Projeto da Ufam alia ciência e conhecimento ancestral para fortalecer pesca ornamental no Rio Negro

Uma atividade que atravessa gerações no Rio Negro e transforma a biodiversidade amazônica em fonte de renda para comunidades locais será objeto de uma iniciativa que pretende aproximar dois tipos de conhecimento: aquele produzido nas universidades e o construído diariamente pelos pescadores que conhecem rios, igarapés, lagos e florestas alagadas da região.

O projeto “A Pesca Ornamental na Bacia do Rio Negro: Integração entre metodologias e experiências da extensão universitária e pós-graduação para o fortalecimento do setor e compromisso social” será desenvolvido pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). FAPEAM

A proposta é coordenada pela pesquisadora Kedma Cristine Yamamoto, professora da Faculdade de Ciências Agrárias da Ufam e coordenadora do Laboratório de Ictiologia.

Ao longo de 18 meses, pesquisadores, estudantes e pescadores ornamentais deverão participar de ações destinadas a fortalecer uma cadeia produtiva histórica no médio Rio Negro, especialmente no município de Barcelos, um dos principais centros brasileiros de captura de peixes ornamentais. Banzeiro News

Pesca ornamental sustenta famílias no Rio Negro

Conhecidos regionalmente como piabeiros, os pescadores ornamentais desenvolveram ao longo de décadas conhecimentos próprios sobre os ambientes aquáticos, períodos de captura, comportamento das espécies e técnicas adequadas para retirar e transportar os pequenos peixes encontrados na região.

A importância dessa atividade não se limita à economia.

Documentos da Funai registram que a pesca comercial de peixes ornamentais no Rio Negro começou ainda na década de 1950, com a descoberta do cardinal em Barcelos. Na década seguinte, a espécie já era exportada comercialmente, e a atividade passou a alcançar municípios vizinhos. Serviços e Informações do Brasil

O conhecimento relacionado à pesca também atravessa gerações. Relatos de famílias indígenas registrados pela Funai remontam ao final dos anos 1960 e mostram inclusive a participação de crianças nas pescarias, utilizando instrumentos adaptados ao próprio tamanho. Serviços e Informações do Brasil

Um estudo científico sobre os piabeiros de Barcelos descreve a bacia do Rio Negro como a maior área de extrativismo de peixes ornamentais do Brasil e destaca a importância socioeconômica da atividade para as populações amazônicas. SciELO

Projeto terá investimento de R$ 116,8 mil

O projeto coordenado por Kedma Yamamoto foi aprovado no Programa de Incentivo à Extensão Universitária e à Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Inovação (PROPG-EX/Fapeam).

Segundo a decisão oficial da Fapeam, serão destinados R$ 116.850 à iniciativa, sendo R$ 51.850 em bolsa e R$ 65 mil em recursos para pesquisa. A vigência prevista é de 18 meses. FAPEAM

A proposta integra um conjunto de projetos voltados a aproximar a pós-graduação das demandas encontradas fora do ambiente universitário.

No caso da pesca ornamental, essa aproximação significa colocar pesquisadores e estudantes em contato direto com os profissionais que vivem da atividade e acumulam conhecimento prático sobre a biodiversidade do Rio Negro.

Capacitação será dividida em três frentes

O trabalho deverá ser organizado em três etapas principais.

Uma delas será direcionada à gestão financeira e organizacional dos pescadores ornamentais, buscando melhorar a capacidade de organização econômica da atividade.

Outra frente tratará das boas práticas de manejo, aspecto essencial em uma cadeia que comercializa animais vivos e depende da qualidade dos peixes desde a captura até a chegada ao comprador.

A terceira etapa terá uma abordagem diferente: os participantes receberão formação em fotografia aplicada à comercialização, mídias digitais e inovação social. Banzeiro News

A intenção é fornecer ferramentas para que os próprios pescadores consigam apresentar melhor seus produtos e ampliar possibilidades de comercialização.

Ao término das atividades, será produzido ainda um e-book digital reunindo conteúdos trabalhados, resultados alcançados e experiências desenvolvidas durante as ações de extensão. Banzeiro News

Universidade quer aprender também com as comunidades

A proposta não trata a relação entre universidade e pescadores como uma transferência de conhecimento em apenas uma direção.

