Redação Planeta Amazônia
A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), foi anunciada como vencedora do Prêmio Almirante Álvaro Alberto, considerada a principal honraria científica do país. A premiação é concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com a Marinha do Brasil.
Criado em 1981, o prêmio reconhece pesquisadores com contribuições relevantes para o avanço científico nacional. A cerimônia está prevista para maio, no Rio de Janeiro, quando a cientista receberá diploma, medalha e um prêmio de R$ 200 mil.
De acordo com o material enviado, o reconhecimento consolida uma trajetória de quase cinco décadas dedicada à pesquisa na Amazônia, com foco nos ecossistemas aquáticos e nas dinâmicas das áreas alagáveis.
Ciência da Amazônia como eixo estratégico
Ao longo da carreira, Maria Teresa se dedicou a compreender os efeitos do chamado “pulso de inundação” — a variação anual dos níveis dos rios — sobre a biodiversidade, os ciclos ecológicos e o armazenamento de carbono. Esse fenômeno, segundo a pesquisadora, molda profundamente a dinâmica dos ecossistemas amazônicos.
“A água sobe e desce ao longo do ano e transforma os sistemas de uma maneira única […] influenciando todas as cadeias alimentares e os estoques de carbono da região”, explicou.
A cientista destaca que esses sistemas não têm impacto apenas regional, mas nacional. “A sociedade brasileira […] depende de todo o balanço hídrico da região amazônica”, afirmou, ao mencionar a formação dos chamados “rios voadores”, que transportam umidade para outras regiões do país.
Entre ciência e alerta ambiental
Além da pesquisa básica, o trabalho da bióloga também aborda os impactos de ações humanas sobre esses ecossistemas. Estudos conduzidos por ela apontam efeitos de longo prazo provocados por intervenções como hidrelétricas.
“O que a gente tem encontrado é que, em 30 anos após a Hidrelétrica de Balbina, […] as florestas vêm morrendo gradualmente”, afirmou, ao relacionar a alteração do regime natural dos rios à degradação ambiental.
A pesquisadora também alerta para a escala desses sistemas. Segundo ela, apenas as áreas de várzea e igapó associadas aos grandes rios amazônicos cobrem cerca de 750 mil km², enquanto os igarapés ultrapassam 1 milhão de km² — dimensões que evidenciam a importância desses ambientes para o equilíbrio climático e hidrológico do país.
Produção científica e políticas públicas
Ao longo da carreira, Maria Teresa participou de iniciativas nacionais e internacionais voltadas à Amazônia, incluindo programas de cooperação científica e conselhos ligados à biodiversidade e mudanças climáticas.
Nesse contexto, sua produção científica tem sido utilizada como base para formulação de políticas públicas, especialmente na definição de áreas de preservação e no entendimento da fragilidade dos ecossistemas aquáticos.
“As pesquisas acabam sendo fundamentais para que a gente possa tanto designar áreas de preservação quanto entender a necessidade de preservar esses sistemas”, destacou.
Um reconhecimento com dimensão política
A premiação ocorre em um momento em que a Amazônia ocupa posição central no debate climático global. O reconhecimento de uma pesquisadora que dedicou sua carreira aos sistemas aquáticos da região reforça a importância da ciência produzida no território amazônico para compreender fenômenos globais, como mudanças climáticas e segurança hídrica.
Mais do que uma conquista individual, o prêmio evidencia o papel estratégico da pesquisa científica na Amazônia — tanto para o Brasil quanto para o equilíbrio ambiental do planeta.

