Startup brasileira usa satélites para monitorar mineração em áreas protegidas da Amazônia

Tecnologia desenvolvida pela Geodatin cruza pedidos de exploração mineral com terras indígenas, unidades de conservação e outros territórios protegidos e transforma grandes bases de dados em mapas para apoiar análises ambientais

Identificar possíveis conflitos entre pedidos de exploração mineral e áreas protegidas da Amazônia exige o cruzamento de informações que, muitas vezes, estão espalhadas em diferentes bases públicas. Uma startup brasileira encontrou na tecnologia uma forma de reunir esses dados e tornar a análise territorial mais acessível.

A Geodatin, empresa especializada em geotecnologia, desenvolveu uma plataforma capaz de combinar informações sobre requerimentos minerários com os limites de terras indígenas, unidades de conservação e outros territórios submetidos a restrições legais à atividade mineral.

A tecnologia foi utilizada no Amazônia Minada, projeto de jornalismo de dados desenvolvido em parceria com a InfoAmazonia para identificar possíveis conflitos entre pedidos de exploração mineral e áreas protegidas na Amazônia.

Na prática, a ferramenta organiza grandes volumes de informações públicas e os transforma em mapas nos quais é possível visualizar territorialmente onde esses pedidos se encontram em relação às áreas protegidas.

A existência de uma sobreposição identificada pela plataforma funciona como indicação para aprofundamento da análise e não significa, isoladamente, que exista uma irregularidade comprovada. A ferramenta ajuda a localizar situações que podem exigir verificação técnica e documental.

Dados públicos transformados em mapas

A ideia surgiu de um problema conhecido por pesquisadores e profissionais que trabalham com informações territoriais: embora exista uma quantidade crescente de dados públicos, eles nem sempre estão organizados de maneira que permita uma interpretação rápida.

Registros sobre mineração podem estar em uma base, enquanto informações sobre terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas aparecem em sistemas diferentes.

A Geodatin desenvolve tecnologias para reunir, processar e apresentar essas informações geográficas de maneira integrada.

No caso do Amazônia Minada, a plataforma cruza requerimentos de exploração mineral com áreas que possuem restrições legais para a atividade.

“A ideia era analisar requerimentos de exploração mineral e comparar essas informações com áreas protegidas para encontrar possíveis inconsistências. Conseguimos transformar um grande volume de dados em uma ferramenta que facilita a visualização desses cenários”, explica Diêgo Costa, cofundador da Geodatin.

O projeto possui inclusive repositórios públicos de software mantidos pela InfoAmazonia, que descrevem a ferramenta como um dashboard de requerimentos minerários em terras indígenas e unidades de conservação na Amazônia Legal brasileira.

Satélites ajudam a enxergar transformações no território

As imagens de satélite são outro componente importante desse tipo de tecnologia.

Elas permitem observar grandes extensões territoriais e acompanhar mudanças na superfície ao longo do tempo, algo particularmente relevante em uma região com as dimensões e dificuldades de acesso da Amazônia.

A própria pauta encaminhada ao Planeta Amazônia traz como exemplo uma imagem de satélite de uma jazida localizada no Pará, além de mapas que mostram a distribuição territorial de áreas relacionadas à mineração.

O trabalho da startup consiste em transformar esse tipo de informação espacial, combinado a bases de dados públicas, em plataformas capazes de auxiliar a interpretação dos fenômenos ambientais.

Isso permite que uma quantidade de informações que antes demandava diferentes consultas técnicas seja apresentada de maneira integrada.

Empresa nasceu dentro da universidade

A trajetória da Geodatin começou no ambiente acadêmico.

A empresa foi fundada em 2018 por pesquisadores ligados à área de geotecnologia, a partir de experiências relacionadas ao mapeamento do uso e da cobertura da terra.

Registros do próprio Programa Centelha apontam que a startup nasceu do trabalho de quatro pesquisadores — Diêgo Costa, Rodrigo Nogueira, Soltan Galano e Maria Madalena — que participavam de um projeto de mestrado voltado ao mapeamento territorial.

Inicialmente, o conhecimento desenvolvido pela equipe estava direcionado principalmente a projetos acadêmicos.

O desafio seguinte foi transformar essa experiência científica em produtos e serviços que pudessem ser utilizados fora das universidades.

Programa Centelha ajudou a transformar pesquisa em negócio

Esse processo ganhou impulso quando a equipe participou da primeira edição do Programa Centelha, iniciativa nacional de apoio a empreendimentos inovadores.

Segundo Diêgo Costa, a formação técnica dos pesquisadores era sólida, mas faltava experiência em áreas necessárias para transformar conhecimento científico em uma empresa.

“Nós viemos da academia e tínhamos bastante conhecimento técnico, mas pouca experiência em áreas como modelagem de negócios, precificação, vendas e estruturação empresarial. As capacitações do Centelha foram fundamentais para que conseguíssemos transformar conhecimento científico em soluções com potencial de mercado”, afirma.

A participação no programa ajudou a equipe a desenvolver uma visão empresarial para além da tecnologia.

