Unidade em Jaguaribara terá investimento inicial de R$ 52 milhões e poderá processar até 12 mil peles por dia; tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da UFC transforma resíduo da piscicultura em material para tratamento de queimaduras
Uma tecnologia brasileira que transforma pele de tilápia em curativo biológico para queimaduras e feridas de difícil cicatrização está prestes a ganhar escala industrial. O Ceará receberá uma fábrica dedicada ao processamento do material para uso médico, em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, próximo ao Açude Castanhão.
O empreendimento terá investimento inicial estimado em R$ 52 milhões e utilizará uma tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas realizadas na Universidade Federal do Ceará (UFC). A iniciativa transforma uma parte do peixe normalmente descartada pela cadeia produtiva em um produto de maior valor agregado destinado à área da saúde.
Atualmente, o laboratório da UFC consegue preparar aproximadamente 600 peles por mês. A previsão é que a nova fábrica alcance 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial e, em uma segunda etapa, tenha capacidade para processar até 12 mil peles diariamente.
Tecnologia nasceu de pesquisas da UFC
As pesquisas envolvendo a utilização medicinal da pele de tilápia começaram em 2015, no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC, com participação de pesquisadores do Ceará, Pernambuco e Goiás.
A proposta chamou atenção por aproveitar características da pele do peixe para desenvolver um material capaz de ser utilizado sobre regiões lesionadas.
Antes de chegar ao paciente, a pele passa por diferentes etapas de preparação e esterilização. Depois de processado, o material pode ser colocado diretamente sobre a área afetada, aderindo à superfície da ferida. A aplicação vem sendo estudada especialmente para pacientes com queimaduras de segundo e terceiro graus.
A nova fábrica permitirá superar uma das principais limitações existentes até agora: a capacidade de produção.
O salto projetado é significativo. Das cerca de 600 unidades processadas mensalmente no ambiente de pesquisa, a estrutura industrial poderá chegar, em sua segunda fase, a um volume equivalente a 360 mil peles em um mês de 30 dias, caso opere na capacidade projetada de 12 mil unidades diárias.
Curativo pode reduzir trocas e custos do tratamento
Uma das vantagens apontadas pelos responsáveis pelo projeto é a possibilidade de reduzir a frequência das trocas de curativos.
Nos tratamentos convencionais de queimaduras, essas substituições podem causar dor e demandar uso de analgésicos e novos procedimentos. Como a pele processada adere à superfície lesionada, a expectativa é diminuir parte dessas intervenções.
Segundo dados apresentados pelos responsáveis pelo empreendimento, a tecnologia pode proporcionar uma redução de até 52% no custo total do tratamento de queimaduras, em comparação com métodos convencionais. Também existe a expectativa de diminuir o uso de analgésicos opioides e a necessidade de levar repetidamente pacientes ao centro cirúrgico para a troca dos curativos.
Com a produção industrial, a expectativa dos responsáveis é que o produto possa futuramente atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde (SUS).
A disponibilização comercial, entretanto, ainda dependerá do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Liofilização permitirá armazenar curativos sem refrigeração
Outro avanço previsto para a produção industrial é a utilização da liofilização, técnica que retira a água do material e permite ampliar sua conservação.
Na fábrica, a pele poderá ser desidratada, embalada a vácuo e esterilizada. O processo será associado à esterilização por radiação gama.
A previsão apresentada pelos responsáveis pelo projeto é que os curativos possam ter validade de até três anos em temperatura ambiente, sem necessidade de refrigeração. Antes de serem utilizados, poderão ser reidratados com solução fisiológica.
A característica pode ser especialmente relevante para a logística do produto, facilitando seu armazenamento e transporte para localidades distantes dos grandes centros.
Também existem perspectivas internacionais. Segundo informações divulgadas sobre o empreendimento, México, Turquia e Portugal já demonstraram interesse na tecnologia para pesquisas e possíveis aplicações.
Jaguaribara foi escolhida pela produção de tilápia
A instalação da fábrica em Jaguaribara não ocorre por acaso. O município está próximo ao Açude Castanhão, uma das principais regiões produtoras de tilápia do Ceará.
Essa proximidade permitirá conectar a cadeia da piscicultura à produção dos curativos.
A pele, que normalmente possui baixo valor ou pode ser descartada durante o processamento do pescado, passa a ser utilizada como matéria-prima de um produto médico de maior valor agregado.
A iniciativa estabelece, dessa forma, uma ligação entre aquicultura, pesquisa científica, biotecnologia e saúde, demonstrando uma possibilidade de aproveitamento de resíduos da produção de alimentos por meio da inovação.
A previsão é que o empreendimento gere inicialmente cerca de 200 empregos diretos, com capacitação de parte dos trabalhadores e participação da UFC e de instituições parceiras.
Fábrica poderá começar a operar em 2028
A construção está prevista para começar em outubro de 2026. O cronograma estima um período entre 15 e 18 meses para obras, instalação dos equipamentos e validação dos primeiros lotes.
Caso o planejamento seja cumprido, a fábrica poderá iniciar suas operações em janeiro de 2028. A efetiva chegada dos curativos ao mercado, contudo, continuará condicionada às autorizações sanitárias necessárias.
O projeto industrial será conduzido pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical, levando para uma escala muito maior uma tecnologia que nasceu dentro da universidade pública brasileira.
Mais do que ampliar a capacidade de produção, o empreendimento representa uma tentativa de completar o caminho entre pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e aplicação comercial.
Se as etapas regulatórias forem concluídas, uma matéria-prima originada da piscicultura poderá chegar aos hospitais na forma de um produto médico desenvolvido no Brasil — transformando aquilo que normalmente seria descartado em uma tecnologia voltada ao tratamento de pacientes queimados.

