Lideranças Yanomami e Ye’kwana cobram estratégia conjunta entre Brasil e Venezuela contra garimpo e malária

Redação Planeta Amazônia

Lideranças dos povos Yanomami e Ye’kwana solicitaram ao governo brasileiro a criação de uma estratégia conjunta com a Venezuela para fortalecer o combate ao garimpo ilegal e conter o avanço da malária na região de fronteira entre os dois países. O pedido foi formalizado por meio de duas cartas elaboradas durante o Encontro Binacional de Awaris e a III Assembleia Geral da Urihi Associação Yanomami, realizados na Terra Indígena Yanomami.

Os documentos foram encaminhados ao Ministério das Relações Exteriores, ao Ministério da Saúde, ao Ministério dos Povos Indígenas e também a órgãos do governo venezuelano. As lideranças argumentam que os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas ultrapassam os limites territoriais dos dois países e exigem ações coordenadas para garantir proteção territorial, atendimento de saúde e controle das atividades ilegais na região.

A reivindicação surge em um momento em que o governo brasileiro registra avanços na retirada de invasores da Terra Indígena Yanomami. Dados apresentados pela Casa de Governo em Roraima apontam redução de 98,9% da área ocupada pelo garimpo ilegal desde o início das operações de desintrusão. Apesar disso, lideranças indígenas afirmam que grupos criminosos passaram a concentrar atividades em áreas próximas à fronteira venezuelana, dificultando a fiscalização e ampliando os riscos para as comunidades locais.

Garimpo migra para áreas de fronteira

Segundo a carta elaborada pela Urihi Associação Yanomami, comunidades localizadas nas regiões de Homoxi e Xitei continuam sofrendo pressão do garimpo ilegal devido à proximidade com a Venezuela. O documento cita especificamente o garimpo conhecido como Taboca, que opera do lado venezuelano e, segundo as lideranças, recebe apoio logístico a partir de Boa Vista.

As associações indígenas alertam que a atividade ilegal continua provocando degradação ambiental, contaminação de rios, violência e impactos sobre a saúde das comunidades. Para os Yanomami e Ye’kwana, a ausência de uma ação integrada entre os dois países permite que garimpeiros utilizem a fronteira como rota de fuga e reorganização das operações clandestinas.

O documento propõe a criação de uma Câmara Técnica Binacional entre Brasil e Venezuela para coordenar ações de fiscalização, compartilhamento de informações e fortalecimento da proteção territorial. A medida é considerada estratégica pelas lideranças para impedir que os avanços obtidos no lado brasileiro sejam neutralizados pela continuidade das atividades ilegais no território venezuelano.

Malária continua sendo ameaça

Além do garimpo, a malária permanece como uma das maiores preocupações das comunidades indígenas da região. Dados preliminares do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária) registraram 25.861 casos positivos da doença na Terra Indígena Yanomami em 2025. A região de Awaris concentrou a maior incidência da enfermidade em território brasileiro.

As lideranças destacam que o intenso fluxo de indígenas entre Brasil e Venezuela — motivado por visitas familiares, busca por suprimentos e atendimentos de saúde — favorece a disseminação da doença. Segundo os documentos apresentados ao governo, o problema é agravado pela falta de dados epidemiológicos consolidados no lado venezuelano da fronteira.

A carta produzida durante o Encontro Binacional de Awaris alerta ainda para a pressão crescente sobre recursos naturais em comunidades que recebem indígenas vindos da Venezuela. A região de Awaris abriga atualmente mais de três mil habitantes e enfrenta desafios relacionados à disponibilidade de caça, pesca, áreas para cultivo e materiais utilizados na construção de moradias tradicionais.

Lideranças defendem cooperação internacional

O pedido por uma estratégia binacional reforça uma pauta que vem sendo discutida pelas lideranças Yanomami e Ye’kwana nos últimos anos. Durante o VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana, realizado em 2025, representantes indígenas já haviam apontado a necessidade de ampliar ações permanentes de combate ao garimpo, fortalecer a vigilância territorial e acelerar o enfrentamento à malária. Entre as vozes mais atuantes nesse debate estão o presidente da Hutukara Associação Yanomami, Davi Kopenawa, o presidente da Urihi Associação Yanomami, Waihiri Hekurari, e o presidente da Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), Júlio Ye’kwana.

Para as lideranças, a cooperação entre os governos do Brasil e da Venezuela será fundamental para garantir a proteção da maior terra indígena do país e impedir que o garimpo ilegal continue colocando em risco a saúde, a segurança e o modo de vida das comunidades que vivem na região de fronteira.

By emprezaz

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