Ar-condicionado pressiona redes elétricas e já responde por até um terço do consumo nos horários de pico

Ondas de calor e aumento da renda impulsionam uso de sistemas de refrigeração; expansão do acesso ao conforto térmico coloca eficiência energética e capacidade das redes no centro do debate climático

O avanço das ondas de calor e das temperaturas extremas está transformando o ar-condicionado em um dos principais desafios para os sistemas elétricos. Em períodos de maior calor, quando milhões de aparelhos são ligados simultaneamente, a refrigeração pode representar uma parcela expressiva da demanda por eletricidade e pressionar justamente os horários em que as redes operam mais próximas de seus limites.

A questão ganha relevância à medida que o planeta aquece e cresce o acesso aos aparelhos, especialmente nos países emergentes. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o aumento da renda e das temperaturas fará a refrigeração acrescentar centenas de gigawatts à demanda elétrica de pico mundial até 2035.

O fenômeno cria um paradoxo climático: quanto mais quente o planeta fica, maior é a necessidade de refrigeração; quanto maior o consumo elétrico para refrigeração, maior pode ser a pressão sobre sistemas energéticos ainda dependentes de combustíveis fósseis.

Calor transforma refrigeração em necessidade

Durante décadas, o ar-condicionado foi tratado em muitos países como um equipamento associado principalmente ao conforto. A intensificação das temperaturas extremas, entretanto, está alterando essa percepção.

Em regiões sujeitas a ondas de calor cada vez mais frequentes, a refrigeração passa a desempenhar também um papel de proteção à saúde e adaptação às mudanças climáticas.

Essa transformação tende a ampliar rapidamente a quantidade de aparelhos em funcionamento no mundo.

A IEA já havia estimado que, até 2050, aproximadamente dois terços dos domicílios do planeta poderiam possuir ar-condicionado, com China, Índia e Indonésia respondendo conjuntamente por metade do número global de aparelhos.

O problema não é apenas a quantidade total de eletricidade consumida durante o ano. O maior desafio está na concentração da demanda.

Pico de consumo é o principal desafio

Imagine milhões de residências, lojas e escritórios ligando seus aparelhos aproximadamente no mesmo período de uma tarde ou noite extremamente quente.

A rede elétrica precisa possuir capacidade suficiente para atender a esse pico, mesmo que a demanda máxima permaneça nesse nível por apenas algumas horas.

Esse comportamento já pode ser observado em grandes mercados. Na Índia, por exemplo, embora menos de 20% dos domicílios possuíssem ar-condicionado em 2024, a refrigeração já respondia por aproximadamente 60 GW da demanda máxima de eletricidade. A IEA projetava que, até 2030, os equipamentos de refrigeração poderiam responder por um terço da demanda elétrica de pico do país, chegando a cerca de 140 GW.

Em junho deste ano, a agência voltou a destacar a dimensão do problema: nas noites mais quentes do verão indiano, os aparelhos de ar-condicionado já podem representar até um terço do consumo de eletricidade.

A situação é ainda mais extrema em determinados lugares. Estudos anteriores da IEA já identificaram participação da refrigeração de 50% ou mais na demanda de pico em regiões muito quentes.

Ondas de calor aceleram consumo de eletricidade

Os efeitos das temperaturas elevadas já aparecem nos números globais.

Em 2024, o consumo mundial de eletricidade aumentou 4,3%, bem acima dos 2,5% registrados no ano anterior.

Somente os edifícios consumiram mais de 600 TWh adicionais de eletricidade, respondendo por quase 60% do crescimento mundial naquele ano. Entre os principais responsáveis estavam o aumento do uso de ar-condicionado, impulsionado pelas fortes ondas de calor na China e na Índia, e a expansão dos data centers.

A relação entre temperatura e demanda também está ficando mais intensa.

Na Índia, cada aumento de 1°C na temperatura média diária acrescentou mais de 7 GW à demanda máxima de eletricidade em 2024. Esse impacto era aproximadamente duas vezes maior que o observado em 2019.

Mudanças climáticas podem criar ciclo de pressão sobre energia

O crescimento da refrigeração expõe uma das contradições da adaptação climática.

A população precisa se proteger de temperaturas mais elevadas, mas os equipamentos utilizados para proporcionar esse conforto demandam eletricidade.

Quando essa energia é produzida a partir de carvão, gás ou outros combustíveis fósseis, o aumento do consumo pode resultar também em novas emissões de gases de efeito estufa.

Em 2024, apesar do rápido crescimento das fontes renováveis, o carvão ainda respondeu por 35% da geração mundial de eletricidade e o gás natural por mais de 20%.

