Redação Planeta Amazônia
A possibilidade de fortalecimento do El Niño no segundo semestre de 2026 já provoca mudanças na rotina de comunidades indígenas de Roraima. Na Terra Indígena São Marcos, moradores estão reduzindo o uso do fogo no preparo das roças, modificando áreas de plantio e participando de treinamentos para diminuir o risco de que queimadas tradicionais se transformem em incêndios florestais durante períodos mais quentes e secos.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. A previsão apresentada na reportagem é de que o fenômeno ganhe força durante o segundo semestre deste ano e possa persistir até o início de 2027. Em Roraima, isso pode significar temperaturas mais elevadas, redução das chuvas, alterações no regime de precipitação e maior risco de incêndios florestais.
A preocupação é especialmente significativa porque o período seco no estado ocorre normalmente entre outubro e março. Com temperaturas mais altas e menor volume de chuva, cresce o risco de incêndios em áreas de mata e lavrado, formação de savana característica de Roraima.
Cerca de 100 indígenas participaram de treinamento em Campo Alegre
Na comunidade Campo Alegre, localizada na Terra Indígena São Marcos, cerca de 100 pessoas, entre estudantes e agricultores familiares indígenas, participaram de uma capacitação sobre prevenção e combate ao fogo.
Até o momento retratado pela reportagem, sete comunidades indígenas de Roraima já haviam recebido o treinamento. As capacitações integram oficinas de educação ambiental realizadas em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O objetivo não é simplesmente eliminar o uso do fogo, prática que integra historicamente o cotidiano de diferentes comunidades. Ele é utilizado, por exemplo, no preparo das roças, limpeza das áreas e renovação de pastagens.
A estratégia é orientar os moradores para que a utilização ocorra de maneira mais segura diante das novas condições climáticas.
Manejo Integrado do Fogo orienta adaptação das práticas
Durante as oficinas, os participantes aprendem técnicas preventivas e recebem orientações sobre reciclagem, descarte de resíduos e planejamento agrícola. As atividades incluem ainda conceitos do Manejo Integrado do Fogo (MIF), abordagem destinada a tornar mais seguro o uso das queimadas em situações como o preparo das áreas para plantio.
Segundo Bruno Eduardo Wapichana, supervisor estadual das Brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) em Roraima, as comunidades precisam estar conscientes de que o fogo utilizado tradicionalmente pode escapar do controle e se transformar em um incêndio de grandes proporções, com consequências para a população e o território.
De acordo com o Ibama, algumas comunidades já substituíram ou reduziram o uso do fogo, enquanto outras passaram a planejar melhor os períodos em que a prática ainda é necessária. A mudança integra um processo de adaptação das práticas tradicionais às novas condições climáticas.
Comunidade transfere parte das roças da mata para o lavrado
Em Campo Alegre, a adaptação já produziu mudanças concretas na organização das roças.
A comunidade reduziu o uso do fogo e transferiu parte das plantações de áreas de mata para o lavrado. Também passou a evitar novos plantios em áreas florestais, buscando diminuir a pressão sobre a vegetação e preservar os recursos naturais utilizados pelos próprios moradores.
A mudança, entretanto, trouxe um novo problema: no lavrado, as plantações dependem diretamente do período de chuvas e ficam mais expostas ao calor intenso durante a estiagem.
Segundo Jadeson Barista da Silva, segundo tuxaua da comunidade Campo Alegre, as alterações climáticas já são percebidas pelos moradores e exigem que os conhecimentos sobre preservação ambiental sejam transmitidos às novas gerações.
A liderança relata preocupação com o futuro dos jovens diante do aumento das temperaturas e destaca que a comunidade já sente os efeitos das mudanças no clima.
Mandioca, batata e outras culturas podem sofrer com calor
A transferência das roças para o lavrado evidencia uma dificuldade adicional de adaptação.
Jadeson explica que essas áreas são utilizadas principalmente durante o período de inverno, quando a chuva fornece a água necessária para as plantações. Quando chega a época de maior calor, porém, culturas como mandioca e batata podem ter sua produtividade prejudicada.
Em situações mais severas, parte da produção pode ser perdida.
Assim, uma medida adotada para diminuir a utilização do fogo e reduzir a pressão sobre a floresta também deixa os cultivos mais dependentes da regularidade das chuvas — justamente uma das variáveis que podem ser afetadas pelo El Niño.
Agricultor teme perder quase toda a plantação
A preocupação ganha dimensão concreta na experiência do agricultor indígena Auquino Pereira Augusto, que mantém uma área de cultivo no lavrado.
Em aproximadamente cinco hectares, Auquino cultiva cerca de 60 variedades, entre elas graviola, manga, abacaxi, banana, café, uva, feijão, pimenta, pimentão, cebolinha, mamão e maracujá. A produção constitui a principal fonte de renda de sua família.
Com a possibilidade de um período mais seco, o agricultor teme não dispor de água suficiente para manter todas as plantações.
“A minha preocupação é não ter condição de molhar essas plantas todas.”
Auquino afirma que, diante da situação atual de disponibilidade de água, existe o risco de perder grande parte dos cultivos.
A fotografia apresentada na página 5 do material mostra moradores de Campo Alegre durante uma das capacitações de prevenção e combate aos incêndios. Já a imagem da página 6 registra uma atividade junto às plantações no lavrado, ambiente onde os cultivos ficam mais vulneráveis ao calor durante a estiagem.
Mudança climática impõe desafio à agricultura tradicional
A situação de Campo Alegre demonstra como as mudanças nas condições climáticas podem produzir uma sequência de adaptações nas comunidades.
O risco de incêndios estimula a redução do fogo. Para diminuir a pressão sobre a mata, parte das roças é transferida para o lavrado. No novo ambiente, porém, as culturas ficam mais dependentes das chuvas e vulneráveis às altas temperaturas.
O desafio, portanto, envolve simultaneamente prevenção de incêndios, segurança alimentar, disponibilidade de água, preservação dos territórios e manutenção das práticas agrícolas tradicionais.
A Terra Indígena São Marcos abrange áreas dos municípios de Boa Vista e Pacaraima, e a comunidade Campo Alegre está localizada a aproximadamente 50 quilômetros da área urbana da capital roraimense.
Com a aproximação do período seco e a possibilidade de fortalecimento do El Niño, a experiência da comunidade mostra que a adaptação climática na Amazônia já ultrapassa as projeções sobre o futuro: ela começa a alterar decisões cotidianas sobre onde plantar, quando utilizar o fogo e como garantir água suficiente para manter a produção das famílias.

