A possibilidade de ocorrência de um Super El Niño no fim deste ano aumenta a preocupação com os impactos de eventos climáticos extremos sobre a agricultura brasileira. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estimam em 95% as chances de o fenômeno ocorrer de forma muito intensa no último trimestre do ano, período que coincide com o início do plantio de diversas culturas no Centro-Oeste, uma das principais regiões produtoras do país.
O cenário reforça a importância de preparar a produção para secas, excesso de chuvas e outros eventos extremos não apenas com respostas emergenciais, mas também com medidas estruturantes. Entre elas estão a restauração da vegetação nativa, o fortalecimento do seguro rural, a ampliação do acesso ao crédito e da assistência técnica.
“Temos defendido que o país precisa avançar em soluções que reduzam os riscos para a produção e deem mais segurança ao produtor diante de um clima cada vez mais instável”, afirma Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, rede formada por mais de 400 empresas e organizações da sociedade civil. “Temos conhecimento, tecnologia e instrumentos de política pública para isso, mas é preciso fazer essas soluções chegarem ao campo de forma integrada e ganharem escala.”
O seguro rural é um desses instrumentos. A ampliação de sua cobertura é fundamental para reduzir a vulnerabilidade financeira dos produtores diante de perdas provocadas por eventos extremos e consequentemente quebras severas de safra como aquelas potencialmente provocadas pelo Super El Niño deste ano, contribuindo para preservar sua capacidade de produção nos ciclos seguintes.
“O Super El Niño chama a atenção para um problema que vai além de um fenômeno específico. Precisamos estar mais preparados para eventos extremos, combinando instrumentos de proteção financeira com outros que tornem a própria produção menos vulnerável. O Brasil tem capacidade técnica e científica para transformar esse desafio em avanço estruturante de forma mais permanente, e não apenas em resposta emergencial”, acrescenta Castro, que também é diretor de País da Fundação Solidaridad.
Quatro caminhos para reduzir os riscos para a produção
1. Tornar o seguro rural mais robusto
Ampliar o alcance do seguro rural contribui para reduzir os impactos financeiros de eventos extremos e de quebras severas de safra. O instrumento oferece maior proteção ao produtor e ajuda a preservar sua capacidade de continuar produzindo nos ciclos seguintes.
2. Melhorar o acesso ao crédito para adaptação
O financiamento deve facilitar investimentos em tecnologias e práticas que reduzam a exposição da produção aos riscos climáticos. Em um cenário de juros elevados, aumento dos custos de produção e endividamento de parte dos produtores, instrumentos adequados de crédito são importantes para permitir a modernização das propriedades e a adoção dessas soluções.
3. Fortalecer a assistência técnica
A ampliação dos serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) é fundamental para fazer com que conhecimento, tecnologias e políticas públicas cheguem ao produtor. O fortalecimento da assistência técnica, especialmente para pequenos e médios produtores, ajuda a ampliar a adoção de práticas mais adequadas às diferentes condições climáticas e produtivas do país e a acelerar a transição para sistemas produtivos mais resilientes.
4. Acelerar a restauração da vegetação nativa
Recuperar a vegetação nativa, em especial em áreas degradadas e conservar os remanescentes, contribui para a conservação do solo, da água e dos serviços ecossistêmicos dos quais a produção agropecuária depende. A restauração deve integrar uma estratégia de longo prazo onde a conservação dos ativos ambientais amplie a segurança produtiva da propriedade.
Sobre a Coalizão
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento composto por mais de 400 organizações, entre entidades do agronegócio, empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia. A rede atua por meio de debates, análises de políticas públicas, articulação entre diferentes setores e promoção de iniciativas que contribuam para a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil.