O desafio, portanto, não consiste em simplesmente restringir o uso do ar-condicionado. Em muitas regiões, a refrigeração está se tornando uma necessidade de adaptação.

A questão passa a ser como oferecer acesso ao resfriamento sem provocar uma expansão desproporcional da demanda elétrica e das emissões.

Eficiência dos aparelhos pode fazer enorme diferença

Uma das respostas está na eficiência energética.

Existem diferenças significativas entre a quantidade de eletricidade necessária para que diferentes equipamentos produzam o mesmo nível de refrigeração.

A IEA destaca que aparelhos consideravelmente mais eficientes do que os modelos médios atualmente comprados pelos consumidores já estão disponíveis no mercado, muitas vezes sem custo adicional significativo.

A dimensão potencial dessa mudança é expressiva.

Em seu estudo sobre o futuro da refrigeração, a agência calculou que políticas capazes de dobrar a eficiência média dos aparelhos poderiam reduzir em 45% a demanda de energia destinada à refrigeração em relação ao cenário de referência.

Além de diminuir a conta de energia dos consumidores, aparelhos eficientes reduzem a necessidade de construir novas usinas e ampliar redes exclusivamente para suportar os momentos de maior consumo.

Casas e cidades também podem precisar mudar

A resposta ao aumento das temperaturas não depende apenas dos equipamentos.

Edificações capazes de reduzir a entrada de calor precisam de menos energia para manter temperaturas confortáveis. Elementos como isolamento térmico, ventilação, sombreamento, arborização e materiais adequados ao clima podem diminuir a dependência da refrigeração mecânica.

Em escala urbana, áreas verdes e redução das chamadas ilhas de calor também ajudam a diminuir as temperaturas locais.

A discussão, portanto, passa a envolver não somente política energética, mas também arquitetura, planejamento urbano, habitação e adaptação climática.

Energia solar pode ajudar, mas noites quentes são desafio

Existe uma combinação particularmente interessante entre calor e energia solar.

Muitos períodos de elevada utilização do ar-condicionado coincidem com forte incidência solar, permitindo que painéis fotovoltaicos forneçam eletricidade justamente quando a demanda aumenta.

O problema aparece quando o calor permanece intenso depois que o sol se põe.

Na Índia, por exemplo, a demanda elétrica noturna vem crescendo rapidamente em razão da refrigeração. Sem geração solar disponível nesse horário, aumenta a importância do armazenamento em baterias e de outras fontes capazes de fornecer eletricidade durante a noite.

O fenômeno demonstra como a adaptação ao calor passa a interferir diretamente no planejamento dos sistemas elétricos.

Acesso à refrigeração também é questão de desigualdade

Existe ainda uma dimensão social.

Enquanto parte da população mundial discute como reduzir o consumo de aparelhos de ar-condicionado, milhões de pessoas expostas a temperaturas perigosas não possuem condições financeiras ou sequer acesso confiável à eletricidade para utilizar sistemas de refrigeração.

Atualmente, cerca de 730 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à eletricidade, segundo a IEA.

A expansão do ar-condicionado nos países emergentes deverá ocorrer justamente à medida que renda, urbanização e acesso à energia aumentarem.

Isso torna pouco realista uma estratégia baseada simplesmente em impedir que novas populações tenham acesso ao conforto térmico já disponível em países mais ricos.

O desafio climático é outro: universalizar formas seguras de enfrentar o calor utilizando equipamentos mais eficientes, edifícios adequados e sistemas elétricos progressivamente mais limpos.

Um desafio que tende a crescer

As projeções indicam que a pressão sobre as redes elétricas ainda está longe do pico.

No cenário de políticas atualmente anunciadas analisado pela IEA, apenas o crescimento do uso de ar-condicionado provocado pelo aumento da renda pode acrescentar cerca de 330 GW à demanda elétrica máxima mundial até 2035.

O aumento das temperaturas acrescentaria outros 170 GW.

Somados, são aproximadamente 500 GW adicionais de demanda de pico relacionados à expansão da refrigeração e ao aquecimento.

O ar-condicionado passa, assim, a representar uma das faces mais concretas da adaptação às mudanças climáticas: enquanto temperaturas recordes tornam a refrigeração cada vez mais necessária, sua expansão exige redes elétricas mais robustas, geração mais limpa, equipamentos eficientes e cidades mais preparadas para o calor.

A discussão não é mais simplesmente se o mundo utilizará mais ar-condicionado. As tendências indicam que isso ocorrerá. A questão decisiva será quanta energia será necessária para manter bilhões de pessoas protegidas do calor — e de onde virá essa eletricidade.

By emprezaz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens relacionadas