Mais de 80% dos municípios brasileiros são vulneráveis a desastres climáticos, aponta levantamento

Mais de 80% dos municípios brasileiros apresentam vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos, como inundações, enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra. O diagnóstico faz parte de um levantamento inédito realizado pelo Observatório do Clima (OC) a partir de dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Ao todo, aproximadamente 4,5 mil municípios aparecem nas três faixas de vulnerabilidade. O indicador não considera apenas a possibilidade de ocorrência de eventos extremos: combina a sensibilidade de cada cidade aos impactos climáticos com sua capacidade de adaptação.

Os números reforçam um problema que vem ganhando importância no país à medida que secas, enchentes, chuvas extremas e outros eventos atingem diferentes regiões: não basta conhecer as ameaças climáticas. A capacidade das cidades de preparar infraestrutura, proteger a população e responder aos desastres pode determinar a dimensão dos danos.

Mais de 3,7 mil cidades estão sob risco de inundações e alagamentos

Quando a análise deixa a vulnerabilidade geral e considera especificamente o risco de ocorrência de danos, o cenário também preocupa.

Segundo o levantamento, 3.769 municípios — 68% das cidades brasileiras — apresentam risco médio, alto ou muito alto de inundações, enxurradas e alagamentos.

Em 1.513 municípios, equivalentes a 27% do total nacional, esse risco já é classificado como alto ou muito alto.

Para os deslizamentos de terra, 2.930 municípios, ou 53% do total, apresentam risco entre médio e muito alto. Em 1.041 cidades — cerca de 19% dos municípios brasileiros — o índice é alto ou muito alto.

Os indicadores mostram que os diferentes tipos de desastre não estão distribuídos de maneira uniforme pelo território brasileiro.

Amazônia concentra risco de inundações

Na Amazônia, a principal preocupação está relacionada às inundações.

Os dados do AdaptaBrasil indicam que esse risco se manifesta com maior intensidade na região amazônica, nas grandes bacias hidrográficas e também em áreas urbanas. Os deslizamentos, por sua vez, representam ameaça maior nas regiões serranas do Sul e Sudeste e em partes do litoral do Nordeste.

A característica ganha relevância para os estados amazônicos, onde rios desempenham papel fundamental na mobilidade, no abastecimento, na economia e na própria organização das comunidades.

Entre as capitais brasileiras, cidades amazônicas aparecem nas primeiras posições quando são somados os riscos de inundações e deslizamentos.

Salvador (BA) lidera o levantamento, seguida por Belém (PA), Manaus (AM) e Macapá (AP).

A presença de três capitais da Amazônia entre as quatro primeiras reforça a importância de políticas de adaptação direcionadas às particularidades da região.

Vulnerabilidade não depende apenas do clima

O levantamento chama atenção para uma diferença fundamental entre ameaça climática e desastre.

Um evento extremo pode produzir consequências muito diferentes dependendo da infraestrutura disponível e das condições sociais da população atingida.

Para Henrique Frota, diretor-executivo do Instituto Pólis, renda, infraestrutura e acesso aos serviços públicos interferem diretamente na capacidade das famílias de enfrentar e se recuperar de eventos extremos.

A desigualdade aparece, portanto, como elemento central da vulnerabilidade climática.

Famílias de menor renda tendem a ocupar regiões mais expostas e possuem menos recursos para deixar temporariamente uma área atingida, reconstruir a moradia ou recuperar bens perdidos.

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul ilustram essa diferença. Embora o desastre tenha alcançado diferentes classes sociais, segundo Frota, famílias de maior renda tiveram melhores condições para encontrar abrigo e posteriormente reconstruir suas vidas.

Periferias enfrentam combinação de problemas

Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, analisar os impactos das mudanças climáticas sem considerar as desigualdades socioeconômicas pode levar a uma compreensão incompleta do problema.

Áreas periféricas e ocupações mais recentes frequentemente apresentam deficiências de saneamento, drenagem, transporte, regularização fundiária e monitoramento. Quando chuvas extremas ou outros eventos atingem essas localidades, essas carências aumentam a vulnerabilidade.

Essa relação também significa que políticas de adaptação climática precisam dialogar com questões tradicionalmente tratadas como problemas urbanos ou sociais.

Habitação adequada, drenagem, saneamento, planejamento territorial e transporte passam a integrar também uma estratégia de proteção diante das mudanças climáticas.

