Redação Planeta Amazônia
A ciência produzida na Amazônia alcançou um feito inédito no cenário internacional. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Adalberto Luis Val, foi escolhido para receber a Medalha Le Cren, considerada uma das mais importantes premiações mundiais voltadas à biologia dos peixes e à ciência pesqueira. Com a conquista, ele se torna o primeiro brasileiro e também o primeiro pesquisador latino-americano a receber a honraria concedida pela Fisheries Society of the British Isles (FSBI), organização científica sediada no Reino Unido.
A cerimônia de entrega ocorrerá no dia 30 de julho, na Universidade de Southampton, na Inglaterra. A medalha homenageia o biólogo britânico David Le Cren, uma das principais referências mundiais da ecologia de peixes, e é concedida a cientistas que contribuíram de forma significativa para o avanço do conhecimento, da conservação e da compreensão pública sobre a vida aquática.
Pesquisador do INPA há mais de quatro décadas, Adalberto Val construiu uma carreira dedicada ao estudo dos peixes amazônicos e das adaptações fisiológicas que permitem a sobrevivência dessas espécies em ambientes extremos, marcados por oscilações de temperatura, baixos níveis de oxigênio e alterações na qualidade da água. Seu trabalho é considerado referência internacional na compreensão dos impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas aquáticos tropicais.
Amazônia como laboratório natural
Ao longo de quase cinco décadas de atuação científica na região amazônica, Val ajudou a transformar a floresta e seus rios em um dos principais laboratórios naturais para o estudo dos efeitos das mudanças ambientais sobre a biodiversidade aquática. Suas pesquisas mostram como diferentes espécies reagem ao aumento das temperaturas, às secas severas e à redução da disponibilidade de oxigênio na água.
Segundo o pesquisador, muitos peixes amazônicos já vivem próximos de seus limites térmicos de sobrevivência, o que aumenta a preocupação com os efeitos do aquecimento global. Estudos liderados por ele contribuíram para explicar eventos recentes de mortandade de peixes registrados durante as secas extremas que atingiram a Amazônia nos últimos anos.
Além das implicações ambientais, suas pesquisas também têm impacto direto sobre a segurança alimentar da população amazônica. Em grande parte da região, o peixe é uma das principais fontes de proteína e elemento central da cultura local. Alterações nos ecossistemas aquáticos podem afetar a disponibilidade de alimento e a economia de milhares de comunidades ribeirinhas.
Trajetória de reconhecimento internacional
Nascido em Campinas (SP), Adalberto Val chegou a Manaus no início da década de 1980 para realizar estudos de pós-graduação no INPA. Em 1982 ingressou como pesquisador da instituição, onde fundou, ao lado da pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), hoje referência internacional em pesquisas sobre peixes amazônicos.
Ao longo da carreira, publicou mais de 280 artigos científicos, 22 livros e dezenas de capítulos de livros, acumulando mais de 10 mil citações acadêmicas. Também exerceu funções de destaque na ciência brasileira, incluindo a direção do INPA entre 2006 e 2014 e a atual vice-presidência regional Norte da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Entre os reconhecimentos já recebidos estão a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society. Agora, a Medalha Le Cren amplia ainda mais o alcance internacional de uma trajetória dedicada à pesquisa amazônica.
Reconhecimento à ciência amazônica
Ao comentar a premiação, Adalberto Val afirmou que vê a distinção não apenas como um reconhecimento individual, mas também como uma homenagem à ciência construída coletivamente na Amazônia. Segundo ele, a conquista evidencia que o conhecimento produzido na região possui relevância global para compreender os desafios ambientais do século XXI.
Para a comunidade científica, a premiação reforça a importância dos investimentos em pesquisa na Amazônia e destaca o papel estratégico da região na produção de conhecimento sobre biodiversidade, mudanças climáticas e conservação dos recursos naturais. Em um cenário de crescente preocupação com os impactos do aquecimento global, estudos desenvolvidos por pesquisadores amazônicos ganham relevância cada vez maior para orientar políticas públicas e estratégias de adaptação ambiental em diferentes partes do mundo.

