Redação Planeta Amazônia
A Hutukara Associação Yanomami (HAY), principal organização representativa dos povos Yanomami e Ye’kwana, elegeu, pela primeira vez em seus 22 anos de história, três mulheres para compor sua diretoria. A mudança representa um marco para a participação feminina nos espaços de decisão do movimento indígena e coincide com uma renovação na liderança da entidade.
A eleição ocorreu durante a 8ª Assembleia Ordinária da Hutukara, realizada em junho. O encontro também marcou a saída do xamã e líder indígena Davi Kopenawa da presidência da associação, cargo que ocupava desde sua criação, em 2004. A partir de 2027, a presidência será assumida por Dário Kopenawa, atual vice-presidente e filho de Davi.
Participação feminina conquista espaço histórico
Entre as três mulheres eleitas para a diretoria está Ehuana Yaira Yanomami, artista, escritora e uma das principais lideranças indígenas de seu povo. Em entrevista à InfoAmazonia, ela destacou que a presença feminina na direção da Hutukara representa um passo importante para ampliar a participação das mulheres na defesa dos direitos indígenas.
“A voz das mulheres Yanomami vai acontecer, no Brasil, fora do Brasil. A mulherada está começando a lutar”, afirmou Ehuana.
Segundo a liderança, as mulheres pretendem fortalecer sua atuação contra o garimpo ilegal e em defesa da Terra Indígena Yanomami, que nos últimos anos enfrentou uma grave crise humanitária provocada pela invasão de garimpeiros.
Processo eleitoral também foi inédito
A renovação da diretoria foi acompanhada de outra novidade: pela primeira vez, a Hutukara realizou uma votação secreta para escolher sua presidência.
Tradicionalmente, a definição das lideranças ocorria por consenso ou aclamação. Desta vez, duas chapas apresentaram propostas aos participantes da assembleia, que votaram em cédulas depositadas em uma urna simbólica. Para facilitar a participação de indígenas não alfabetizados, as chapas foram identificadas pelas cores vermelha e verde. O processo foi conduzido por uma comissão eleitoral formada pelos próprios Yanomami.
A chapa liderada por Dário Kopenawa recebeu 60 votos, enquanto a candidatura concorrente obteve sete votos.
Defesa do território continua como prioridade
Durante a assembleia, Dário Kopenawa reafirmou que a Hutukara continuará denunciando invasões, garimpo ilegal e outras ameaças à Terra Indígena Yanomami.
Segundo ele, a entidade seguirá articulando ações junto às autoridades brasileiras e à comunidade internacional para garantir a proteção do território e dos direitos dos povos indígenas.
Ao deixar a presidência, Davi Kopenawa afirmou que pretende dedicar mais tempo ao trabalho em sua comunidade, mas ressaltou que a luta continuará sob a liderança da nova geração.
Fortalecimento institucional
Além da renovação da presidência, a chegada das mulheres à diretoria simboliza um processo iniciado há mais de duas décadas pelas próprias mulheres Yanomami, que passaram a ampliar sua participação em assembleias, debates e iniciativas voltadas à defesa do território, da saúde, da cultura e da geração de renda.
A nova gestão também prevê a criação de um setor permanente dedicado às demandas das mulheres indígenas, com foco no fortalecimento do protagonismo feminino, na promoção da saúde e no incentivo à produção de artesanato. A expectativa é que essa estrutura amplie a participação das mulheres nas decisões da associação e fortaleça sua atuação política junto às comunidades Yanomami e Ye’kwana.

