Ferramenta lançada nesta quinta-feira (22) reúne iniciativas de incentivo à economia sustentável e identifica dificuldades de financiamento, integração e implementação de políticas públicas na região.
A Pan-Amazônia possui pelo menos 232 políticas, programas e instrumentos públicos voltados à bioeconomia, mas a falta de integração entre governos, as dificuldades de acesso ao financiamento e os obstáculos à implementação dessas iniciativas ainda limitam seu potencial econômico. O diagnóstico integra um levantamento da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, que lança, nesta quinta-feira (22), uma plataforma inédita para reunir e comparar políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento sustentável da região.
Batizada de Radar Bioecon, a ferramenta reúne informações de nove países e territórios amazônicos, com o objetivo de fortalecer a cooperação regional e facilitar o acesso a experiências que incentivem atividades econômicas baseadas na biodiversidade.
A apresentação oficial ocorre durante a COP17, no Nature Pavilion, na Zona Azul do evento, com a participação de representantes governamentais, organizações da sociedade civil e povos indígenas.
O levantamento foi iniciado em dezembro de 2024 e ampliado ao longo de 2025, contemplando Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.
Bioeconomia amazônica movimenta bilhões no Brasil
A iniciativa ganha relevância diante do potencial econômico das atividades ligadas à biodiversidade amazônica.
Somente na Amazônia Legal brasileira, atividades associadas à floresta em pé e aos conhecimentos locais contribuem com pelo menos R$ 12 bilhões anuais para o Produto Interno Bruto (PIB), considerando apenas 13 produtos da sociobiodiversidade com dados disponíveis.
A estimativa consta do estudo Nova Economia da Amazônia, liderado pelo WRI Brasil, e evidencia a importância econômica de produtos como o açaí e a castanha.
Apesar desse potencial, a consolidação da bioeconomia depende de políticas capazes de ampliar o acesso ao crédito, fortalecer as cadeias produtivas e garantir oportunidades de geração de renda às populações amazônicas.
Para Juliana Simões, especialista em Políticas Públicas e Bioeconomia da The Nature Conservancy (TNC) Brasil e colíder do Grupo de Trabalho de Políticas Públicas da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, o desenvolvimento dessas atividades exige planejamento de longo prazo e continuidade das ações governamentais.
Segundo a especialista, embora existam instrumentos relevantes na região, ainda é necessário avançar na implementação das políticas e garantir que os mecanismos de apoio cheguem às cooperativas, associações e empreendimentos locais.
Radar reúne políticas públicas de diferentes países amazônicos
A plataforma foi desenvolvida para facilitar a consulta e a comparação de políticas públicas, mecanismos de crédito, compras governamentais, incentivos à produção e instrumentos de apoio a empreendimentos comunitários.
O levantamento identificou que as iniciativas relacionadas à bioeconomia estão distribuídas entre diferentes órgãos governamentais e nem sempre recebem essa denominação.
Dependendo do país, as ações aparecem vinculadas a conceitos como bioeconomia, bionegócios, empreendedorismo verde ou economias indígenas e comunitárias.
Entre as experiências brasileiras identificadas estão o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que criam oportunidades de comercialização para produtores locais.
Outra iniciativa destacada é a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPMBio), que estabelece preços mínimos para 17 produtos extrativistas e contribui para reduzir as oscilações na renda dos produtores.
O levantamento também identificou mecanismos de apoio a negócios sustentáveis na Colômbia e iniciativas de crédito destinadas a cooperativas e empreendimentos comunitários no Equador.
De acordo com Bruno Castro Lacerda, colíder do Grupo de Trabalho de Políticas Públicas da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia e consultor em Bioeconomia para a Conservação Internacional, a comparação dessas experiências pode contribuir para identificar lacunas e aperfeiçoar políticas públicas.
O pesquisador destaca que os países amazônicos já desenvolveram instrumentos relevantes, mas essas iniciativas surgiram em diferentes contextos institucionais e nem sempre estão articuladas entre si.
Nesse cenário, o Radar Bioecon pretende facilitar o intercâmbio de experiências e estimular a cooperação entre os países da região.
Acesso ao financiamento ainda é um dos principais obstáculos
Além de reunir políticas públicas, a Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia identificou dificuldades relacionadas ao financiamento de atividades sustentáveis.
Um levantamento realizado pela organização mapeou 141 mecanismos financeiros destinados à bioeconomia na região. Desse total, apenas 8,5% atuam especificamente com a sociobiodiversidade.
O resultado indica que, apesar da existência de fundos climáticos, linhas de crédito e programas de incentivo, os recursos disponíveis nem sempre chegam às comunidades e aos empreendimentos que desenvolvem atividades econômicas associadas à conservação da floresta.
Entre os obstáculos identificados estão as exigências de garantias financeiras, os procedimentos burocráticos e a dificuldade de adequação dos instrumentos de financiamento às características da produção amazônica.
Essas condições podem limitar a participação de cooperativas, associações e pequenos empreendimentos comunitários nos programas de apoio econômico.
O levantamento aponta a necessidade de adaptar os mecanismos financeiros à realidade dos territórios amazônicos e fortalecer a articulação entre políticas econômicas, produtivas e ambientais.
Cooperação regional pode fortalecer economia da floresta
A Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia defende que o fortalecimento das atividades sustentáveis depende de uma atuação coordenada entre governos, organizações da sociedade civil, instituições financeiras, comunidades tradicionais e setor privado.
Segundo Joana Oliveira de Oliveira, secretária executiva da Rede e gerente de Pan-Amazônia e Bioeconomia do WRI Brasil, a região já possui experiências importantes, mas muitas delas permanecem dispersas e sem articulação.
A representante destaca que a criação de uma base comum de informações poderá auxiliar governos e organizações na elaboração de estratégias permanentes para o desenvolvimento da bioeconomia.
A plataforma também permitirá que os usuários sugiram novas políticas ou atualizações dos registros existentes. As contribuições passarão por um processo de curadoria antes de serem incorporadas à base de dados.
A proposta é que o Radar Bioecon funcione como uma ferramenta dinâmica, capaz de subsidiar estudos sobre lacunas de implementação, identificar oportunidades de cooperação e apoiar a formulação de novas políticas públicas.
Plataforma busca transformar biodiversidade em oportunidades econômicas
A Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia reúne mais de 60 membros de diferentes setores e territórios, incluindo representantes de povos indígenas, comunidades locais, produtores, associações, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, instituições financeiras e empresas.
A organização trabalha para integrar iniciativas que valorizem a biodiversidade e os conhecimentos tradicionais, ampliando oportunidades econômicas compatíveis com a conservação ambiental.
Com o lançamento do Radar Bioecon, a expectativa é que gestores públicos, pesquisadores e organizações tenham acesso a informações que permitam identificar experiências bem-sucedidas e aperfeiçoar os mecanismos de apoio à bioeconomia.
O levantamento evidencia que a região amazônica já dispõe de um conjunto expressivo de políticas e instrumentos voltados ao desenvolvimento sustentável. O principal desafio, entretanto, permanece na transformação dessas iniciativas em oportunidades concretas de geração de renda, valorização da sociobiodiversidade e melhoria das condições de vida das populações locais.

