Monitoramento do Copernicus aponta emissões muito acima da média em pelo menos 13 regiões; Estados Unidos lideram anormalidade no início de agosto e França registra recorde histórico em 2026
Os incêndios florestais estão provocando emissões de carbono muito acima dos padrões históricos em diferentes partes do planeta. Nos primeiros dias de agosto, pelo menos 13 regiões apresentavam níveis considerados anormais, segundo dados do monitoramento diário do Copernicus, serviço climático da União Europeia que compara as emissões atuais com a média registrada ao longo dos últimos 23 anos.
Os Estados Unidos aparecem como principal foco da anormalidade neste início de mês. Os incêndios no país estão liberando, em média, 878 mil toneladas de carbono por dia, volume 180% superior à média esperada para o período. Washington, Oregon e Utah apresentam níveis classificados como “extremamente incomuns” pelo sistema europeu.
O cenário também chama atenção na Europa. A França já acumula em 2026 o maior volume de emissões decorrentes de incêndios florestais de sua série histórica, superando o recorde anterior, registrado em 2022. Somente em julho, as emissões francesas ficaram 787% acima da média.
Os dados foram reunidos em reportagem da jornalista Priscila Pacheco, publicada originalmente pelo Observatório do Clima em 5 de agosto.
Estados Unidos registram 878 mil toneladas de carbono por dia
Nos Estados Unidos, os incêndios vêm se intensificando desde julho, mas é o estado de Washington que apresenta atualmente o maior volume de emissões de carbono.
No dia 31 de julho, o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos emitiu para a região um alerta de “Situação Particularmente Perigosa”, classificação reservada para condições severas de incêndio.
O órgão alertou que a combinação entre temperaturas elevadas, ventos fortes e vegetação seca poderia criar condições extremamente perigosas no leste de Washington no início de agosto.
A Nasa também chamou atenção para as condições encontradas no estado. Em publicação de 4 de agosto, a agência espacial norte-americana destacou que a seca registrada após um inverno quente e com reduzida camada de neve deixou a vegetação particularmente suscetível ao fogo.
Além das emissões de carbono, os incêndios produzem consequências imediatas para a população. A fumaça deteriorou a qualidade do ar a níveis considerados insalubres e avançou para outros estados norte-americanos e províncias do Canadá.
Centenas de estruturas já foram destruídas e autoridades determinaram evacuações obrigatórias em áreas de Washington.
Estados Unidos têm quase uma centena de incêndios ativos
A dimensão da emergência também aparece nos dados operacionais.
De acordo com boletim do Centro Nacional de Incêndios citado na reportagem, havia 97 incêndios ativos nos Estados Unidos, sendo 94 considerados de grande porte.
O combate mobiliza inclusive apoio internacional, com profissionais enviados pela Austrália e Nova Zelândia.
As operações contam ainda com quatro aeronaves-tanque C-130, capazes de lançar grandes volumes de água sobre as áreas atingidas. Cada aeronave consegue despejar mais de 11,3 mil litros em menos de cinco segundos.
O problema não está restrito aos Estados Unidos. Haiti, Holanda e Irlanda também aparecem no monitoramento com emissões classificadas como extremamente incomuns.
Na Holanda, por exemplo, um incêndio atingiu uma reserva natural no sul do país em meio a condições de seca e ventos fortes.
Canadá liderou emissões globais em julho
Se os Estados Unidos concentram a maior anormalidade no início de agosto, o Canadá havia ocupado posição de destaque no mês anterior.
Em julho, os incêndios florestais canadenses foram os que mais contribuíram para as emissões globais decorrentes do fogo, segundo o Copernicus.
As emissões chegaram a 2,48 milhões de toneladas de carbono por dia, quantidade 134% superior à média histórica para o período.
A magnitude registrada em julho de 2026 só ficou abaixo da observada em julho de 2023, ano marcado por uma temporada excepcional de incêndios no Canadá.
Além das áreas diretamente queimadas, milhares de focos contribuíram para transportar grandes volumes de fumaça por extensas distâncias, atingindo o Ártico canadense, o Atlântico Norte e os Estados Unidos.
O episódio evidencia uma característica importante dos grandes incêndios contemporâneos: seus efeitos podem ultrapassar fronteiras nacionais. A fumaça e os poluentes lançados na atmosfera podem ser transportados por correntes atmosféricas e afetar regiões localizadas a milhares de quilômetros dos focos.
França tem emissões quase nove vezes acima da média
Na Europa, a situação da França é um dos principais destaques de 2026.
Depois de semanas de grandes queimadas, o país alcançou neste ano o maior volume acumulado de emissões por incêndios florestais já registrado em sua série histórica, ultrapassando a marca anterior, de 2022.
A dimensão da anomalia fica ainda mais evidente quando analisados os dados de julho: as emissões ficaram 787% acima da média, ou quase nove vezes o volume normalmente esperado para o período.
O Copernicus classificou o nível como extremamente incomum.
Uma análise da World Weather Attribution (WWA), ou Rede Mundial de Atribuição, também mencionada pelo Observatório do Clima, concluiu que as mudanças climáticas aumentaram a probabilidade de ocorrência de incêndios no país.
Mudanças climáticas ampliam condições favoráveis ao fogo
Embora os incêndios possam ter diferentes causas de ignição, as condições climáticas exercem papel fundamental na capacidade de o fogo se espalhar e alcançar grandes proporções.
Períodos prolongados de seca, temperaturas elevadas e baixa umidade reduzem a quantidade de água presente na vegetação e criam material mais suscetível à combustão. Ventos fortes podem acelerar ainda mais a propagação das chamas.
O cenário observado em Washington ilustra essa combinação: inverno mais quente, menor quantidade de neve, seca, vegetação ressecada, altas temperaturas e ventos intensos criaram condições especialmente favoráveis aos incêndios.
Na França, por sua vez, a análise da WWA acrescenta a dimensão da mudança climática ao apontar que o aquecimento provocado pela atividade humana tornou mais prováveis as condições relacionadas aos incêndios observados no país.
2026 já é um dos anos mais severos em partes da Europa
O quadro francês integra uma situação mais ampla. Segundo o Copernicus, 2026 está se configurando como um dos anos mais severos já registrados em relação aos incêndios florestais em partes da Europa.
Ao mesmo tempo, os dados da América do Norte mostram que temporadas extremas não se restringem a um único continente: Canadá apresentou emissões excepcionalmente altas em julho e os Estados Unidos passaram a liderar as anomalias no início de agosto.
O monitoramento das emissões acrescenta outra dimensão ao impacto dos incêndios. Além da destruição da vegetação, perda de biodiversidade, danos materiais, evacuações e deterioração da qualidade do ar, grandes queimadas liberam para a atmosfera enormes quantidades de carbono.
O cenário observado em 2026 mostra, assim, um ciclo preocupante: condições mais quentes e secas podem favorecer incêndios mais severos e, ao mesmo tempo, as queimadas liberam grandes volumes de carbono para a atmosfera, reforçando a importância de políticas de prevenção, adaptação climática e manejo do fogo diante de eventos cada vez mais extremos.