Informações históricas do Programa Centelha também registram que a empresa passou por incubação no Parque Tecnológico da Bahia e recebeu capacitações voltadas à estruturação do negócio.

De uma ideia acadêmica a dezenas de soluções

A atuação foi ampliada nos anos seguintes.

Desde a participação no Centelha, a Geodatin afirma ter desenvolvido aproximadamente 20 a 30 soluções para clientes de diferentes setores.

Hoje, a tecnologia da empresa é utilizada em trabalhos relacionados ao monitoramento do desmatamento, recursos hídricos, incêndios florestais e outras questões ambientais.

A startup atende organizações do terceiro setor, órgãos públicos e empresas privadas.

Em vez de trabalhar apenas com a geração de mapas, a proposta envolve organizar e automatizar análises para que dados territoriais possam servir de apoio a decisões.

Tecnologia também é utilizada pelo MapBiomas

A atuação da empresa alcançou uma das principais iniciativas de monitoramento ambiental do país.

A Geodatin participa de trabalhos ligados ao MapBiomas, rede que acompanha as transformações da cobertura e do uso da terra no Brasil.

A empresa atua, entre outras atividades, na geração e validação de alertas relacionados ao desmatamento.

Documentos do MapBiomas publicados em 2026 incluem integrantes da Geodatin entre os profissionais envolvidos no refinamento e na validação de alertas de desmatamento.

A empresa também aparece como colaboradora tecnológica do MapBiomas Amazônia, iniciativa que produz informações sobre cobertura e uso da terra nos países amazônicos.

Diêgo Costa integra ainda a equipe de monitoramento de água do MapBiomas.

Sistemas automatizam análises ambientais

Outra frente desenvolvida pela startup é a automação de análises que normalmente exigiriam consultas individuais a diversas bases.

Em Pernambuco, por exemplo, a empresa criou uma ferramenta que cruza automaticamente diferentes bancos de dados para auxiliar processos de licenciamento ambiental.

A plataforma reúne informações técnicas utilizadas durante a avaliação dos processos, permitindo acelerar determinadas etapas de consulta.

A lógica é semelhante à utilizada no monitoramento da mineração na Amazônia: reunir informações que já existem, mas estão fragmentadas, e transformá-las em uma visualização capaz de apoiar quem precisa tomar decisões.

Dados também ajudam a monitorar água, florestas e incêndios

A aplicação de geotecnologia não se limita à mineração.

Ao longo dos últimos anos, a empresa passou a desenvolver sistemas destinados ao acompanhamento de desmatamento, recursos hídricos e incêndios florestais.

A experiência com água chegou também a projetos de escala internacional na Amazônia.

A Geodatin já foi contratada no âmbito do Observatório Regional Amazônico, ligado à Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), para desenvolver módulos relacionados a recursos hídricos e integração de redes amazônicas. O trabalho integra uma iniciativa voltada à gestão compartilhada da água entre os países da Bacia Amazônica.

Esse tipo de aplicação demonstra como as mesmas ferramentas de análise espacial podem ser adaptadas para problemas ambientais distintos.

Informação pode apoiar fiscalização e políticas públicas

A capacidade de processar grandes quantidades de dados ganha importância diante da extensão territorial da Amazônia.

Fiscalizar presencialmente toda a região é inviável. Imagens de satélite e sistemas automatizados permitem identificar mudanças ou situações que merecem atenção antes do deslocamento de equipes a campo.

A tecnologia não substitui a fiscalização nem determina sozinha a existência de uma infração ambiental. Ela pode, entretanto, funcionar como instrumento para direcionar análises e indicar áreas que precisam ser verificadas.

Essa distinção é especialmente importante no caso do Amazônia Minada: um pedido minerário sobreposto a determinada área protegida não constitui automaticamente prova de mineração ilegal. A plataforma revela o cruzamento territorial e fornece elementos para investigação posterior.

Tecnologia desenvolvida para enxergar a Amazônia de outra forma

Para Diêgo Costa, a evolução da empresa demonstra como conhecimento originalmente produzido na academia pode ganhar aplicações práticas.

“Hoje conseguimos enxergar como a tecnologia pode gerar impacto real. Seja monitorando desmatamento, organizando informações ambientais ou apoiando políticas públicas, nosso objetivo continua sendo transformar dados complexos em informações úteis para a tomada de decisão”, afirma o cofundador.

No caso da Amazônia, essa capacidade adquire uma dimensão particular.

A combinação de satélites, dados públicos e sistemas digitais permite observar simultaneamente territórios separados por milhares de quilômetros e identificar relações que dificilmente seriam percebidas analisando cada banco de dados isoladamente.

No monitoramento da mineração, a tecnologia torna visível justamente esse encontro: de um lado, os requerimentos para exploração dos recursos minerais; de outro, terras indígenas, unidades de conservação e demais territórios protegidos.

Entre eles, uma quantidade crescente de dados que, quando organizada e transformada em mapas, pode ajudar pesquisadores, jornalistas, gestores e órgãos públicos a compreender melhor as pressões existentes sobre o território amazônico.

By emprezaz

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