Imazon e Ufopa firmam parceria para ampliar monitoramento da biodiversidade no norte do Pará

Redação Planeta Amazônia

O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) firmaram um acordo de cooperação técnica para ampliar as pesquisas e o monitoramento da biodiversidade em duas importantes unidades de conservação do norte paraense: a Estação Ecológica Grão-Pará e a Reserva Biológica Maicuru.

Com duração inicial de cinco anos, a parceria pretende reunir pesquisadores de diferentes especialidades, ampliar os grupos de animais e plantas monitorados e produzir informações de longo prazo sobre as transformações nos ecossistemas da região.

A iniciativa ganha relevância diante de uma característica destacada pelos pesquisadores: apesar da elevada biodiversidade e da existência de extensas áreas protegidas no norte do Pará, ainda existem poucas informações de longo prazo sobre a dinâmica dos organismos que vivem nesses territórios.

Monitoramento já envolve moradores e comunidades indígenas

A parceria integra o trabalho desenvolvido pelo Imazon no âmbito do Programa Grande Tumucumaque. Atualmente, o monitoramento utiliza o protocolo florestal do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora), coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Uma das características da metodologia é a possibilidade de participação dos próprios moradores da região, incluindo comunidades indígenas, na coleta de informações e no acompanhamento contínuo da biodiversidade.

A cooperação com a Ufopa deverá ampliar a capacidade científica desse trabalho e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação de pesquisadores na própria Amazônia.

Para Tainara Venturini Sobroza, professora da Ufopa, o acompanhamento permitirá identificar impactos que nem sempre são perceptíveis imediatamente, mas que podem provocar consequências significativas, inclusive em áreas mais distantes das unidades de conservação.

A pesquisadora destaca ainda a importância de envolver estudantes da região nas atividades, formando profissionais que poderão continuar contribuindo para a proteção da natureza amazônica.

Peixes, insetos e pequenos mamíferos devem entrar nas pesquisas

Atualmente, o protocolo utilizado permite acompanhar componentes importantes da biodiversidade, entre eles mamíferos de médio e grande porte.

A nova cooperação pretende ampliar esse conjunto de informações.

Segundo Jarine Reis, pesquisadora do Imazon, novos grupos poderão ser incorporados justamente por apresentarem respostas mais sensíveis às alterações ambientais e às mudanças climáticas.

Entre os organismos que poderão passar a ser estudados estão peixes, insetos, pequenos mamíferos e mariposas.

Os pesquisadores também pretendem aprofundar os levantamentos sobre a vegetação arbórea. A proposta é avançar de identificações mais amplas, feitas atualmente em nível de gênero ou família, para informações mais precisas sobre as espécies presentes nas unidades de conservação.

Região tem alta biodiversidade, mas poucos dados de longo prazo

A escassez de séries históricas sobre a biodiversidade é justamente um dos problemas que a parceria busca enfrentar.

Jarine Reis afirma que o norte do Pará apresenta um potencial muito grande para estudos desse tipo devido à combinação entre elevada diversidade biológica e presença de diferentes áreas protegidas.

Apesar disso, ainda há pouca informação acumulada durante longos períodos que permita compreender como as populações de animais, plantas e outros organismos se modificam nesses territórios.

Essa continuidade é particularmente importante porque alterações ambientais nem sempre produzem consequências imediatas ou facilmente identificáveis.

Uma espécie pode reduzir gradualmente sua presença em determinada região, por exemplo, enquanto outra pode ampliar sua distribuição. Mudanças desse tipo, quando acompanhadas ao longo dos anos, podem fornecer indícios sobre transformações mais amplas nos ecossistemas.

Pesquisadores querem criar uma “linha de base” da biodiversidade

Um dos principais objetivos da cooperação é construir uma chamada linha de base da biodiversidade da Estação Ecológica Grão-Pará e da Reserva Biológica Maicuru.

Na prática, isso significa produzir um conjunto detalhado de informações sobre as condições atuais dos ecossistemas. Esses dados funcionarão como referência para que os pesquisadores possam comparar o estado da biodiversidade ao longo dos próximos anos.

Com essa base, será possível identificar mudanças na composição e na estrutura das espécies e avaliar como os organismos respondem a alterações ambientais.

O trabalho deverá ser especialmente relevante para compreender os efeitos das mudanças climáticas.

Jarine Reis explica que a região apresenta níveis relativamente baixos de intervenção humana, o que oferece condições importantes para acompanhar transformações futuras. Além do clima, os pesquisadores poderão observar efeitos relacionados às mudanças no uso da terra e nas condições de acesso e governança dos territórios.

Áreas pouco alteradas ajudam a compreender impactos climáticos

O baixo grau de intervenção humana em parte das áreas monitoradas possui importância científica particular.

Em regiões intensamente desmatadas ou modificadas, diferentes pressões ambientais ocorrem simultaneamente, dificultando a identificação das causas das alterações na biodiversidade.

Em ecossistemas mais preservados, séries de dados acumuladas durante anos podem ajudar os pesquisadores a compreender melhor como variáveis como temperatura e regime de chuvas interferem na distribuição e no comportamento das espécies.

Isso não significa que as unidades de conservação estejam isoladas das transformações que ocorrem fora de seus limites. A própria parceria pretende identificar impactos que podem se manifestar dentro das áreas protegidas mesmo quando suas origens estão em regiões mais distantes.

Cinco anos são apenas primeira etapa do acompanhamento

Embora o acordo entre Imazon e Ufopa tenha duração inicial de cinco anos, a expectativa é que o monitoramento tenha continuidade por um período muito maior.

O Programa Grande Tumucumaque foi estruturado como uma iniciativa de longo prazo. Por isso, o período estabelecido na cooperação é considerado apenas uma primeira etapa, que poderá ser renovada e ampliada posteriormente.

A continuidade permitirá justamente superar uma das principais limitações científicas existentes hoje na região: a falta de dados acumulados ao longo do tempo.

Quanto maior a série histórica, maior será a capacidade de comparar períodos diferentes e identificar tendências na biodiversidade.

Dados poderão orientar estratégias de conservação

Além da produção acadêmica, os resultados poderão ter aplicação direta na gestão ambiental.

Segundo o Imazon, as informações reunidas podem contribuir para demonstrar a importância das áreas protegidas na manutenção dos ecossistemas amazônicos e fornecer evidências científicas para orientar estratégias de conservação.

Os estudos também poderão ajudar a compreender o papel dessas unidades diante das mudanças climáticas, identificando alterações na biodiversidade antes que determinados impactos se tornem mais graves ou irreversíveis.

A parceria aproxima, assim, monitoramento ambiental, produção científica, participação das comunidades e formação de pesquisadores amazônicos.

Em uma região reconhecida pela riqueza biológica, mas ainda marcada por lacunas significativas de conhecimento científico de longo prazo, acompanhar sistematicamente as espécies permitirá não apenas descobrir mais sobre os ecossistemas atuais, mas registrar como eles estão se transformando.

O acordo entre Imazon e Ufopa busca justamente criar essa memória científica, utilizando a situação presente das unidades de conservação como referência para compreender as mudanças ambientais das próximas décadas.

By emprezaz

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