O projeto busca integrar a experiência acadêmica àquela acumulada pelas comunidades que conhecem diretamente os ambientes onde vivem as espécies ornamentais.

Estudantes do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e Recursos Pesqueiros (PPGCARP/Ufam) com experiência em pesca ornamental e aquicultura deverão participar das atividades.

Para Kedma Yamamoto, envolver os pós-graduandos nas ações permite conectar teoria e prática e preparar pesquisadores para desafios encontrados diretamente nos territórios. Banzeiro News

A pesquisadora considera que fortalecer a extensão voltada à pesca ornamental em Barcelos é uma forma de contribuir para transformar uma atividade tradicional em uma cadeia produtiva mais sustentável e rentável.

Amazonas concentra atividade ornamental

A dimensão econômica da pesca ornamental ajuda a explicar a importância de iniciativas voltadas ao setor.

Dados reunidos pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) apontam o Amazonas como o maior produtor brasileiro de peixes ornamentais de água doce.

A atividade está especialmente concentrada na região do Rio Negro, em municípios como Barcelos, Novo Airão, São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro. PRDA

Uma publicação da Embrapa lançada em 2026 estima que o segmento da pesca ornamental amazonense envolva cerca de 2,3 mil famílias e mais de 13 mil pessoas, com forte concentração justamente no médio Rio Negro. Embrapa

Os números demonstram que a cadeia não envolve somente quem captura os peixes. Transporte, armazenamento, comercialização e exportação também fazem parte da atividade.

Cardinal ajudou a construir identidade da pesca regional

Entre as espécies associadas à história da pesca ornamental no Rio Negro, poucas possuem tanta importância quanto o cardinal.

Foi a exploração comercial desse pequeno peixe que ajudou a consolidar Barcelos como referência nacional no setor a partir da segunda metade do século XX. Serviços e Informações do Brasil

Com o desenvolvimento da cadeia, outras espécies passaram a ser capturadas e comercializadas.

Pesquisa realizada com 89 pescadores artesanais de Barcelos identificou espécies pertencentes a diferentes famílias de peixes e mostrou que as capturas ocorrem em ambientes variados, incluindo igarapés, lagos, áreas alagadas, praias, margens de rios e florestas de igapó. SciELO

Essa diversidade ajuda a explicar por que o conhecimento ecológico dos piabeiros é um componente importante para compreender a própria dinâmica da atividade.

Setor enfrenta desafios para manter conhecimento entre gerações

A pesca ornamental do Rio Negro também passa por transformações.

O estudo sobre os piabeiros de Barcelos identificou dificuldades relacionadas à cadeia produtiva e apontou uma questão que vai além da renda: a baixa renovação de pescadores mais jovens.

Segundo os pesquisadores, essa redução na entrada de novas gerações pode ameaçar a transmissão do conhecimento ecológico acumulado pelos trabalhadores mais experientes. SciELO

Nesse contexto, aproximar conhecimento tradicional, pesquisa científica e ferramentas modernas de gestão pode ajudar não apenas a melhorar a comercialização, mas também a valorizar uma atividade que faz parte da história social do Rio Negro.

Pescar pode também significar conservar

A pesca ornamental apresenta uma característica peculiar quando comparada a outras formas de exploração dos recursos naturais: sua continuidade econômica depende diretamente da manutenção dos ambientes onde os peixes vivem.

Igarapés, lagos, florestas inundáveis e outros ecossistemas precisam permanecer capazes de sustentar as populações das espécies comercializadas.

Por isso, diferentes iniciativas de desenvolvimento regional tratam o fortalecimento da atividade como uma possibilidade de geração de renda associada ao uso sustentável da biodiversidade.

Para o novo projeto da Ufam, o desafio será justamente conectar esses elementos: o conhecimento científico produzido na universidade, a experiência dos piabeiros, ferramentas de gestão e novas formas de comercialização.

Mais do que ensinar técnicas às comunidades, a proposta reconhece que parte fundamental do conhecimento necessário para manter a pesca ornamental do Rio Negro já está nas mãos de quem conhece essas águas há gerações.

By emprezaz

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