estratégias mais eficazes para a conservação da Amazônia e o enfrentamento do desmatamento.