Riscos devem aumentar nas próximas décadas

As projeções utilizadas pelo AdaptaBrasil indicam que a situação tende a se tornar mais desafiadora.

Os riscos de desastres geo-hidrológicos deverão aumentar nas próximas décadas mesmo nos cenários climáticos mais favoráveis. Em diversas capitais, a diferença entre cenários mais otimistas e pessimistas é relativamente pequena.

Isso significa que parte da adaptação já não pode depender apenas do sucesso futuro das políticas de redução das emissões de gases de efeito estufa.

Embora a mitigação continue fundamental para limitar o aquecimento, cidades precisarão simultaneamente se preparar para impactos que já estão ocorrendo ou se tornando mais prováveis.

PAC destina recursos, mas especialistas apontam necessidade de mais investimentos

O levantamento também analisa os recursos destinados à prevenção.

Na primeira etapa do Novo PAC, foram alocados R$ 5,3 bilhões para o programa Periferia Viva, além de R$ 4,8 bilhões para drenagem urbana e aproximadamente R$ 1,67 bilhão para contenção de encostas.

Henrique Frota reconhece avanços nessas políticas, mas avalia que os valores ainda são insuficientes diante da dimensão das necessidades existentes.

Há também uma dificuldade estrutural: muitas prefeituras dependem de transferências federais para executar obras caras de drenagem e contenção de encostas.

Além dos recursos financeiros, municípios precisam dispor de equipes técnicas capazes de desenvolver e executar projetos integrados envolvendo habitação, urbanismo, meio ambiente, assistência social e Defesa Civil.

Infraestrutura precisa ser preparada para um novo clima

Outro desafio apontado pelos especialistas é que grande parte da infraestrutura brasileira foi projetada considerando padrões climáticos observados no passado.

Com eventos extremos mais intensos, estruturas de drenagem, sistemas viários, moradias e outras obras podem deixar de oferecer a proteção originalmente prevista.

Por isso, a adaptação não consiste simplesmente em reconstruir aquilo que foi destruído.

Para Frota, uma política preventiva precisa evitar a reprodução das mesmas vulnerabilidades depois de cada desastre. O princípio vale também para novos empreendimentos habitacionais, que precisam incorporar desde sua concepção a possibilidade de chuvas mais intensas e outros extremos climáticos.

Planos diretores podem se tornar instrumentos de adaptação

Os municípios possuem ainda instrumentos próprios que podem contribuir para reduzir os riscos.

Os planos diretores, por exemplo, podem limitar ocupações em áreas naturais ou vulneráveis, orientar a expansão urbana, proteger bacias hidrográficas e direcionar investimentos em drenagem, saneamento, transporte e habitação segura.

Diosmar Santana Filho destaca que a presença de famílias em áreas de risco também evidencia outro problema: a falta de acesso a terras urbanas seguras e financeiramente acessíveis.

Nesse sentido, retirar uma família de uma região vulnerável sem enfrentar as causas que levaram à ocupação pode simplesmente transferir ou reproduzir o problema.

Adaptação passa a ser questão de desenvolvimento

O levantamento coloca a adaptação climática como uma política que precisa deixar de ser predominantemente reativa.

Em vez de concentrar esforços apenas depois de enchentes, deslizamentos e outros desastres, especialistas defendem que governos utilizem os dados disponíveis para antecipar riscos e direcionar investimentos.

A plataforma AdaptaBrasil pode desempenhar papel importante nesse processo ao permitir que gestores identifiquem vulnerabilidades e diferentes tipos de ameaça em seus territórios.

O diagnóstico assume ainda mais relevância diante do cenário climático de 2026. Dados da mesma plataforma indicam que dois em cada três municípios brasileiros possuem capacidade adaptativa baixa ou muito baixa às mudanças climáticas.

Para os especialistas ouvidos pelo Observatório do Clima, a resposta passa pela combinação entre mitigação e adaptação, sem que uma política substitua a outra.

Os dados mostram que essa transformação precisará alcançar praticamente todo o território nacional: quando mais de 80% dos municípios apresentam algum grau relevante de vulnerabilidade a desastres geo-hidrológicos, preparar as cidades para eventos extremos deixa de ser uma agenda restrita à Defesa Civil e passa a integrar o próprio planejamento do desenvolvimento brasileiro.

By emprezaz

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