Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia

Redação Planeta Amazônia

Dos dez agrotóxicos mais comercializados no Brasil, sete têm uso proibido na União Europeia. O dado evidencia uma diferença crescente entre os critérios adotados no país e as restrições impostas pelo bloco europeu a substâncias consideradas de risco à saúde humana ou ao meio ambiente. A avaliação é da pesquisadora Larissa Bombardi, autora do livro Agrotóxicos e colonialismo químico.

A situação chama atenção também pelo papel desempenhado pela própria Europa nesse mercado. Embora determinados princípios ativos não possam ser utilizados nas lavouras dos países do bloco, empresas instaladas em território europeu continuam produzindo e exportando parte dessas substâncias para outras regiões do mundo.

Em 2024, os países da União Europeia autorizaram a exportação de quase 122 mil toneladas de agrotóxicos proibidos para uso dentro do próprio bloco. O volume representa crescimento superior a 50% em comparação com 2018, quando foram notificadas cerca de 81 mil toneladas. Ao todo, 75 substâncias proibidas na UE tiveram exportações notificadas naquele ano.

Brasil está entre os principais destinos

Os produtos foram destinados a 93 países, sendo que aproximadamente 75% deles eram nações de baixa e média renda. O Brasil aparece entre os principais destinos dessas exportações e figura como um dos maiores mercados mundiais de agrotóxicos.

Somente em 2024, as exportações de produtos proibidos na União Europeia destinadas ao Brasil alcançaram cerca de 14,6 milhões de quilos ou litros. Entre as substâncias citadas estão mancozebe, atrazina, tiametoxam, dimetoato, fipronil e glufosinato.

O cenário é apontado por pesquisadores e organizações socioambientais como uma contradição: produtos considerados inadequados para utilização dentro do mercado europeu continuam sendo fabricados e comercializados para países onde a legislação permite seu uso.

Larissa Bombardi aponta “dois pesos e duas medidas”

Para Larissa Bombardi, que há anos pesquisa a relação entre o modelo agrícola brasileiro e o uso de agrotóxicos, a situação revela uma diferença de tratamento entre populações do Norte e do Sul Global.

A pesquisadora afirma que acompanha há anos a lista dos produtos mais comercializados no Brasil e observa um aumento da participação de substâncias já proibidas na União Europeia. Segundo ela, inicialmente eram três entre os dez mais vendidos; depois passaram a cinco e, atualmente, chegaram a sete.

Bombardi utiliza o conceito de “colonialismo químico” para analisar esse fluxo de substâncias: países que adotam regras mais rígidas para proteger suas próprias populações continuam permitindo que empresas produzam e exportem determinados químicos para mercados com normas menos restritivas.

A pesquisadora também atribui parte dessa dinâmica à pressão econômica exercida pela indústria química na Europa e cita o caso da França, onde medidas destinadas a restringir a produção e a exportação de substâncias proibidas enfrentaram forte resistência empresarial.

Atrazina preocupa por impactos ambientais

Entre os princípios ativos destacados está a atrazina, herbicida proibido na União Europeia e ainda utilizado no Brasil.

Bombardi chama atenção especialmente para a expansão do produto na Amazônia brasileira. Segundo os dados apresentados pela pesquisadora, o uso da atrazina na região aumentou 575% em dez anos.

A preocupação não se limita à quantidade utilizada. A substância possui capacidade de dispersão pela água, característica particularmente relevante em uma região marcada pela maior rede hidrográfica do planeta.

A pesquisadora também relaciona a exposição à atrazina a uma série de potenciais efeitos adversos descritos na literatura científica, o que reforça, em sua avaliação, a necessidade de maior cautela na utilização dessas substâncias.

Exportações europeias cresceram apesar de compromissos anteriores

A ampliação das exportações também contrasta com compromissos assumidos anteriormente pela própria União Europeia.

Em 2020, a Comissão Europeia anunciou a intenção de avançar no combate à produção destinada à exportação de substâncias proibidas dentro do bloco, como parte de sua estratégia para produtos químicos vinculada ao Pacto Verde Europeu. Os números registrados posteriormente, entretanto, mostram crescimento das exportações entre 2018 e 2024.

Para Bombardi, a permanência desse modelo expõe uma incoerência entre as políticas ambientais e sanitárias adotadas internamente pelos países europeus e as práticas comerciais mantidas com outras partes do mundo.

Debate envolve produção agrícola, saúde e proteção ambiental

A diferença regulatória entre Brasil e União Europeia amplia um debate que envolve interesses econômicos, produtividade agrícola, proteção ambiental e saúde pública.

O crescimento da presença de princípios ativos proibidos na Europa entre os produtos mais comercializados no Brasil também coloca em discussão os critérios utilizados para autorização, reavaliação e retirada dessas substâncias do mercado brasileiro.

No caso da Amazônia, o tema ganha dimensão adicional diante da expansão da fronteira agrícola e da possibilidade de contaminação de solos, rios e outros ambientes naturais. O aumento expressivo do uso de determinadas substâncias na região reforça a necessidade de monitoramento dos impactos sobre os ecossistemas e sobre as populações que dependem diretamente da água e dos recursos naturais.

By emprezaz

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