Pesquisa estima que a preservação de áreas da Amazônia e do Cerrado evitou a emissão de quase 1,5 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa desde 2023, gerando benefícios climáticos globais avaliados em R$ 1,16 trilhão.
A redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado entre 2023 e 2026 pode ter proporcionado benefícios econômicos de até R$ 192 bilhões ao Brasil, segundo estudo do economista Bráulio Borges, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O levantamento, publicado em 19 de outubro, estima que a diminuição da devastação nos dois biomas evitou a emissão de aproximadamente 1,49 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa. Considerando os danos climáticos evitados em escala mundial, o benefício econômico central foi calculado em R$ 1,16 trilhão.
A pesquisa demonstra que a conservação ambiental também possui relevância econômica, ao reduzir riscos associados às mudanças climáticas, como perdas agrícolas, eventos extremos e impactos das altas temperaturas sobre a produtividade.
Os valores representam estimativas monetárias de prejuízos evitados, e não recursos efetivamente arrecadados ou incorporados ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Desmatamento na Amazônia atinge menor nível da série histórica
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), utilizados na pesquisa, a Amazônia Legal registrou 3.335 quilômetros quadrados de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026.
O resultado representa uma redução de 41,8% em relação ao período anterior, quando foram registrados 5.731 quilômetros quadrados, e uma queda de aproximadamente 71% na comparação com 2022.
Trata-se do menor índice da série histórica do sistema Prodes, iniciada em 1988.
No Cerrado, o desmatamento também apresentou recuo, chegando a aproximadamente 5.517 quilômetros quadrados no mesmo intervalo, uma redução de 23,8% em relação ao período anterior e o menor valor da série iniciada em 2001.
REDUÇÃO ANUAL DO DESMATAMENTO — 2025/2026
Amazônia Legal
−41,8%
3.335 km² desmatados
Cerrado
−23,8%
5.517 km² desmatados
Fonte: Prodes/Inpe, dados apresentados no estudo do FGV Ibre.
Para estimar os benefícios da redução do desmatamento, Borges comparou a devastação registrada entre 2019 e 2022 com os resultados observados entre 2023 e 2026.
Segundo os cálculos, aproximadamente 22,3 mil quilômetros quadrados deixaram de ser desmatados em relação a um cenário hipotético no qual o ritmo anterior tivesse sido mantido. Essa extensão é ligeiramente superior à área territorial do estado de Sergipe.
Floresta preservada representa economia em danos climáticos
O estudo utilizou o conceito de Custo Social do Carbono (CSC), indicador econômico que atribui valor monetário aos prejuízos associados à emissão de gases de efeito estufa.
Entre esses prejuízos estão a intensificação de eventos climáticos extremos, as perdas na produção agrícola e os impactos das temperaturas elevadas sobre a saúde e a capacidade produtiva da população.
No cenário central, o pesquisador adotou um custo médio ponderado de US$ 145 por tonelada de dióxido de carbono equivalente.
A partir dessa metodologia, os benefícios globais da redução do desmatamento foram estimados em R$ 1,16 trilhão.
BENEFÍCIOS CLIMÁTICOS ESTIMADOS — 2023 A 2026
Economia brasileira
R$ 67 a 192 bi
Economia mundial — cenário central
R$ 1,16 tri
Cenários globais alternativos
Estimativa conservadora
R$ 621 bilhões
Estimativa mais elevada
R$ 9,8 trilhões
Valores modelados de danos climáticos evitados, não receitas financeiras efetivamente recebidas.
A variação entre os cenários decorre das diferentes premissas utilizadas para atribuir valor econômico aos impactos das emissões.
A pesquisa reforça que parte importante dos benefícios ambientais não aparece diretamente nas estatísticas tradicionais de crescimento econômico.
Rios voadores ampliam importância econômica da Amazônia
O economista destaca que os cálculos não incluem todos os benefícios proporcionados pela conservação da floresta, especialmente aqueles relacionados à manutenção das chuvas e à disponibilidade de água no Brasil.
A Amazônia desempenha papel fundamental na circulação de umidade por meio da evapotranspiração, processo pelo qual a vegetação libera vapor d’água na atmosfera.
Esse fenômeno contribui para a formação dos chamados rios voadores, fluxos atmosféricos que transportam umidade para outras regiões brasileiras, incluindo o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul.
A manutenção desse sistema é relevante para atividades econômicas que dependem diretamente das chuvas, como a agropecuária, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento das cidades.
O estudo menciona pesquisas que atribuem à chuva gerada pela Amazônia brasileira um valor econômico aproximado de US$ 20 bilhões por ano, considerando seu uso na irrigação agrícola.
Esses benefícios se repetem enquanto a floresta permanece conservada, diferentemente de ganhos associados à exploração imediata dos recursos naturais.
Além disso, a estimativa principal não incorpora integralmente outros serviços ambientais, como a conservação da biodiversidade, a redução de incêndios e os benefícios para a navegação fluvial.
Conservação pode beneficiar a própria produção agropecuária
Um dos pontos destacados pela pesquisa é que a redução do desmatamento não precisa representar um obstáculo ao desenvolvimento das atividades agropecuárias.
A preservação da cobertura florestal contribui para a manutenção do regime de chuvas, recurso essencial à produtividade agrícola e à criação de animais.
Nesse sentido, a conservação ambiental pode ajudar a reduzir riscos econômicos relacionados à escassez hídrica e às alterações climáticas.
O levantamento também indica que a avaliação de projetos de infraestrutura e políticas públicas deveria considerar de forma mais abrangente os custos ambientais associados à perda de vegetação.
Segundo o pesquisador, ignorar esses impactos pode levar à adoção de decisões que contabilizam os benefícios econômicos imediatos, mas deixam de considerar prejuízos futuros para a sociedade.
Financiamento ambiental ainda é inferior aos benefícios estimados
O estudo também chama atenção para a diferença entre o valor econômico atribuído à preservação das florestas e os recursos destinados ao financiamento de políticas de conservação.
Entre os mecanismos mencionados estão o Fundo Amazônia, os mercados de créditos de carbono e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado pelo Brasil durante a COP30, realizada em Belém, em 2025.
Na avaliação do economista, os recursos mobilizados por essas iniciativas ainda representam uma parcela reduzida dos benefícios climáticos estimados para a conservação florestal.
O pesquisador defende a incorporação do Custo Social do Carbono às análises de políticas públicas, incluindo projetos de infraestrutura, planejamento energético e definição de incentivos econômicos.
A proposta busca permitir que decisões de investimento considerem não apenas os custos financeiros imediatos, mas também os impactos ambientais e econômicos de longo prazo.
Preservação da Amazônia também é uma questão econômica
Os resultados apresentados pela FGV evidenciam a dimensão econômica da conservação da Amazônia e do Cerrado.
Ao evitar emissões de gases de efeito estufa, a redução do desmatamento contribui para diminuir riscos climáticos que podem afetar diferentes setores da economia brasileira.
A manutenção da floresta também sustenta serviços ambientais essenciais, como a regulação das chuvas, a conservação dos recursos hídricos e a proteção da biodiversidade.
Embora os valores apresentados sejam estimativas sujeitas às premissas dos modelos econômicos utilizados, o levantamento demonstra que os benefícios da preservação podem alcançar cifras expressivas e ultrapassar os limites territoriais das regiões diretamente protegidas.

